quinta-feira, 3 de abril de 2014

Os castros




Na arqueologia, um castro (castro, castelo dos mouros, couto dos mouros, citânia, cividades, castelejo, castelos) é um vestígio de uma povoação fortificada, muralhada com uma ou mais fileiras de pedras, um ou mais fossos, e quase sempre no topo de um cabeço, monte com cume arredondado e por vezes com encostas íngremes, geograficamente adequado para o domínio da paisagem local e uma observação à distância.
Os castros eram núcleos populacionais concentrados, forçados a um isolamento defensivo. Este é o habitat castrejo típico. Os seus povoados estavam instalados em colinas de substrato granítico, e as populações castrejas utilizaram amplamente este material, principalmente para a construção das muralhas, feitas de blocos de granito toscamente recortados. O que é designado por "civilização do granito”.
Na cultura castreja, as casas possuíam planta circular, com cerca de 5 metros de diâmetro. As paredes eram formadas por pequenas pedras unidas com cascalho, sem qualquer argamassa. Possuíam piso de saibro batido; no seu interior, uma lareira no canto, revestida de argila, ao centro, um buraco para um poste que suportava a estrutura da cobertura, de colmo, material perecível e de formato cónico. Na parte da frente um átrio, algumas vezes com um forno ou forja.

A cultura castreja localizava-se essencialmente nas zonas do Minho e Trás-os-Montes, a norte do rio Douro. Para o período que compreende o auge da cultura castreja, esta região era constituída por duas zonas culturais distintas: litoral (que chamaremos zona 1) e interior (zona 2). O conhecimento destas zonas é desigual; no litoral, com mais de 100 anos de escavações contínuas, opõe-se o interior, quase que totalmente desconhecido.
Na região do Minho o clima é húmido, com chuvas frequentes (até 3.000 mm anuais). A sua geografia é entalhada por uma série de vales paralelos, com falésias delimitando as praias estreitas. O solo, naturalmente pobre, tem a sua fertilidade assegurada pela adubação de algas marinhas.
Trás-os-Montes ocupa uma área montanhosa, região de forte erosão secular, com uma topografia movimentada e de vales profundos como os de Tua, Tâmega e Sabor. Os rios correm por escarpas com altitudes superiores a 1.200 metros. Tal relevo, que assistiu ao surgimento da cultura castreja em território lusitano, explica em parte seu isolamento em pequenos núcleos populacionais.
Para a zona 1, o castro mais famosos é o da Cividade do Terroso, na Póvoa do Varzim e Viana do Castelo, este último com a escavação de uma pequena necrópole no interior de um núcleo familiar. Existe um desconhecimento sobre as necrópoles do período. Pressupõe-se que os rituais funerários castrejos envolvessem a cremação, devido aos numerosos elementos que remetem ao mundo indo-europeu. As escavações arqueológicas mostram "...fossas abertas no solo das habitações, forradas com pedras, no interior das quais se guardavam urnas contendo as cinzas dos defuntos. Embora não seja possível atribuir uma datação precisa a estas fossas funerárias, é admissível que correspondam ao período de que tratamos".

Com os actuais dados arqueológicos e face à inexistência de necrópoles delimitadas a nível de espaço, podemos especular que a maior parte dos rituais fúnebres castrejos se davam no interior do espaço doméstico, provavelmente com o intuito de sacralizar a presença do antepassado, fortalecendo o núcleo familiar celular, base da sociedade castreja. "...o núcleo familiar parece emergir vigorosamente como célula-base da sociedade". A permanência das cinzas enterradas em vasos na casa pode nos sugerir a sacralização do espaço quotidiano, dessa forma "protegido" magicamente contra as habituais invasões a que os castrejos estavam submetidos.
Existem divergências quanto à datação precisa do período que abrange a cultura castreja no noroeste da Península. O seu apogeu situa-se na II Idade do Ferro (post-halstático) entre os séculos III a.C. e I d.C. A criação dos castros propriamente ditos deve corresponder aos movimentos migratórios da área indo-europeia da meseta e das regiões meridionais, principalmente com as expedições de túrdulos e turdetanos, descendentes dos antigos tartéssios, entre os séculos V e IV a. C.
Estas expedições terão ocasionado uma instabilidade social em todo o território de Entre- Douro e Minho, possibilitando o surgimento destas fortificações.
A cultura castreja sofreu influências externas distintas:

1) Zonas meridionais ibero-púnicas (inicio no Bronze Final);
2) Migração dos túrdulos (reflectidas nas técnicas, nos motivos cerâmicos e na ourivesaria);
3) Influências continentais (com o crescente deslocamento das comunidades indo-europeias).

