terça-feira, 22 de julho de 2014

Os últimos caçadores-recolectores



Como vivia o homem mesolítico?
No Mesolítico surgiram os grandes bosques temperados. Extintos o Elefante e o Rinoceronte, desaparecido o Urso das cavernas, prosperam agora o Veado e o Corço. Extinto o Mamute e emigrados para o Norte os enormes rebanhos de renas, o homem teve que fazer a caça a animais mais pequenos e mais esquivos, como o Javali e o Coelho.
Para tal, os caçadores agiam em grupo e utilizavam cães – lobos semi-domesticados. No Mesolítico, o homem praticou a microlitização, como dizem os arqueólogos. Quer dizer que fabricava pequenos utensílios de sílex. Estes instrumentos serviam, por exemplo, para colher e abrir moluscos e para fazer arpões, anzóis e várias outras ferramentas cortantes.
No Mesolítico, a arma mais importante era o arco, capaz de lançar a grandes distâncias mortíferas setas com afiadas pontas de pedra. Por vezes, setas com pontas de osso, ou mesmo de madeira (para não estragar as peles dos animais caçados). Outras vezes, setas lançadas por zagaias.
O homem aprende a roubar sistematicamente o mel das abelhas, manipulando as colmeias. Na costa litoral estremenha caçava-se o Veado (Cervus elaphus), o Javali (Sus scrofa), o Auroque (Bos primigenius), o Corço (Capreolus capreolus) e o Coelho (Oryctolagus cuniculus).
Noutras regiões, a Cabra-montês e diversas aves selvagens – Pato, Ganso, Tordo, Faisão, Rola – preenchiam a dieta mesolítica. Pescava-se nos rios e ribeiros e recolhia-se todo o tipo de frutos, comiam-se caracóis e conchas... aos milhões.
No Mesolítico, os homens ainda eram nómadas, mas com alojamentos de inverno e acampamentos de verão. Só em regiões que ofereciam suficiente alimento durante o ano inteiro, os nómadas armaram as suas tendas durante temporadas mais longas. Construíram-se as primeiras choças primitivas às margens dos rios (só bem mais tarde se construíram cabanas com ramos e barro). Assentaram-se as primeiras «oficinas de sílex».
Anzóis de osso, período mesolítico.

Ferramentas de pedra


No Neolítico, as comunidades tinham aperfeiçoado ainda melhor as suas ferramentas e armas de pedra:
  • machados para derrubar árvores das florestas,
  • enxós para trabalhar os campos,
  • mós para triturar os cereais recolhidos,
  • pontas de seta para derrubar com flechas certeiras caça grande e pequena.
Pedras para todos os efeitos
No Calcolítico, o uso da pedra foi universal. Os artesãos das várias indústrias líticas sabiam trabalhar pequenas pedras pesando poucas gramas, assim como talhar colossos graníticos, pesando toneladas...
A pedra servia para uma enorme diversidade de usos – desde a construção de muralhas, cabanas habitacionais e complexos espaços funerários – até à elaboração de pequeníssimos objectos, como os pendentes reproduzidos em cima.
Vários tipos de vistosas «pedras preciosas» forneciam matéria-prima para a elaboração de toda uma gama de adornos; a variscita é o exemplo mais importante.
Desde as aplicações mais funcionais do dia-a-dia calcolítico – por exemplo, a separação de músculos, tendões e ossos numa peça de carne, feita com uma afiada faca de sílex – até aos mais místicos usos – como, por exemplo, a fabricação de betilos cilíndricos de calcário, usados em rituais funerários – a pedra era o material que assegurava às sociedades do Calcolítico a sobrevivência diária.
Também servia para assegurar a morte a concorrentes e inimigos, pois não nos restam quaisquer dúvidas sobre a utilização de armas de pedra...
Quem hoje fala de «meios de produção» quer designar unidades de produção, com-plexos industriais com equipamentos modernos, tecnologias evoluídas, recursos de informática, etc. Falar em «meios de produção neolíticos ou calcolíticos» é falar de ferramentas e utensílios de pedra. Pois eram esses que garantiam o controle sobre a Natureza. Para usar uma expressiva fórmula da antropóloga Katina Lillios: «...os machados e as enxós (tanto objectos em bruto como ferramentas prontas) foram essencialmente os meios de produção para as comunidades pré-históricas tardias. E o controle sobre esse meios de produção pode ter sido a base para status, prestígio ou poder político. A sua potência simbólica e social poderá ser explicada pelas suas qualidades transformadoras. Usando estas ferramentas, a Natureza torna-se terra agrícola. A floresta torna-se campo fértil. Um inimigo torna-se um inimigo morto...»
Símbolos de poder
Uma ferramenta, além de ser funcional, poderia ter acumulado outras funções. Além de ser um objecto utilitário, um machado de pedra poderia ser um símbolo de poder, de masculinidade. Poderia ser ainda, cumulativamente, uma «peça de família», um objecto herdado de pai para filho.
Um achado que aponta nesse sentido é o Machado de Óbidos. Em 1999, durante uma prospecção arqueológica sub-aquática realizada pelo Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS) durante as dragagens de desassoreamento da Lagoa de Óbidos, foi descoberto, a nove metros de profundidade, um grande machado de anfibolito polido e perfurado.
Este Machado de Óbidos é um dos oito exemplares perfurados deste tipo conhecidos na Península Ibérica. Todas os restantes machados deste tipo foram encontradas em megálitos datados do Calcolítico; portanto, é presumível que o de Óbidos date do mesmo período e provenha de um contexto semelhante.
Os machados perfurados já encontrados estavam dispersos por Portugal e pelo Noroeste de Espanha. Estes objectos, assim presume Katina Lillios, seriam atributos de estatuto de indivíduos pertencentes a uma elite que detinha autoridade numa região particular.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Raíz Ibérica




