quarta-feira, 7 de outubro de 2015




O simbolismo da Roda Solar


A roda solar é uma evolução maior do símbolo solar primitivo, que é o círculo. Os dois eixos sobrepostos formando os quatro pontos cardeais formam, assim, a base de todos os símbolos de orientação. É a mesma coisa que uma bússola marcando o Norte em sua parte superior. Mas bem antes da invenção da bússola, este símbolo solar estava presente em todas as culturas europeias, principalmente na Idade do Bronze. Essa época distante nos deixou, entre outras coisas, as numerosas rochas gravadas na Escandinávia, cobertas destas rodas solares. Encontramos também um grande número delas na tradição Celta, embora outras culturas pagãs ao redor do mundo tenham usado este símbolo. Mas antes de adentrarmos nos mistérios da roda solar, vejamos antes alguns aspectos ligados à própria noção de orientação. A orientação implica três elementos de base: a localização do sujeito está marcada pelo ponto central; a orientação no espaço marcada segundo os pontos cardeais terrestres Leste e Oeste, que designam o amanhecer e o pôr do Sol; a orientação marcada segundo os pontos cardeais do eixo Norte e Sul. A roda solar veicula uma verdadeira síntese da orientação em todos os sentidos.
Não só nos orienta no espaço, mas também no tempo do curso do ano solar, já que esta roda sagrada é um símbolo do movimento vital. Sem movimento não há vida, é o movimento cíclico que marca nossas festividades pagãs mais importantes, como os solstícios de inverno e verão, os equinócios de outono e primavera. Estas festas não foram meramente agrícolas, mas tiveram um carácter altamente religioso para nossos ancestrais politeístas.