É difícil estabelecer com precisão a intensidade com que cada cultura externa teve influência sobre a cultura castreja. De qualquer modo, foi essa cultura de miscigenação que existia quando os romanos chegaram. A partir da conquista romana (que teve início em 205 a. C.) deu-se progressivamente a romanização da cultura castreja, com a redistribuição e planificação urbanística dos castros sob a vontade do invasor.
A ocupação cartaginesa no sul da Península (a partir de 237 a. C., com a invasão de Hamilcar Barcha, m. 229-228 a.C.) e a II Guerra Púnica (218-201 a. C.), principalmente com as batalhas de Sagunto (219, início da guerra, com a vitória de Aníbal [Anibal ou Hannibal, 247-183 a.C.] no cerco à cidade), Becula (208) e Ilipa (207) (vitórias de Cipião Africano [Scipio Africanus, cônsul, 205 e 194 a.C.], com a conquista da Espanha para Roma) não influíram directamente na cultura castreja de Entre Douro e Minho, mais ao norte da Península. Até 197 a.C., a dominação romana na Península se estendia numa faixa a oeste que ia de Emporion (no nordeste) a Gades (no sul). A conquista só terminou em 19 a.C., quando Agripa (Agrippa, m. 12 a.C.) dominou os últimos focos independentes nas Astúrias. Será a partir de então que se dará a referida romanização da cultura castreja.

Um óptimo exemplo da influência romana é a escavação de Citânia de Safins, em Paços de Ferreira. Ela mostra-nos um extenso povoado castrejo, com duas redes de muralhas à direita e uma divisão interna muralhada. A parte inferior da citânia mostra os típicos núcleos habitacionais circulares castrejos, reordenados em "bairros", em substituição ao "caos" anterior pré-romano. Na parte inferior, observamos quase 40 núcleos familiares circulares, e aproximadamente 15 núcleos quadrados. Estes últimos possivelmente foram construídos após a reordenação romana, já que não fazem parte do habitat castrejo anterior (numa posição divergente, José Hermano Saraiva relaciona as casas de formato rectangular à invasão céltica, e sua subsequente miscigenação. Saraiva, 1991: 21).

Vista aérea do oppidum de Safins.
É importante ressaltar que, pelos dados fornecidos pelas escavações, cada casa castreja deveria reunir várias células familiares, ou uma família ampla, de 20 a 50 pessoas, constituindo uma unidade supra-familiar vasta. O geógrafo grego Estrabão (c. 64 a. C.- 25 d. C.), oferece-nos um excelente panorama dos povos peninsulares a quando da conquista romana. Estrabão é um autor que deve ser utilizado com uma certa dose de prudência, principalmente quanto às suas apreciações de teor etnográfico. A sua obra reflete a visão do conquistador, com todo o seu desprezo pelas culturas bárbaras; a conquista romana é um imenso "esforço civilizador" sobre as comunidades peninsulares.

A sua posição pró-romana já pode ser vista quando tenta explicar as origens da I Guerra Púnica (264 - 241 a. C.); Estrabão afirma que era prática usual dos cartagineses afogar qualquer marinheiro intruso, encontrado entre a Sardenha e Gibraltar. Pirataria que, mais tarde, "explicaria" moralmente a luta contra os púnicos (Strabo, Geography, XVII, 1, 19). Essa guerra ideológica seria imortalizada mais tarde com a frase de Catão, o Velho (Cato, 234 - 149 a. C.): Ceterum censeo delendam esse Carthaginem (E também penso que Cartago deve ser destruída).