'Raíz Ibérica' ('Iberian Root') is a meeting of Iberian bands dealing with the myths, legends and origins of Iberia Peninsula (Spain & Portugal).
From delicate Folk tunes to Ur-Folk through more Natural-Ambient songs to even Ritual passages and traditional music. All bands involved have a deep connection with the old roots, stones and mountains forming this particular land.
This is the perfect compilation to be intruduced in Iberian folk nowadays. More if you're interested in the folk rooted on traditions, legends and old Gods...
Featuring Àrnica, Sangre de Muérdago, Urze de Lume, Keltika Hispanna, Stillme, Caelia, Azagatel, Wihinnei Rita, Cosmos, The Wyrm, Azagatel, Ángel Román.
Get ready to enter into hidden Iberia...


Released by:
AHNSTERN | SOLIFERRO GRABACIONES ÍBERAS


Listen the teaser:
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CD comes with 16 pages booklet.


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Ataegina



Atégina ou Ataegina é a Deusa do renascimento, pois o seu nome é de origem celta e significaria renascida, ou seja, era uma Deusa ligada ao culto da fertilidade que tal como os frutos da terra que renascem todos os anos, também desaparecia sazonalmente no submundo para poder renascer. Também Deusa da natureza e da cura na mitologia lusitana. Viam-na como a Deusa lusitana da lua.
Não se sabe ao certo qual a origem do seu culto, provavelmente era uma Deusa indígena que foi primeiro celtizada, tal como indica o seu nome e depois romanizada. Esta Deusa acabou por ser conotada pelos Ibero-Romanos a Proserpina e a Libera. Com Proserpina, tinha a semelhança de ser Deusa da fecundidade dos campos e dela acabou por ganhar o carácter infernal que tinha como mulher de Plutão. Libera por seu lado era a primitiva Deusa da fecundidade agrária, irmã de Liber (Baco). Ataegina acabou assim por ficar associada a estas duas Deusas do panteão romano.
Para além do facto de ser uma Deusa da fecundidade, ligada ao renascimento da natureza e ao germinar das sementes, o seu carácter infernal fazia com que se lhe fossem consagradas devotio. A devotio era uma cerimónia religiosa que tinha como objectivo fazer mal a alguém convocando através de fórmulas as divindades infernais para que se apoderassem dessa pessoa. Esta devotio servia para lançar uma maldição, que poderia ir de pequenas pragas à morte. O animal consagrado a Ataegina era o bode ou a cabra.
Estão também atribuídas a esta Deusa características de Deusa infernal, pois foi encontrada uma inscrição de devotio na qual se lê:

 “Dea Ataecina Turi/brig(ae) Proserpina /per tuam maiestatem / te rogo oro obsecro / uti vindices quot mihi /furti factum est; quiquis / mihi imudavit involavit / minusce fecit [e]a[s res] q(uae) i(nfra) s(criptae) s(unt) /túnicas VI, [p]aenula / lintea II, in[dus]ium ~rabo~/ius I. C…m ignoro i…ius.

(Deusa Ataecina Turubriga Proserpina, pela tua majestade eu peço, rezo e imploro que vingues o roubo que me foi feito. Quem quer que me tenha subtraído, roubado, pilhado as coisas abaixo vão descritas: seis túnicas, dois mantos de linho, uma peça de roupa interior…).

Ataegina e Endovélico, formavam um par divino que reinava nos Infernos.
Em algumas inscrições, esta Deusa acabou também por aparecer ligada à medicina, sendo apelidada pelos dedicadores de Servatrix, ou seja, conservadora da saúde dos homens. Tal como ao Deus Endovélico, também era vasto o grupo de pessoas que se dirigiam a Ataegina, escravos, homens livres, indígenas e romanos.
Em algumas inscrições o nome da Deusa aparece apenas representado por um A, o que mostra a familiaridade com esta Deusa e vários são os epítetos a ela atribuídos, tal como Dea, Domina, Sancta, Invicta, Servatrix, provando assim a sua importância. Muitas vezes esta Deusa é representada com um ramo de cipreste.
Ataegina era venerada na Lusitânia e na Bética, onde existiram santuários dedicados a esta Deusa, especialmente em Turóbriga, de onde seria natural, cidade que segundo Plínio se situava na Beturia Céltica, região na margem do rio Guadiana. Também em Elvas (Portugal), Mérida e Cáceres, na Extramadura espanhola, além de outros locais, especialmente perto do Rio Guadiana, esta Deusa era venerada. Ela era uma das principais Deusas em locais como Myrtilis (Mértola dos dias de hoje), Pax Julia (Beja), ambas cidades em Portugal.