O solstício de inverno, deformado pelo Cristianismo, se transformou na festa do Natal. Esta data marca o momento do ano no qual a Natureza recupera sua respiração, abrindo, assim, as portas do novo ano, depois de um período de 12 noites sagradas. Os dias se fazem mais largos, permitindo, assim, a chegada de dias melhores e o retorno do Sol. Os Romanos celebravam o culto ao Deus solar Mitra, entre outros, este renascia a cada ano em 25 de Dezembro como filho do Sol. Se designou essa data como a de Sol Invictus, o “sol invencível”. Pouco antes, os Romanos celebravam a Saturnália, momento quando era costume dar presentes. Este período se acabava com a festa e culto ao deus Janus, o deus bicéfalo que leva uma chave nas mãos. Este deus deu seu nome ao mês de Janeiro, sendo este que abre e fecha as portas do novo ano solar. Esta época do ano estava tão arraiada em todas as culturas pagãs da Europa que o Cristianismo só pôde acabar com ela integrando-a em seu calendário ao final do século IV, colocando na mesma data o nascimento de Cristo para substituir e excluir a lembrança do Sol Invictus.
O equinócio da primavera marca o retorno dos dias bonitos e quentes, é o período do ano dedicado à fertilidade e ao amor. A vegetação volta a crescer de novo e os demónios do inverno são expulsos, a promessa de campos férteis enche os corações das pessoas, as flores inundam com milhares de flores os campos, os casais se formam e se unem graças ao encanto mágico da primavera. Tudo cresce. É a celebração do renascer da vida após a pausa invernal. Os Germânicos rendiam culto a Ostara, também chamada Eostre, deusa que deu seu nome à festa de Páscoa (Ēostre, quem está por trás do nome da Páscoa em inglês: Easter). Naquele período, nos quais os dias e as noites eram de mesma duração, era evidentemente a ocasião para celebrar a união do Pai-Céu e a Mãe-Terra, união que, nove meses mais tarde, durante o solstício de inverno, dará a luz ao Sol Invictus, filho do sol.
O solstício de verão é o momento no qual o sol se encontra em seu apogeu, marcando, para nossos ancestrais, um instante mágico durante o qual as forças solares estão ao máximo de suas capacidades. A natureza resplandece com força e com inigualável claridade. O verão traz consigo calor, alegria e abundância, elementos que ainda hoje encantam os veraneantes em busca da felicidade. Mas o solstício é um momento paradoxal do ano, já que no mesmo instante em que o Sol se encontra em seu ponto culminante, momento da vitória das forças solares sobre as do escuro inverno, o Sol anuncia já o destino inevitável de sua carreira cíclica e do declive que o espera. Os dias, pouco a pouco, começaram a ficar mais curtos, a luz diurna tomara o caminho do Crepúsculo dos Deuses. Para os Germânicos, era costume incendiar grandes rodas solares e lançá-las morros abaixo, o que simbolizava o aspecto fecundante do Sol e seu declive anunciado. Muitos rituais têm representado e continuam representando o Solstício de Verão. Nos países bálticos, onde o paganismo ainda segue vivo, o Solstício de Verão é uma autêntica festa nacional, as pessoas usam coroas feitas com folhas de carvalho, que simbolizam o Sol sagrado, dançam e cantam ao redor das fogueiras. Estas fogueiras se encontram por toda a Europa, onde os povos celebram a alegria do dia mais largo do ano. Os bailes em círculo, assim como as fogueiras, são hinos simbólicos ao Sol. O Cristianismo tentou também desviar e absorver o sentido destas festas, fazendo dela a festa de São João. Essas festas de São João têm, desde algumas décadas, tendências a voltar a suas verdadeiras raízes: pagãs. Um caso observável são Les Focs de la San Joan na Catalúnia do Norte. Esta festa não está ligada a nenhum santo cristão, e sim ao Deus Solar de todas as tradições pagãs da Europa: Apolo para os gregos, Belenos/Lugh para os celtas, Baldur na tradição germano-nórdica, Abelio para os celtiberos, Dazbog para os eslavos. Ainda que deva ser notado que, para os celtas, as 4 festas maiores não coincidem com as festas dos demais povos europeus, o que as vezes gera confusão.
A quarta festa é o equinócio de outono, que também é paradoxal.  Marca, por um lado, a abundância, já que é o momento de agradecer aos deuses pelas boas colheitas, mas por outro lado, esta festa marca o declive do Sol em sua carreira cíclica. A abundância nesta festa se encontra na Erntedankfest alemã, onde se agradece aos deuses pelas boas colheitas. Neste caso, o véu cristão é muito fino e é necessário de pouco para encontrar a origem real da celebração. Quando o sol enfraquece, só é necessário observar a Natureza para nos dar conta que os dias se fazem mais curtos, que as rosas caem das árvores, que o frio se faz sentir e que muitas plantas morrem. A morte está na esquina, é a época na qual as portas do além se abrem e se teme a todos os espectros. No mito europeu da Caça Selvagem, o deus Wotan cavalga Sleipnir contornando o céu do outono acompanhado de todos os guerreiros mortos em combate. Mas a morte não é definitiva, já que um velho dito pagão diz que é necessário morrer para renascer, como uma árvore que morre só em aparência, para renascer na seguinte primavera.
A este nível do nosso estudo, acabamos uma volta completa da nossa roda solar.
Esta roda solar esconde outro princípio fundamental que foi estudado pelo grande filósofo Heidegger. É o princípio do Ser e do Tempo (no sentido do tempo que passa). O eixo horizontal do símbolo representa o Tempo, ou seja, tudo o que muda, tudo o que é submetido aos caprichos do destino. O aspecto material está incluso neste eixo. Uma expressão do Tempo é, por exemplo, o corpo físico que nasce, cresce e finalmente desaparece. Enquanto o eixo vertical representa o Ser, o aspecto eterno e imutável, a força espiritual que emana de toda a vida. Mas ao contrário dos monoteísmos que separam as noções de corpo e espírito, a sabedoria pagã se reflecte no simbolismo da Roda Solar, demonstrando que o Tempo e o Ser são dois conceitos inseparáveis.
Segundo as explicações admitidas, o eixo horizontal seria de natureza feminina, enquanto o eixo vertical seria de natureza masculina. A imagem desse simbolismo é de carácter bastante sexual e está de acordo com outros símbolos relacionados aos eixos da roda solar que vimos aqui em cima (imagem). As quatro extremidades da Roda Solar nos conectam com o simbolismo do número 4, intimamente ligado à Terra. O círculo representa o Sol e o 4, a Terra. Temos este código numérico uma vez mais na presença da união do Sol com a Terra.
Precisamos dizer que este símbolo é comummente chamado de “cruz celta”, palavra que deveria ser empregada com prudência por várias razões:
– Este símbolo não é unicamente celta, e como já foi dito, se encontra em todas as culturas pagãs da Europa e em algumas fora dela.
– A cruz celta é uma evolução cristã da Roda Solar, na qual os eixos ultrapassam o círculo para acabar assemelhando-se à crucificação cristã, neste caso a simbologia pagã e cristã se misturaram.
Para concluir, podemos dizer que este símbolo milenar engloba todos os aspectos ligados aos ciclos solares, ao eterno retorno, ao ritmo natural dos elementos celestes em equilíbrio com os elementos terrestres e a harmonia perfeita entre todas as forças que regem o cosmos. É um hino à glória do Sol.