Para ressaltar a importância da "chegada da civilização", Estrabão realça o barbarismo destes iberos pré-romanos, afirmando que muitos viviam em cavernas e choupanas, dormindo no chão e lavando os dentes com urina choca (Strabo, III, 4, 16). Podemos observar a distribuição dos povos que habitavam a Hispânia pré-romana, de acordo com descrição de historiadores e geógrafos gregos e romanos (Atlas Histórico - edição especial para Encyclopedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, MCMLXXXVI: 23). Mas esta é uma classificação étnica simples e que apresenta vários problemas. Estrabão e Plínio, o Velho (23/24-79 d. C.), por exemplo, muitas vezes tecem considerações genéricas sobre povos distintos.
A norte do rio Douro (zona 1), era o território de um grupo de etnias designadas genericamente pelo nome de Calaicos, palavra relacionada com kelticoi, nome que os Romanos davam aos Celtas e que veio a dar o termo galegos (Saraiva, 1991: 22).

Nesta área litoral castreja, encontram-se divergências entre Plínio, o Velho e Estrabão: o primeiro dá os nomes dos povos que ali viviam (bibalos, celernos, calaicos, equesos, límicos, querquenos, além de outros); o segundo afirma que os habitantes do norte do rio Douro eram lusitanos, e que somente após a conquista romana se passaram a chamar Calaicos. Para um melhor entendimento, sempre que se refere os calaicos como povo pertencente à cultura castreja, está-se também a referir outras etnias da mesma região, que desenvolveram uma cultura semelhante e o mesmo modo de habitação.
Os núcleos supra-familiares castrejos possuíam provavelmente chefes, vitalícios ou nomeados provisoriamente. Na Citânia de Briteiros, em Guimarães, as escavações arqueológicas encontraram uma grande construção circular (11 m de diâmetro), com bancos corridos em volta, implantada num local mais afastado das habitações familiares Já foram levantadas as seguintes hipóteses para a utilidade de tal monumento:

1) Um conselho de anciãos (sem se saber, no entanto, se existiam antes da conquista romana ou se foi uma implantação criada pelo poder romano);
2) Alguma instituição ligada à administração de cada povoado.
3) Simplesmente para o efeito de reuniões familiares, embora de maiores dimensões.

Com a conquista romana, os povoados castrejos receberam a designação de castellum (com a abreviatura epigráfica da letra C invertida). A partir de então o habitante do castro desceu do cabeço e, num processo abrupto, foi obrigado a converter-se num agricultor dominado, além de trabalhar para o Império Romano nas construções públicas (pavimentações, fortificações, vias, pontes, etc. - uma das mais perfeitas pontes romanas construídas no actual território português é a de Alcântara [a Norba Cesarina do período romano], com arcos de 100 pés de altura e 180 de largura). Como descreve Serrão: "... após o assassínio do caudilho Viriato e a repressão brutal e sangrenta exercida pelas tropas de Júlio Bruto, irrompendo até a Galiza, o habitante dos castros, simultaneamente pastor e guerreiro, bisonho e bravio, foi, por fim, obrigado pela força das armas a descer à planície aberta e a submeter-se à disciplina e à lei do invasor, tendo de depor o escudo e a espada curta…”
Apesar das discussões referentes à existência de um conselho de anciãos, não há dúvidas quanto à autonomia de cada povoado em relação aos outros. Os Calaicos não possuíam nenhum tipo de instituição superior para punir actos ou leis de cada povoado. Um verdadeira fragmentação de poder, bem caracterizada nos votos religiosos encontrados, quando os calaicos identificavam a sua origem "pelo nome do povoado que tinham nascido" ("ao contrário do que sucedia em outras regiões da área indo-europeia peninsular".