História de Ataegina e Endovélico

No Equinócio de Outono, celebra-se o ritual que representa a descida de Ataegina ao Submundo. Segundo o que nos conta a tradição, Ataegina desce ao Submundo, em busca de Seu Amado Endovélico, que havia sido morto por um grande javali (que simboliza as Forças da Destruição, que desfazem a forma para que a essência possa renascer). Ataegina desce e encontra-se com seu amado, agora Senhor do Mundo dos Mortos: Enobólico, o Muito Negro. Ela, que é a força que a tudo vivifica, ao mergulhar nas trevas da Morte, abandona o Mundo dos Vivos à escuridão.
A imagem da Deusa fica sobre o altar nos meses claros do ano, mas no Equinócio de Outono, ritualiza-se a descida de Ataegina, guardando com segurança a imagem da Deusa, junto com a imagem de Endovélico, que é também guardada na véspera, quando se ritualiza a morte e descida do Deus ao Submundo, pela força do Javali Negro. Os ícones dos Deuses ficam guardados no sacrário durante os meses escuros e só são retirados seis meses depois, no Equinócio de Primavera, a Festa do Desabrochar da Vida.
Sempre que Ataegina desce, confio à Deusa e Senhora Nossa as sementes de meus sonhos. Pois Ataegina é, então, a própria Semente: que em busca de florescer novamente em Amor e Beleza, junto a Seu Amado, se enterra no Ventre Sepulcral da Terra Mãe. A semente, debaixo da terra, será roçada pelas Forças de Destruição do Submundo, que farão a casca da semente se putrefazer. Nesse processo, ela passará por dor e medo, numa verdadeira alquimia, no Caldeirão da terra, vermes e humidade do Ventre da Velha Dana. E deste caos germinal, surgirá o broto verde que se elevará, em busca do Sol: Endovélico (o que floresce), que aí sim, terá voltado a brilhar sobre a superfície. O broto crescerá, recebendo os beijos cálidos de Endovélico. O botão logo se mostrará por entre as folhagens, e eis que, no tempo certo, florescerá, e a Deusa, assim, retornará aos seus filhos, a Renascida, a Flor plena de Vida, Alegria, Beleza e Amor, Ataegina!
E junto com a Deusa, florescerão os sonhos que este filho devoto lhe confiou, e que junto com Ela, festejará a realização de cada um deles, assim como também aprenderá com Ela sobre a não realização daqueles que não vingarem, pois Ataegina é Senhora da Terra, da Lua e do Submundo, Deusa Tripla que reina sobre todos os Mundos, e que conhece o que vai nas profundezas subterrâneas de nosso inconsciente, no íntimo de nossa alma, e Sabedora disso, concederá sempre os frutos apropriados para a nossa colheita.

Trebaruna



 
TREBARUNA – Deusa cujo nome significa, segundo Leite de Vasconcelos, “Segredo da Casa” ( do celta “Trebo” = Casa, Lar, e “Rune” = Segredo, Mistério ). 
Trebaruna seria assim o Espírito do Lar, uma deusa Doméstica, passando depois para a sua função mais conhecida de Deusa Guerreira, da batalha e da morte em batalha. Não vemos, no entanto, a necessidade de qualquer transformação da parte da Deusa, no sentido de uma evolução de Guardiã do Lar para Deusa da Guerra: as duas funções podem perfeitamente coexistir o tempo todo na mesma mesma Divindade. Isto faz com que seja considerada uma versão lusitana das Deusas célticas da Guerra e da Magia: Morrigú, ou Morrighan, Macha e Badb Catha.
Trata-se de uma Divindade adorada pelos lusitanos, assim como também pelos romanos invasores com um profundo respeito, como atestam as várias inscrições em aras votivas encontradas pela península, como a de Cáceres, datada de entre os séculos I e II d.e.c. ( depois da era comum ): “A AUGUSTA TREBARUNA Marcus Fidius Macer filho de Fidius e inscrito na tribo Quirina magistrado III vezes duúnviro II vezes intendente das construções”.
O que chama a atenção é o epíteto “AUGUSTA”, particularmente evocativo de grandeza. O lobo é uma zoofania própria de Trebaruna.

Dois altares dedicados à deusa já foram encontrados em Portugal, um em Proença-a-Velha (antigamente Egitânia) e outro em Lardosa. Este último tinha as inscrições "TREBARONNE VS (votum solvit) OCONUS OCONIS F (filius)", ou seja "A Trebaruna confirmou seu voto Oconus, filho de Oco". No sítio arqueológico de Cabeço das Fráguas, localizado no município de Guarda, há uma figura que mostra o sacrifício de uma ovelha com a inscrição "Trebarune", sendo que a terminação "-e" indicava o caso dativo do lusitano.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Cromeleque da Portela de Modos