Link original: Symboles Païens et inscriptions runiques

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Batalha de Covadonga



Batalha de Covadonga, momento histórico épico, de contornos lendários, que se terá dado na Primavera-Verão de 722.
Após a queda do Reino Visigodo em 711, resistentes aos Omíadas refugiaram-se no norte da Península Ibérica, na cordilheira Cantábrica, e escolheram Pelágio como rei (718), filho de Fávila, um nobre da corte do rei visigodo Égica. Pelágio fixa a sua capital em Cangas de Onís e encabeça a resistência. Ele recusa pagar tributos aos Omíadas e após reforçar o seu exército com combatentes que continuavam a chegar, ataca pequenas guarnições omíadas da região.
Os omíadas, cujo poder na península se concentrava em Córdova, não parecem preocupados com essa insurreição naquela afastada região montanhosa, sem grande interesse estratégico para eles. Tanto mais que os seus recursos eram absorvidos com as campanhas do outro lado dos Pirenéus, contra o reino franco. Mas após a derrota de 721 em Tolosa, o governador Ambiza (Anbasa ibn Suḥaym Al-Kalbiyy), da Al-Andalus, decide enviar uma expedição punitiva contra as Astúrias, vendo ali uma vitória fácil para elevar o moral das suas tropas. Encarrega Munuza na preparação da expedição. Munuza envia então o general Alqama acompanhado por Oppas, irmão do antigo rei visigodo Wittiza e arcebispo de Sevilha, para negociar a rendição dos Asturianos. Após o fracasso das negociações, os Omíadas, em maior número e melhor organizados, perseguem Pelágio e seus homens. Os asturianos levam pouco a pouco os Omíadas ao coração das montanhas até atingirem Covadonga, num estreito vale de fácil defesa, quando apenas restavam 300 homens.


O número de trezentos traz à memória os famosos Trezentos de Esparta que nas Termópilas enfrentaram, e atrasaram decisivamente, o avanço do Império Persa em terra helénica. Como todas as grandes batalhas, a de Covadonga adquiriu assim contornos lendários, reforçando-lhe o cariz de mito fundador e, como dizia Fernando Pessoa, o mito é o nada que é tudo.
A cena em que Opas tenta convencer Pelágio a render-se, essa então é paradigmática e, embora a sua veracidade seja negada por alguns, não deixa de ter credibilidade: Opas, cuja realidade histórica e papel de traição permanece matéria da história factual independentemente deste episódio, afigura-se aqui como representante do que eventualmente terá sido uma boa parte da hoste cristã, que, talvez seduzida pelas promessas de tolerância da parte do Islão, acabou por aceitar passivamente a invasão norte-africana da Península Ibérica, o que bem pode ter contribuído para que a invasão moura se desse tão rapidamente. De notar que o Islão aceita teoricamente a presença, submissa, de judeus e cristãos, que, em portando-se humildemente diante dos muçulmanos e com estes colaborando, por estes serão «protegidos» como dimis.




