quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Falcata




Foi, talvez, a mais emblemática e eficaz arma dos Lusitanos e aquela que mais "dotes de cabeça"
causou às hostes romanas.
Não se sabe a origem da falcata na Ibéria. Há duas teorias, ambas possíveis: segundo uns a falcata
não foi mais do que uma adaptação local de uma faca de lamina curta do período Halstatt,
proveniente da Europa Central e que se disseminou pela Grécia, Itália e Península Ibérica. Esta teoria é refutada pela maioria, que considera a falcata uma copia exacta da machaera ou kopis grego, levado para a Ibéria por mercadores gregos ou por mercenários recrutados pelos gregos, por volta do século VI A.C.
 Outros defendem a ideia de que a falcata é uma criação local (ibérica). Embora tal não seja completamente absurdo, a influência da cultura grega ao longo de todo o Mediterrâneo foi de tal ordem que a maioria dos historiadores considera pouco credível a ideia da invenção local daquela arma.

Enquanto os legionários romanos utilizavam o gladio quase sempre de ponta, a falcata nunca era usada para espetar, mas para actuar de gume. O desenho tão característico desta arma colocava o POB junto da ponta da lamina, o que a tornava uma arma basicamente desequilibrada e por isso mortal, já que aumentava enormemente o seu efeito cinético.

De uma maneira geral o gume da falcata localizava‐se (ao contrario dos sabres) no interior da curva. Daí a sua espectacular eficácia. Mas, muitos fabricantes tentavam aumentar ainda mais a sua eficácia afiando  também o lado contrario ao gume. Assim, a falcata ficava a possuir dois gumes e podia ser utilizada em direcções contrárias.

Diodoro relata que as falcatas possuíam uma tal qualidade que nenhum elmo, escudo ou ossos podiam resistir aos seus golpes. Seneca conta um episódio que bem demonstra o terror que os legionários romanos sentiam pela falcata. Um veterano encontra César a quem pergunta se se lembrava de um jovem legionário que lhe levou água no elmo quando ele (César) descansava sob uma árvore:
"Então imperador, reconhecerias esse homem ou esse elmo? César respondeu que não podia reconhecer o elmo, mas o legionário reconhece‐lo‐ia certamente. E acrescentou. Mas tu não és de certeza esse legionário. Não me surpreende ‐ disse o homem ‐ que não me reconheças, César, porque quando isso aconteceu eu estava inteiro. Depois, em Munda, arrancaram‐me um olho e a minha cabeça foi esmagada. Jamais poderia conhecer esse elmo se o visse: ficou dividido ao meio por uma machaera hispana".

Esta impressionante narrativa da‐nos a conhecer, para além da ideia da brutalidade desta arma, o nome porque era conhecida naquela época, entre os Romanos. Falcata é uma denominação recente, data do século XIX. Ficamos a saber que os Romanos a conheciam por machaera hispana, mas nada sabemos sobre essa denominação dada pelos Lusitanos. Tenho tentado por todos os meios descobrir, mas até agora os meus esforços foram infrutiferos.
As muitas falcatas descobertas em território português e espanhol permitiram classifica‐las em três grupos, segundo o tipo de empunhaduras:

I ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de pássaro;
II ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de cavalo;
III ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de lobo.

Podemos, ainda, considerá‐las de acordo com o comprimento das laminas:
A ‐ falcatas de lamina longa;
B ‐ falcatas de lamina curta.

Os exemplares mais antigos foram encontrados em Villaricos, junto de vasos gregos importados e datam dos século V e IV A.C., provavelmente cópia dos modelos gregos, e em todos eles a empunhadura assume a forma de uma cabeça de pássaro ou bico de mocho. É uma utilização que faz todo o sentido já que aquela ave fazia parte integrante da simbologia grega.

À medida que as falcatas se foram vulgarizando em território ibérico, o punho foi assumindo a forma de pescoço de cavalo, provavelmente pela muita estima e veneração que os povos da Ibéria tinham por aquele animal. Só bastante mais tarde alguns raros exemplares passaram a ostentar a cabeça de lobo, símbolo da guerra.

De uma maneira geral, podemos considerar esta tipologia extensível ao território português, onde vamos encontrar todos estes tipos de falcata. O que não há dúvida alguma é que durante as campanhas de Viriato a falcata estava já bastante difundida por todo o território da Lusitânia.
Quando o pretor P. Carisius ordenou a cunhagem de dentários em Emerita Augusta, para celebrar a sua vitória sobre os Cantabri, em 22 A.C., mandou gravar na face da moeda uma falcata e uma caetra, as armas dos vencidos.

O comprimento usual das falcatas da orla mediterrânica e do interior da Península Ibérica andava a volta dos 60/70 cm. Mas o comprimento das falcatas lusitanas era muito menor. Raramente excediam os 38 cm de lamina. A lamina apresentava 5 cm na sua parte mais larga e a sua espessura era de 5mm.
Os Lusitanos combatiam em grandes aglomerados de homens, muito concentrados, e onde a confusão devia ser imensa. Por isso, uma arma curta trazia sempre enormes vantagens em maleabilidade e em eficácia.

Embora não haja provas cabais, tudo leva a crer que a cavalaria lusitana teria usado falcatas mais longas, reservando para a infantaria as espadas mais curtas.
A falcata era transportada numa bainha geralmente de couro (embora pudesse também ser feita de outros materiais) reforçada por tiras metálicas moldadas ao longo dos gumes da bainha, onde eram caldeadas três ou quatro argolas destinadas a suspender a arma do ombro a anca (direita ou esquerda) do combatente, ficando esta numa posição horizontal, com o gume cortante voltado para baixo.

Fonte: http://www.historia.templodeapolo.net/

6 comentários:

  1. Até qu'enfim, um blog que dá gosto ler...

    Esta blogosfera anda completamente perdida...

    Irei voltar, com toda a certeza...

    ResponderEliminar
  2. Obrigado pelas palavras!
    Aguardo o regresso... :)

    ResponderEliminar
  3. Na pré-história de Galiza e Portugal encontram-se pinturas rupestres imagens de guerreiros com falkatas de punho fechado, em essas épocas remotas, e que ainda não existiam gregos ou outros povos!

    ResponderEliminar
  4. Desconheço qualquer pintura rupestre com artefactos tão elaborados como a falcata, se possivel agradeço que me diga uma fonte credível com essa informação ou a localização dessas pinturas. Cumprimentos!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Existe um único exemplar de uma Falcata em ferro no Museu Nacional de Arqueologia nos Jerónimos, mas não está em exposição permanente, salvo erro foi encontrada juntamente com um elmo de Bronze na região de Monfortinho. Parabéns pelo trabalho desenvolvido no Blogue.

      Eliminar
  5. boa tarde.. desculpe o possível reparo, mas no inicio do seu texto quando diz "mais dotes de cabeça", não quererá dizer "" mais dores de cabeça""??...
    mais uma vez desculpe a minha ousadia e os meus parabéns pela notável descrição que faz desta peça do nosso passado lusitano..

    ResponderEliminar