Este monumento é composto por cerca de 40 menires executados em blocos afeiçoados em granodiorito, mantidos verticalmente através da sua colocação em fossas coroadas á superfície com pequenos blocos pétreos. Apresentam-se formalmente divergentes entre si, seja ao nível da dimensão como da morfologia, embora pareça predominar a forma ovóide.
A maioria destes menires encontra-se disposta ao longo de uma elipse irregular - orientada, grosso modo, no sentido E.-O. -, com cerca de 15 m no seu eixo maior, ao passo que no seu eixo menor apresenta aproximadamente 12 m. É no interior desta elípse externa que se encontram colocados longitudinalmente 5 menires, definindo o maior deles o eixo N.-S. 
A nível de ornamentação,  alguns destes menires apresentam uma decoração realizada á sua superfície, previamente alisada para o efeito. No seu conjunto, visualizam-se as tradicionais "covinhas" no topo de três dos menires deste vasto monumento, enquanto noutros se observa um notório ecletismo temático e formal dessa mesma gramática decorativa, correspondente a diversas fases da sua edificação e fruição: báculos executados em relevo, conjuntos de linha incisas, ziguezagueantes e onduladas. De realçar será ainda o facto destas últimas representações surgirem sempre associadas a semicírculos e a representações antropomórficas. Para além destas temáticas, identificaram-se ainda representações solares precisamente no menir de maiores dimensões, ou seja, aquele que se encontra no centro da elipse interna do monumento.
Ainda em relação ao programa decorativo deste cromeleque, constatamos a presença de representações antropomórficas, figurando o nariz e os olhos de maneira circular em quatro dos seis menires de forma estelar, designados também de "estátuas-menires". Para além disso, uma destas estelas apresenta uma singular representação dos seios.
De realçar será ainda o facto de, em conjunto com dois monólitos pertencentes ao cromeleque dos Almendres, estas autênticas "estátuas-menires" revelam-se as primeiras estruturas deste tipo encontrados nesta zona e, na verdade, os únicos localizados "in situ" em toda a Península Ibérica.
Com efeito, trata-se de um caso singular de sobrevivência de um cromeleque com a mesma função religiosa para lá da sua construção inicial durante o Neolítico Médio, embora pareça ter ocorrido a destruição de alguns dos menires no Calcolítico, juntamente ao abandono de algumas práticas mágico-religiosas que lhe teriam conferido razão de ser. Assume-se de igual modo como o primeiro - até ao momento -, recinto religioso ao ar livre atribuído à Idade do Bronze do Sudoeste Peninsular, retomando, deste modo, as actividades mágico-religiosas para as quais tinha sido de início concebido e construído.
De todos os menires constituintes deste monumento, apenas 10 se encontram in situ.
Desde 1995 que se tem vindo procedido a algumas intervenções de restauro em todo este monumento. Delas, destacamos a anastilose realizada nos menires fragmentados, assim como a recolocação de outros 12 nas suas primitivas fossas de sustentação.

Fonte: http://www.igespar.pt

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Os castros




Na arqueologia, um castro (castro, castelo dos mouros, couto dos mouros, citânia, cividades, castelejo, castelos) é um vestígio de uma povoação fortificada, muralhada com uma ou mais fileiras de pedras, um ou mais fossos, e quase sempre no topo de um cabeço, monte com cume arredondado e por vezes com encostas íngremes, geograficamente adequado para o domínio da paisagem local e uma observação à distância.
Os castros eram núcleos populacionais concentrados, forçados a um isolamento defensivo. Este é o habitat castrejo típico. Os seus povoados estavam instalados em colinas de substrato granítico, e as populações castrejas utilizaram amplamente este material, principalmente para a construção das muralhas, feitas de blocos de granito toscamente recortados. O que é designado por "civilização do granito”.
Na cultura castreja, as casas possuíam planta circular, com cerca de 5 metros de diâmetro. As paredes eram formadas por pequenas pedras unidas com cascalho, sem qualquer argamassa. Possuíam piso de saibro batido; no seu interior, uma lareira no canto, revestida de argila, ao centro, um buraco para um poste que suportava a estrutura da cobertura, de colmo, material perecível e de formato cónico. Na parte da frente um átrio, algumas vezes com um forno ou forja.

A cultura castreja localizava-se essencialmente nas zonas do Minho e Trás-os-Montes, a norte do rio Douro. Para o período que compreende o auge da cultura castreja, esta região era constituída por duas zonas culturais distintas: litoral (que chamaremos zona 1) e interior (zona 2). O conhecimento destas zonas é desigual; no litoral, com mais de 100 anos de escavações contínuas, opõe-se o interior, quase que totalmente desconhecido.
Na região do Minho o clima é húmido, com chuvas frequentes (até 3.000 mm anuais). A sua geografia é entalhada por uma série de vales paralelos, com falésias delimitando as praias estreitas. O solo, naturalmente pobre, tem a sua fertilidade assegurada pela adubação de algas marinhas.
Trás-os-Montes ocupa uma área montanhosa, região de forte erosão secular, com uma topografia movimentada e de vales profundos como os de Tua, Tâmega e Sabor. Os rios correm por escarpas com altitudes superiores a 1.200 metros. Tal relevo, que assistiu ao surgimento da cultura castreja em território lusitano, explica em parte seu isolamento em pequenos núcleos populacionais.
Para a zona 1, o castro mais famosos é o da Cividade do Terroso, na Póvoa do Varzim e Viana do Castelo, este último com a escavação de uma pequena necrópole no interior de um núcleo familiar. Existe um desconhecimento sobre as necrópoles do período. Pressupõe-se que os rituais funerários castrejos envolvessem a cremação, devido aos numerosos elementos que remetem ao mundo indo-europeu. As escavações arqueológicas mostram "...fossas abertas no solo das habitações, forradas com pedras, no interior das quais se guardavam urnas contendo as cinzas dos defuntos. Embora não seja possível atribuir uma datação precisa a estas fossas funerárias, é admissível que correspondam ao período de que tratamos".