Quanto a Pelágio, fosse ou não visigodo, ou talvez um quase bárbaro caudilho Asture, constitui neste episódio o exemplo paradigmático do resistente que não se deixa levar pelo argumento do «dado adquirido» com que Opas esperaria desarmar a sua teimosia. Teimosia esta que talvez tenha levado os Mouros a descreverem-no, e aos seus combatentes das Astúrias, como uns quantos «asnos» a rejeitar o domínio muçulmano. Pois foi a partir da resistência triunfal destes «asnos» que, do extremo norte montanhoso da Hispânia, se foi desenvolvendo um movimento de avanço militar para sul, a chamada Reconquista. É por isso a esta «asnice» que os Hispânicos actuais - Portugueses, Galegos, Asturianos, Castelhanos, Catalães, Bascos, até - devem a sua independência e talvez até a salvaguarda da sua identidade indo-europeia diante das forças do outro lado do Mediterrâneo, onde hoje se ajuntam as vozes de ressentimento contra a derrota muçulmana na Hispânia.

Porque os antepassados dos actuais Ibéricos não foram na fita do dado adquirido e da suposta impossibilidade de resistir à onda invasora oriunda do sul.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Covadonga

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Carnaval Rural - Caretos de Podence


 
Das variadíssimas manifestações carnavalescas efectuadas de norte a sul do País merecem particular referência aquelas que continuam a manter-se fiéis às suas vertentes tradicionalmente ruralistas, quer em função da sua situação geográfica, quer pelo envolvimento das personagens que lhe estão associadas – as populações locais.
Os habitantes desses lugares representam o suporte genuíno de toda uma ritualidade, por vezes complexa, que nada tem a ver com os padrões modernos dos Carnavais com objectivos turísticos, embora, e talvez por isso mesmo, enfermando de pouca ou nenhuma divulgação, nem mesmo a nível do (re)conhecimento da sua tradição.
Desse grupo, de algum modo restrito, faz parte o Carnaval de Podence (Macedo de Cavaleiros), em terras do Nordeste Transmontano, onde a quadra carnavalesca é festejada de forma a fazer lembrar as suas remotas origens, representadas ali numa encenação vincadamente pagã.
Neste ritual são visíveis as raízes que ligam o Carnaval de Podence às antigas festas dos Romanos, as Lupercais, efectuadas no dia 15 de Fevereiro, segundo uns em louvor de Pã, deus dos rebanhos, da fecundidade e dos pastores ou cabaneiros, enquanto outros sustentam que seriam realizadas em honra de Luperco, também ele deus pastoril da protecção dos rebanhos contra os lobos.
Consideradas das festas mais importantes da antiga Roma, eram particularmente marcadas pelo desfile, nas ruas, de grupos de homens seminus que fustigavam com peles de cabras, imoladas nessa ocasião, as mulheres que encontravam no caminho, num rito punitivo, tendo por intenção torná-las fecundas.  
Ritual a perpetuar-se no Domingo e Terça-Feira de Carnaval, graças à actuação dos «Caretos de Podence», quando, pelas ruas, correm atrás das mulheres – principalmente das novas e solteiras – para «chocalhá-las», isto é, para abraçá-las lateralmente e com movimentos rápidos de semi-rotação da cintura fazer com que os chocalhos que transportam à cinta lhes batam repetidamente nas nádegas.
Os «caretos» (rapazes solteiros) constituem-se como as figuras principais da festa, os seres quase fantásticos destes rituais lúdicos e pagãos, transmitidos de pais para filhos, desconhecendo-se, no fundo, a sua verdadeira origem e significado. 
Simbolicamente associados, na crença popular, «ao espírito do mal», ou a tudo aquilo que se afigure misterioso – forças sobrenaturais e ocultas, curandeiros, bruxos, poderes diabólicos e ao próprio Satanás – auferem de total impunidade durante esse curto período, apenas dois dias, embora costumem fazer uma aparição no Domingo Magro.
 
Em qualquer lugar em que se encontrem é sempre grande a algazarra que provocam, uma vez que comunicam entre si e com os circunstantes apenas por berros, numa linguagem que ninguém entende. Correm frequentemente atrás de quem calha e dançam e saltam como verdadeiros seres invasores e causadores de toda uma desordem e abuso instaurados a que não é possível, nem se deseja, afinal, pôr termo. 
Os fatos dos «caretos», extremamente garridos, são guardados e vestidos, muitos deles, geração após geração, constituindo uma verdadeira relíquia para a família que os possui. Confeccionados na própria aldeia, são feitos de colchas antigas, de lã ou de linho (hoje já raras), tecidas em teares caseiros, cortadas depois ao jeito de fato: calças e casaco com gorra ou capuz. As três peças são quase totalmente recobertas com fieiras de franjas de lã de carneiro, tingidas de diversas cores, ao gosto de quem os faz ou veste, embora as cores tradicionais sejam o vermelho, o amarelo e o verde.              
Somente para as franjas, também elas feitas em tear, são necessários (dizem) sessenta novelos de lã. Um fato de «careto» pode orçar, actualmente, em mais de 400 euros – com as franjas de lã tradicionais substituídas por lã de fibra, sem contar com a dificuldade em encontrar e comprar uma colcha antiga…
 
Como adorno, ostentam à cintura, presos num cinto de couro, fiadas de chocalhos e sobre o peito, cruzadas, as «bandoleiras», igualmente em couro, por vezes com uma ou duas campainhas. O número de chocalhos, hoje, é variável, conquanto o preceito consistisse em doze chocalhos de latão, «se o fato fosse rico», ou apenas oito, «no caso do fato ser mais pobre». Na mão levam um pau ou bengala de madeira de freixo ou castanheiro, que lhes serve de apoio quando saltam ou correm ao som dos chocalhos. Antigamente, usavam uma bexiga de porco ou uma pele de coelho cheia de ar que empunhavam para bater, ritualmente, em quem com eles se cruzava, costume ainda mantido por um ou outro.   
 A designação «caretos» resulta da palavra «careta» ou «máscara», sendo as de Podence, como, de resto, o são todas as máscaras deste género, terríficas. Trata-se de máscaras rudimentares, feitas de latão ou folha-de-flandres, pintadas de vermelho ou negro, com um nariz pontiagudo e três aberturas para os olhos e a boca. Em tempos mais antigos as máscaras eram feitas também de cabedal ou de madeira primorosamente esculpidas.
 
 
As praxes do Carnaval de Podence obrigam a que as crianças do sexo masculino (até aos 11, 12 anos) se mascarem como réplicas dos «caretos» adultos, embora menos elaboradas e se comportem à sua semelhança. Conhecidos por «facanicos», acompanham, nas suas andanças e brincadeiras, o grupo dos rapazes solteiros. Certamente, a forma encontrada para que a figura dos «caretos» se não perca, antes se reforce no objectivo de preservar e garantir a continuidade desta tradição carnavalesca. 
No conceito popular, só o «careto» possui os poderes propiciatórios, profilácticos e expurgatórios no momento da viragem do ciclo agrário - a passagem do Inverno para a Primavera. Poderes exercidos sobre os campos, purificando-os, e a tornar fecunda a produção das terras ao afugentar delas as «forças nocivas ou os espíritos das trevas, que as invadem e empobrecem». Desta forma se perpetuam remotos cultos gentílicos de vegetação e fertilidade, que podem mesmo ir mais longe, considerando que ao «careto» se atribui o poder de «eliminar qualquer mal da Natureza e da própria comunidade».          
E se da Antiguidade lhe vem a Festa dos «Caretos», de lá virá também, supostamente, a designação de «lares» dada em Podence às grandes lareiras sobre as quais se cozinha ainda hoje em panelas de ferro. Quem sabe, a fazer lembrar os deuses Lares – simbolizados por pequenas estatuetas –, colocados nos altares domésticos de cada casa romana, dia e noite alumiados.
 
 
Ao redor dos «lares» reúne-se a família, sentada nos bancos de madeira – os «escanos» –, a dar voz à ceia e aos serões do tempo frio, aconchegada no calor do lume, quando a água gela nas fontes e deixa de fazer ouvir a limpidez do canto.
Na manhã de Quarta-Feira de Cinzas, despidos os fatos de «careto», que se usaram até Terça-Feira de Entrudo, todos comparecem à missa na Igreja de Nossa Senhora da Purificação. A partir desse dia é considerado pecado ouvir-se um chocalho – em Podence os animais não  costumam usá-los; só os «caretos».
  