Com os actuais dados arqueológicos e face à inexistência de necrópoles delimitadas a nível de espaço, podemos especular que a maior parte dos rituais fúnebres castrejos se davam no interior do espaço doméstico, provavelmente com o intuito de sacralizar a presença do antepassado, fortalecendo o núcleo familiar celular, base da sociedade castreja. "...o núcleo familiar parece emergir vigorosamente como célula-base da sociedade". A permanência das cinzas enterradas em vasos na casa pode nos sugerir a sacralização do espaço quotidiano, dessa forma "protegido" magicamente contra as habituais invasões a que os castrejos estavam submetidos.
Existem divergências quanto à datação precisa do período que abrange a cultura castreja no noroeste da Península. O seu apogeu situa-se na II Idade do Ferro (post-halstático) entre os séculos III a.C. e I d.C. A criação dos castros propriamente ditos deve corresponder aos movimentos migratórios da área indo-europeia da meseta e das regiões meridionais, principalmente com as expedições de túrdulos e turdetanos, descendentes dos antigos tartéssios, entre os séculos V e IV a. C.
Estas expedições terão ocasionado uma instabilidade social em todo o território de Entre- Douro e Minho, possibilitando o surgimento destas fortificações.
A cultura castreja sofreu influências externas distintas:

1) Zonas meridionais ibero-púnicas (inicio no Bronze Final);
2) Migração dos túrdulos (reflectidas nas técnicas, nos motivos cerâmicos e na ourivesaria);
3) Influências continentais (com o crescente deslocamento das comunidades indo-europeias).

É difícil estabelecer com precisão a intensidade com que cada cultura externa teve influência sobre a cultura castreja. De qualquer modo, foi essa cultura de miscigenação que existia quando os romanos chegaram. A partir da conquista romana (que teve início em 205 a. C.) deu-se progressivamente a romanização da cultura castreja, com a redistribuição e planificação urbanística dos castros sob a vontade do invasor.
A ocupação cartaginesa no sul da Península (a partir de 237 a. C., com a invasão de Hamilcar Barcha, m. 229-228 a.C.) e a II Guerra Púnica (218-201 a. C.), principalmente com as batalhas de Sagunto (219, início da guerra, com a vitória de Aníbal [Anibal ou Hannibal, 247-183 a.C.] no cerco à cidade), Becula (208) e Ilipa (207) (vitórias de Cipião Africano [Scipio Africanus, cônsul, 205 e 194 a.C.], com a conquista da Espanha para Roma) não influíram directamente na cultura castreja de Entre Douro e Minho, mais ao norte da Península. Até 197 a.C., a dominação romana na Península se estendia numa faixa a oeste que ia de Emporion (no nordeste) a Gades (no sul). A conquista só terminou em 19 a.C., quando Agripa (Agrippa, m. 12 a.C.) dominou os últimos focos independentes nas Astúrias. Será a partir de então que se dará a referida romanização da cultura castreja.

Um óptimo exemplo da influência romana é a escavação de Citânia de Safins, em Paços de Ferreira. Ela mostra-nos um extenso povoado castrejo, com duas redes de muralhas à direita e uma divisão interna muralhada. A parte inferior da citânia mostra os típicos núcleos habitacionais circulares castrejos, reordenados em "bairros", em substituição ao "caos" anterior pré-romano. Na parte inferior, observamos quase 40 núcleos familiares circulares, e aproximadamente 15 núcleos quadrados. Estes últimos possivelmente foram construídos após a reordenação romana, já que não fazem parte do habitat castrejo anterior (numa posição divergente, José Hermano Saraiva relaciona as casas de formato rectangular à invasão céltica, e sua subsequente miscigenação. Saraiva, 1991: 21).

Vista aérea do oppidum de Safins.
É importante ressaltar que, pelos dados fornecidos pelas escavações, cada casa castreja deveria reunir várias células familiares, ou uma família ampla, de 20 a 50 pessoas, constituindo uma unidade supra-familiar vasta. O geógrafo grego Estrabão (c. 64 a. C.- 25 d. C.), oferece-nos um excelente panorama dos povos peninsulares a quando da conquista romana. Estrabão é um autor que deve ser utilizado com uma certa dose de prudência, principalmente quanto às suas apreciações de teor etnográfico. A sua obra reflete a visão do conquistador, com todo o seu desprezo pelas culturas bárbaras; a conquista romana é um imenso "esforço civilizador" sobre as comunidades peninsulares.