Fonte: Livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. II

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Festa da Cabra e do Canhoto



Vamos lá começar isto pelo princípio: o Halloween não é americano. A Festa da Cabra e do Canhoto é só um dos exemplos que podemos dar como prova disso. Mas há centenas e centenas de outros, espalhados pela Europa, mas sobretudo na sua costa ocidental, onde a invasão ou influência celta foi mais marcante. O que hoje sobra da passagem de 31 de Outubro para 1 de Novembro, e a que agora damos o nome de Halloween (que, muito provavelmente, resulta da contracção do inglês All-Hallows Eve, isto é, a véspera do dia de Todos os Santos) , é um produto que foi na bagagem da emigração irlandesa para os Estados Unidos, e por lá estagiou até ganhar esta componente comercial que lhe deu a corrente imagem de marca, agora reimportada para o Velho Continente, aquele que na verdade é o que está na sua origem.
Escapando-me à polémica que o termo celta envolve, quer em termos históricos, quer em termos etnográficos, é indubitável que por aqui (e por aqui, leia-se pelo ocidente ibérico) passaram tribos pré-romanas que, ou foram de facto celtas, ou foram pelo menos celtizadas, isto é, absorveram parte substancial da cultura destes. E esses aglomerados de gente que partilhavam costumes comuns tinham, como nós, manifestações de religiosidade para com lugares sagrados ou, de outra forma, para com datas sagradas. E isso justifica que nesta altura, no dia 31 de Outubro do actual calendário, sendo mais específico, se festejasse uma passagem de ano. Esta passagem de ano não era mais do que um antigo resquício celta: acreditavam eles que o ano se dividia em estação da noite (e do frio) e estação do dia (e do calor). O último dia de Outubro registava assim o final da época das colheitas e o início da época em que a natureza morre, e o facto de os mortos serem homenageados em todo o país no Dia de Todos os Santos não é pura coincidência.
Assim, e tendo em conta que da noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro estávamos na presença de um tempo de ninguém, tudo poderia acontecer, inclusivamente a vinda dos mortos à terra para destruir colheitas e espalhar o medo. Simbolicamente, a vinda dos mortos está relacionada com a chegada do ciclo morto da natureza. E é nesse contexto que falamos da Festa da Cabra e do Canhoto, a acontecer nesta precisa data, em Cidões, província de Trás-os-Montes. Reza a tradição que se deve queimar o canhoto, ou de outra forma, um grande cavaco, numa fogueira gigante, fogueira essa que será aproveitada para cozinhar a cabra, antes esfolada no concelho de Vinhais. Os nomes do canhoto e da cabra não vêm do acaso. Ambos estes termos estão associados ao demoníaco, ao outro lado - os homens com pés de cabra, por exemplo, são, em infinitas lendas europeias, uma forma de reconhecermos o diabo escondido em forma humana.
A cabra é acompanhada de queimada celta (ou queimada galega, para adoptar uma denominação mais comum), café em pote ou ulhaque (bebida típica da povoação). Fazendo jus ao tempo onde tudo é válido, como acontece no Carnaval, que por sua vez celebra a chegada da Primavera, aos rapazes de Cidões são permitidas todas as tropelias, como se de Caretos estivéssemos a falar – roubam objectos de varandas da aldeia, viram carros e carroças do avesso, atropelam raparigas. Chega mais tarde o Diabo, numa charrua puxada pelas gentes da terra, bem audível no chiar que o seu andar provoca.
A Festa da Cabra e do Canhoto é já uma pequena pérola turística, ainda pouco dada a grandes massas, sobretudo pela distância que a aldeia tem dos grandes centros urbanos portugueses. Há concertos a acompanhar uma noite que se faz de medos. E é de aproveitar. Afinal, a partir daqui entramos no mundo escuro. Um que só se volta a aclarar quando o Carnaval dá de si, quase meio ano depois.