A sua posição pró-romana já pode ser vista quando tenta explicar as origens da I Guerra Púnica (264 - 241 a. C.); Estrabão afirma que era prática usual dos cartagineses afogar qualquer marinheiro intruso, encontrado entre a Sardenha e Gibraltar. Pirataria que, mais tarde, "explicaria" moralmente a luta contra os púnicos (Strabo, Geography, XVII, 1, 19). Essa guerra ideológica seria imortalizada mais tarde com a frase de Catão, o Velho (Cato, 234 - 149 a. C.): Ceterum censeo delendam esse Carthaginem (E também penso que Cartago deve ser destruída).

Para ressaltar a importância da "chegada da civilização", Estrabão realça o barbarismo destes iberos pré-romanos, afirmando que muitos viviam em cavernas e choupanas, dormindo no chão e lavando os dentes com urina choca (Strabo, III, 4, 16). Podemos observar a distribuição dos povos que habitavam a Hispânia pré-romana, de acordo com descrição de historiadores e geógrafos gregos e romanos (Atlas Histórico - edição especial para Encyclopedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, MCMLXXXVI: 23). Mas esta é uma classificação étnica simples e que apresenta vários problemas. Estrabão e Plínio, o Velho (23/24-79 d. C.), por exemplo, muitas vezes tecem considerações genéricas sobre povos distintos.
A norte do rio Douro (zona 1), era o território de um grupo de etnias designadas genericamente pelo nome de Calaicos, palavra relacionada com kelticoi, nome que os Romanos davam aos Celtas e que veio a dar o termo galegos (Saraiva, 1991: 22).

Nesta área litoral castreja, encontram-se divergências entre Plínio, o Velho e Estrabão: o primeiro dá os nomes dos povos que ali viviam (bibalos, celernos, calaicos, equesos, límicos, querquenos, além de outros); o segundo afirma que os habitantes do norte do rio Douro eram lusitanos, e que somente após a conquista romana se passaram a chamar Calaicos. Para um melhor entendimento, sempre que se refere os calaicos como povo pertencente à cultura castreja, está-se também a referir outras etnias da mesma região, que desenvolveram uma cultura semelhante e o mesmo modo de habitação.
Os núcleos supra-familiares castrejos possuíam provavelmente chefes, vitalícios ou nomeados provisoriamente. Na Citânia de Briteiros, em Guimarães, as escavações arqueológicas encontraram uma grande construção circular (11 m de diâmetro), com bancos corridos em volta, implantada num local mais afastado das habitações familiares Já foram levantadas as seguintes hipóteses para a utilidade de tal monumento:

1) Um conselho de anciãos (sem se saber, no entanto, se existiam antes da conquista romana ou se foi uma implantação criada pelo poder romano);
2) Alguma instituição ligada à administração de cada povoado.
3) Simplesmente para o efeito de reuniões familiares, embora de maiores dimensões.

Com a conquista romana, os povoados castrejos receberam a designação de castellum (com a abreviatura epigráfica da letra C invertida). A partir de então o habitante do castro desceu do cabeço e, num processo abrupto, foi obrigado a converter-se num agricultor dominado, além de trabalhar para o Império Romano nas construções públicas (pavimentações, fortificações, vias, pontes, etc. - uma das mais perfeitas pontes romanas construídas no actual território português é a de Alcântara [a Norba Cesarina do período romano], com arcos de 100 pés de altura e 180 de largura). Como descreve Serrão: "... após o assassínio do caudilho Viriato e a repressão brutal e sangrenta exercida pelas tropas de Júlio Bruto, irrompendo até a Galiza, o habitante dos castros, simultaneamente pastor e guerreiro, bisonho e bravio, foi, por fim, obrigado pela força das armas a descer à planície aberta e a submeter-se à disciplina e à lei do invasor, tendo de depor o escudo e a espada curta…”
Apesar das discussões referentes à existência de um conselho de anciãos, não há dúvidas quanto à autonomia de cada povoado em relação aos outros. Os Calaicos não possuíam nenhum tipo de instituição superior para punir actos ou leis de cada povoado. Um verdadeira fragmentação de poder, bem caracterizada nos votos religiosos encontrados, quando os calaicos identificavam a sua origem "pelo nome do povoado que tinham nascido" ("ao contrário do que sucedia em outras regiões da área indo-europeia peninsular".

Estrabão fala de festas familiares que os calaicos faziam em certas noites de lua cheia, provavelmente associadas a rituais religiosos. Conhece-se uma divindade, de nome Larouco, particularmente venerada na região de Vilar de Perdizes, em Vila Real. É também conhecida a rápida propagação do culto a Júpiter, e a associação do deus Marte a algumas divindades locais. A inexistência de santuários sugere um culto ao ar livre, em contacto directo com a natureza. Todas as construções específicas para um culto religioso foram construídas após a ocupação romana, o que não significa necessariamente que não possuíssem algum tipo de sacerdote, ou grupo sacerdotal.
Estrabão conta que as populações castrejas comiam pão de bolota durante a maior parte do ano. As suas actividades dominantes eram o pastoreio e a recolecção. As mulheres trabalhavam nos campos, os homens apascentavam o gado. Os calaicos ainda se envolviam em incursões de pilhagem nos territórios vizinhos. Tinham pouco vinho, apenas era utilizado em festividades para fins de sociabilidade, "...produziam, no entanto, uma bebida fermentada, à base de frutos. Desconheciam o azeite e usavam a manteiga como gordura alimentar e, provavelmente, para outros fins. Não é de excluir, também, a utilização do linho como oleaginosa alimentar". 

Segundo ainda Estrabão, os calaicos utilizavam também o comércio marítimo: "barcos revestidos de couro e com estrutura de madeira utilizados pelos povos setentrionais"   A arqueologia encontrou joias de ouro fabricadas localmente. Os recursos minerais (ouro e estanho) estimularam o interesse romano pela região (Roma já conhecia a riqueza mineral peninsular desde a dominação cartaginense no sudeste, principalmente entre a I e a II Guerras Púnicas. Com a vitória, os minérios hispânicos [ouro, prata, cobre, estanho, ferro, chumbo] passaram a enriquecer Roma, depois de ter enriquecido Tiro e Cartago).
A cerâmica pode se prestar a equívocos; foram encontrados vasos gregos (ânforas e outras de influência púnica) em vários castros (um deles, a Cividade do Terroso).
Quanto à cerâmica local, encontraram-se recipientes sinuosos, feitos geralmente com pastas grosseiras e com motivos geométricos feitos com incisão ou com matrizes de desenhos variados. Encontraram-se também os primeiros vasos com o auxílio do "torno lento" (fabricação manual) relacionada com o moinho manual giratório, uma aquisição tecnológica do período.
Estrabão refere-se à utilização da madeira como uma forma de artesanato. Aqui a arqueologia confirma a fonte documental: no castro de Santo Estêvão da Rocha, em Ponte de Lima, recolheram-se alguns fragmentos destes recipientes de madeira, apenas por sorte, pois a madeira é de difícil conservação, ao contrário da cerâmica ou qualquer tipo de metal.

O Guerreiro calaico de Boticas


"O Guerreiro consiste num monólito antropomórfico esculpido, erecto. Apresenta-se vestido com "sagum" (saio exuberantemente decorado com motivos geométricos de círculos concêntricos encadeados e axadrezados), com decote em V e manga curta, cingido por um cinturão com quatro nervuras paralelas. A cabeça é proporcionada, exibindo um cabelo curto e deixando livres as orelhas, barba e bigode. Austenta as seguintes armas: "caetra" redonda e plana (típico escudo redondo), com umbo, com decorações do tipo "labirinto", que segura na mão esquerda com correias cruzadas no antebraço, e na mão direita empunha um punhal triangular curto, com pomo discoidal, introduzido numa bainha com o conto de perfil circular e linhas transversais de possíveis travessas. Usa no pescoço um torque (peça de ourivesaria típica nos guerreiros da época), com aro aberto e em cada braço, uma "víria" de três toros (espécie de pulseira). O Guerreiro Calaico ou Castrejo é o expoente máximo da Arqueologia Nacional e representa, segundo alguns autores especialistas nesta matéria, a imagem da divindade e o carácter guerreiro das civilizações castrejas que habitaram a nossa região." 

Na metalurgia, os calaicos demonstraram grande especialização, principalmente com o bronze e o ouro. Utilizavam uma espada curta, com cabo de bronze (encontrada na Citânia de São Julião, em Vila Verde) e facas de lâmina curta, encontradas na Citânia de São Julião, no Castro de Santa Marta das Cortiças (Falperra, em Braga) e no Castro da Baiza (Avintes, em Gaia). Aqui também se confirma Estrabão, que afirma que os lusitanos ainda combatiam com lanças de bronze. Provavelmente só após a conquista romana a civilização do ferro introduziu-se na região. José Hermano Saraiva afirma que o ferro foi introduzido na região com a invasão celta, no I milénio a. C. 

Carvalhelhos é uma aldeia que pertence à freguesia de Beça, concelho de Boticas. Situa-se a 800 m de altitude, 27 km a Sudoeste de Chaves. Portanto, em Trás-os-Montes, região tipicamente castreja, como vimos anteriormente.

Castro de Carvalhelhos

O castro foi "descoberto" por J. R. dos Santos Júnior em 1950, quando descia o caminho que vem de Lavradas para Carvalhelhos. Visível a olho nu, a muralha castreja estava quase toda derrubada (as pedras foram utilizadas pela população local para a construção de casas). Nos anos seguintes foram realizadas ao todo cinco escavações arqueológicas (1951, 1952, 1953, 1956 e 1957). Para não nos debruçarmos detalhadamente em cada uma delas, faremos um breve comentário acerca dos achados materiais no castro de Carvalhelhos. São os seguintes:
1) Fragmentos de cerâmica, basicamente 03 tipos: a} pouco espesso e de tonalidade escura (o mais abundante); b} pouco espesso e de tom claro, e c} textura granulosa, face interna clara e externa escura;
2) Minério de ferro (3 pedaços) e um cristal de pirite de ferro do tamanho da cabeça de um dedo;
3) Duas moedas: um vintém de D. Luís (encontrada na muralha) e outro vintém de D. Carlos (na casa rectangular, que falaremos mais à frente).