Fonte: www.portugalnummapa.com

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ophiussa



Ofiússa ou Ophiussa é o nome dado pelos antigos gregos ao território português. Significa Terra das Serpentes.
Os ofis viveriam, principalmente, nas montanhas do norte de Portugal, incluindo a Galiza. Outros dizem que estes viviam na foz dos rios Douro e Tejo. Este povo venerava as serpentes, daí Terra das Serpentes ou serpes.
Existem alguns estudos arqueológicos que mencionam este povo e cultura. Alguns creem que o dragão, muitas vezes representado como um grifo e originário de uma primitiva serpente alada - a "Serpe Real", timbre dos Reis de Portugal e depois também dos Imperadores do Brasil, está relacionado com este povo, ou com os celtas que mais tarde colonizaram a zona, que por sua vez poderiam ter sido influenciados pelo culto ofi.
Na face cristã deste símbolo no Reino de Portugal, expressa na tradição dos monges cistercienses de Alcobaça sobre o Milagre de Ourique e a consequente origem das Quinas da coroa portuguesa nas Cinco Chagas de Jesus Cristo, descrita no mesmo Juramento de Ourique, este símbolo sagrado da serpente ligado à sabedoria divina e já atribuído a Moisés, liga-se agora essencialmente com a divindade de Jesus Cristo.
No século IV, o poeta romano Avieno, na Ora maritima, um documento inspirado por uma viagem marítima, anotou "Oestriminis" (ou o extremo ocidente) povoados pelos Estrímnios, um povo que vive naquela área desde há muito tempo, que tiveram que fugir das suas terras depois de uma "invasão de serpentes". Isto pode ser uma relação aos Sefes ou ofis ("o povo das serpentes") e aos Draganos ("o povo dos dragões"), que vieram colonizar aquelas terras e formaram um território conhecido pelos gregos como Ofiússa. Alguns autores relacionam o povo Ofi com os druidas ou proto-celtas ou, até mesmo, antigos egípcios. Numa tradição egípcia, refere-se que as "serpentes" egípcias de Karnak ou Luxor teriam emigrado para a Europa.
A expulsão dos Estrímnios, da Ora Maritima:
Ophiussam ad usque. rursum ab huius litore
internum ad aequor, qua mare insinuare se
dixi ante terris, quodque Sardum nuncupant,
septem dierum tenditur pediti via.
Ophiussa porro tanta panditur latus
quantam iacere Pelopis audis insulam
Graiorum in agro. haec dicta primo Oestrymnis est
locos et arva Oestrymnicis habitantibus,
post multa serpens effugavit incolas
vacuamque glaebam nominis fecit sui.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os últimos caçadores-recolectores



Como vivia o homem mesolítico?
No Mesolítico surgiram os grandes bosques temperados. Extintos o Elefante e o Rinoceronte, desaparecido o Urso das cavernas, prosperam agora o Veado e o Corço. Extinto o Mamute e emigrados para o Norte os enormes rebanhos de renas, o homem teve que fazer a caça a animais mais pequenos e mais esquivos, como o Javali e o Coelho.
Para tal, os caçadores agiam em grupo e utilizavam cães – lobos semi-domesticados. No Mesolítico, o homem praticou a microlitização, como dizem os arqueólogos. Quer dizer que fabricava pequenos utensílios de sílex. Estes instrumentos serviam, por exemplo, para colher e abrir moluscos e para fazer arpões, anzóis e várias outras ferramentas cortantes.
No Mesolítico, a arma mais importante era o arco, capaz de lançar a grandes distâncias mortíferas setas com afiadas pontas de pedra. Por vezes, setas com pontas de osso, ou mesmo de madeira (para não estragar as peles dos animais caçados). Outras vezes, setas lançadas por zagaias.
O homem aprende a roubar sistematicamente o mel das abelhas, manipulando as colmeias. Na costa litoral estremenha caçava-se o Veado (Cervus elaphus), o Javali (Sus scrofa), o Auroque (Bos primigenius), o Corço (Capreolus capreolus) e o Coelho (Oryctolagus cuniculus).
Noutras regiões, a Cabra-montês e diversas aves selvagens – Pato, Ganso, Tordo, Faisão, Rola – preenchiam a dieta mesolítica. Pescava-se nos rios e ribeiros e recolhia-se todo o tipo de frutos, comiam-se caracóis e conchas... aos milhões.
No Mesolítico, os homens ainda eram nómadas, mas com alojamentos de inverno e acampamentos de verão. Só em regiões que ofereciam suficiente alimento durante o ano inteiro, os nómadas armaram as suas tendas durante temporadas mais longas. Construíram-se as primeiras choças primitivas às margens dos rios (só bem mais tarde se construíram cabanas com ramos e barro). Assentaram-se as primeiras «oficinas de sílex».
Anzóis de osso, período mesolítico.

Ferramentas de pedra


No Neolítico, as comunidades tinham aperfeiçoado ainda melhor as suas ferramentas e armas de pedra:
  • machados para derrubar árvores das florestas,
  • enxós para trabalhar os campos,
  • mós para triturar os cereais recolhidos,
  • pontas de seta para derrubar com flechas certeiras caça grande e pequena.
Pedras para todos os efeitos
No Calcolítico, o uso da pedra foi universal. Os artesãos das várias indústrias líticas sabiam trabalhar pequenas pedras pesando poucas gramas, assim como talhar colossos graníticos, pesando toneladas...
A pedra servia para uma enorme diversidade de usos – desde a construção de muralhas, cabanas habitacionais e complexos espaços funerários – até à elaboração de pequeníssimos objectos, como os pendentes reproduzidos em cima.
Vários tipos de vistosas «pedras preciosas» forneciam matéria-prima para a elaboração de toda uma gama de adornos; a variscita é o exemplo mais importante.
Desde as aplicações mais funcionais do dia-a-dia calcolítico – por exemplo, a separação de músculos, tendões e ossos numa peça de carne, feita com uma afiada faca de sílex – até aos mais místicos usos – como, por exemplo, a fabricação de betilos cilíndricos de calcário, usados em rituais funerários – a pedra era o material que assegurava às sociedades do Calcolítico a sobrevivência diária.
Também servia para assegurar a morte a concorrentes e inimigos, pois não nos restam quaisquer dúvidas sobre a utilização de armas de pedra...
Quem hoje fala de «meios de produção» quer designar unidades de produção, com-plexos industriais com equipamentos modernos, tecnologias evoluídas, recursos de informática, etc. Falar em «meios de produção neolíticos ou calcolíticos» é falar de ferramentas e utensílios de pedra. Pois eram esses que garantiam o controle sobre a Natureza. Para usar uma expressiva fórmula da antropóloga Katina Lillios: «...os machados e as enxós (tanto objectos em bruto como ferramentas prontas) foram essencialmente os meios de produção para as comunidades pré-históricas tardias. E o controle sobre esse meios de produção pode ter sido a base para status, prestígio ou poder político. A sua potência simbólica e social poderá ser explicada pelas suas qualidades transformadoras. Usando estas ferramentas, a Natureza torna-se terra agrícola. A floresta torna-se campo fértil. Um inimigo torna-se um inimigo morto...»
Símbolos de poder
Uma ferramenta, além de ser funcional, poderia ter acumulado outras funções. Além de ser um objecto utilitário, um machado de pedra poderia ser um símbolo de poder, de masculinidade. Poderia ser ainda, cumulativamente, uma «peça de família», um objecto herdado de pai para filho.
Um achado que aponta nesse sentido é o Machado de Óbidos. Em 1999, durante uma prospecção arqueológica sub-aquática realizada pelo Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS) durante as dragagens de desassoreamento da Lagoa de Óbidos, foi descoberto, a nove metros de profundidade, um grande machado de anfibolito polido e perfurado.
Este Machado de Óbidos é um dos oito exemplares perfurados deste tipo conhecidos na Península Ibérica. Todas os restantes machados deste tipo foram encontradas em megálitos datados do Calcolítico; portanto, é presumível que o de Óbidos date do mesmo período e provenha de um contexto semelhante.
Os machados perfurados já encontrados estavam dispersos por Portugal e pelo Noroeste de Espanha. Estes objectos, assim presume Katina Lillios, seriam atributos de estatuto de indivíduos pertencentes a uma elite que detinha autoridade numa região particular.