O castro de Carvalhelhos é conhecido na região como castro, ou couto dos mouros. O castro de Carvalhelhos está enquadrado no decreto no. 38.941, de 06 de Novembro de 1951 - o castro sofreu uma série de assaltos realizados pelas populações locais com o intuito de utilizar as pedras para construção de casas. "...um habitante de Carvalhelhos de nome Alexandre Alves começou a fazer uma casa e que quatro carreiros ao serviço do mesmo, cada um com seu carro de bois, tinha ido ao castro buscar pedras e as tinham arrancado da muralha reconstruída e das casas redondas descobertas..." . O indivíduo foi processado, mas não foi condenado a repor as pedras.
Com subsídios arrecadados por órgãos governamentais, as escavações puderam descobrir uma parte da muralha (50 m) na zona sul, além de três casas circulares e uma rectangular.
Numa parte da muralha externa foi encontrada uma "porta", com 88 cm de largura, e uma segunda "porta" interna (chamada de porta principal), de 1,40 m de largura. Foram encontradas ainda vestígios de três muralhas - um habitante da região afirmou que existiam 7 muralhas no castro, antes das depravações. Outra "porta" foi escavada (chamada pelos populares de cavalo dos mouros), do outro lado do riacho que corre no sopé.


Um aspecto interessante deste castro foi a descoberta de pelo menos dez rampas de acesso à muralha. É um dado que afirma o desenvolvimento arquitectónico do castro. Como no trabalho de J. R. dos Santos Júnior não foram feitas datações, podemos supor que a construção castreja seja num período mais recente, ou até mesmo que tenha sido novamente utilizado pelas populações do alto medieval. Isso quase que antecipa as conhecidas pontes elevatórias dos castelos medievais. Demograficamente, também pode sugerir um crescimento populacional. São conjecturas possíveis, até termos uma datação mais precisa (como o trabalho aqui pesquisado é de 1957, existe a possibilidade do castro já ter sido datado pelos arqueólogos, e não ser do nosso conhecimento).

O castro de Carvalhelhos possui uma tríplice linha de fossos, com aberturas que variam de 4 até 12 metros (aqui podemos ter a acção da erosão). Com as pedras fincadas comentadas anteriormente (num total de cinco grupos - o maior grupo tem 18 a 20 m de comprimento por 3 a 4 m de largura, o menor, 3 m de comprimento por 2 de largura.), o castro de Carvalhelhos era muito bem defendido, tendo caído possivelmente por cerco prolongado (que trouxe consequentemente a fome dos sitiados).

O castro situa-se numa zona granítica com xisto. A região do castro é rica em minério de estanho e de volfrâmio. Foi encontrado ainda um "esconderijo" (devidamente assaltado), próximo do cavalo dos mouros, que continha 200 quilos de cassiterite (a cassiterite é um minério de estanho que, na antiguidade, teve uma grande importância para a fabricação de objectos de bronze). As populações castrejas, obrigadas a trabalhar sob o jugo de Roma, ocultaram deliberadamente o minério para um aproveitamento posterior. É também provável que tenha despertado o interesse romano, num cabeço próximo há vestígios de explorações mineiras. Isso também viabiliza a hipótese de queda do castro por cerco - a região de Trás-os-Montes foi uma das últimas a cair aquando da conquista romana.

Mas é durante o período muçulmano que encontramos os melhores indícios de ocupação castreja. Aqui foi utilizada a onomástica para relacionar a ocupação com longas tradições locais que perpetuam (muitas vezes sem o saber) essa lembrança.
As coincidências onomásticas permanecem, mesmo tratando-se de áreas distintas, separadas pelos Pirenéus.
Dessa forma, não é de se estranhar que exista a possibilidade do uso do castro até para a construção de uma fortaleza, utilizando a posição privilegiada, além do material granítico, já trabalhado em forma de bloco. Assim, podemos colocar a questão da longa permanência do castro como local de resistência, enraizado na sua geografia. Sem nos levarmos pelas antigas posturas nacionalistas ("Nos castros implantam-se velhas raízes da nacionalidade portuguesa, o estudo do castro é o estudo de uma longa tradição de isolamento, de resistência cultural ibérica, onde os povos lusos sempre se opuseram ao que veio de fora, ao "outro".

Bibliografia:
Arqueologia e História (Associação dos Arqueólogos Portugueses), 10 volumes, Lisboa, 1922-1932.

FABIÃO, Carlos. "O passado proto-histórico e romano - A II Idade do Ferro". In: MATTOSO, José (org.). História de Portugal - Antes de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, s/d.

LOT, Ferdinand. O fim do mundo antigo e o princípio da Idade Média. Lisboa: Edições 70, 1985.

MATTOSO, José. Identificação de um País - ensaio sobre as origens de Portugal (1096-1325). Lisboa: Editorial Estampa, 1985.

SARAIVA, José Hermano. História concisa de Portugal. Lisboa: Edições Europa-América, 1991.