Estrabão fala de festas familiares que os calaicos faziam em certas noites de lua cheia, provavelmente associadas a rituais religiosos. Conhece-se uma divindade, de nome Larouco, particularmente venerada na região de Vilar de Perdizes, em Vila Real. É também conhecida a rápida propagação do culto a Júpiter, e a associação do deus Marte a algumas divindades locais. A inexistência de santuários sugere um culto ao ar livre, em contacto directo com a natureza. Todas as construções específicas para um culto religioso foram construídas após a ocupação romana, o que não significa necessariamente que não possuíssem algum tipo de sacerdote, ou grupo sacerdotal.
Estrabão conta que as populações castrejas comiam pão de bolota durante a maior parte do ano. As suas actividades dominantes eram o pastoreio e a recolecção. As mulheres trabalhavam nos campos, os homens apascentavam o gado. Os calaicos ainda se envolviam em incursões de pilhagem nos territórios vizinhos. Tinham pouco vinho, apenas era utilizado em festividades para fins de sociabilidade, "...produziam, no entanto, uma bebida fermentada, à base de frutos. Desconheciam o azeite e usavam a manteiga como gordura alimentar e, provavelmente, para outros fins. Não é de excluir, também, a utilização do linho como oleaginosa alimentar". 

Segundo ainda Estrabão, os calaicos utilizavam também o comércio marítimo: "barcos revestidos de couro e com estrutura de madeira utilizados pelos povos setentrionais"   A arqueologia encontrou joias de ouro fabricadas localmente. Os recursos minerais (ouro e estanho) estimularam o interesse romano pela região (Roma já conhecia a riqueza mineral peninsular desde a dominação cartaginense no sudeste, principalmente entre a I e a II Guerras Púnicas. Com a vitória, os minérios hispânicos [ouro, prata, cobre, estanho, ferro, chumbo] passaram a enriquecer Roma, depois de ter enriquecido Tiro e Cartago).
A cerâmica pode se prestar a equívocos; foram encontrados vasos gregos (ânforas e outras de influência púnica) em vários castros (um deles, a Cividade do Terroso).
Quanto à cerâmica local, encontraram-se recipientes sinuosos, feitos geralmente com pastas grosseiras e com motivos geométricos feitos com incisão ou com matrizes de desenhos variados. Encontraram-se também os primeiros vasos com o auxílio do "torno lento" (fabricação manual) relacionada com o moinho manual giratório, uma aquisição tecnológica do período.
Estrabão refere-se à utilização da madeira como uma forma de artesanato. Aqui a arqueologia confirma a fonte documental: no castro de Santo Estêvão da Rocha, em Ponte de Lima, recolheram-se alguns fragmentos destes recipientes de madeira, apenas por sorte, pois a madeira é de difícil conservação, ao contrário da cerâmica ou qualquer tipo de metal.

O Guerreiro calaico de Boticas


"O Guerreiro consiste num monólito antropomórfico esculpido, erecto. Apresenta-se vestido com "sagum" (saio exuberantemente decorado com motivos geométricos de círculos concêntricos encadeados e axadrezados), com decote em V e manga curta, cingido por um cinturão com quatro nervuras paralelas. A cabeça é proporcionada, exibindo um cabelo curto e deixando livres as orelhas, barba e bigode. Austenta as seguintes armas: "caetra" redonda e plana (típico escudo redondo), com umbo, com decorações do tipo "labirinto", que segura na mão esquerda com correias cruzadas no antebraço, e na mão direita empunha um punhal triangular curto, com pomo discoidal, introduzido numa bainha com o conto de perfil circular e linhas transversais de possíveis travessas. Usa no pescoço um torque (peça de ourivesaria típica nos guerreiros da época), com aro aberto e em cada braço, uma "víria" de três toros (espécie de pulseira). O Guerreiro Calaico ou Castrejo é o expoente máximo da Arqueologia Nacional e representa, segundo alguns autores especialistas nesta matéria, a imagem da divindade e o carácter guerreiro das civilizações castrejas que habitaram a nossa região." 

Na metalurgia, os calaicos demonstraram grande especialização, principalmente com o bronze e o ouro. Utilizavam uma espada curta, com cabo de bronze (encontrada na Citânia de São Julião, em Vila Verde) e facas de lâmina curta, encontradas na Citânia de São Julião, no Castro de Santa Marta das Cortiças (Falperra, em Braga) e no Castro da Baiza (Avintes, em Gaia). Aqui também se confirma Estrabão, que afirma que os lusitanos ainda combatiam com lanças de bronze. Provavelmente só após a conquista romana a civilização do ferro introduziu-se na região. José Hermano Saraiva afirma que o ferro foi introduzido na região com a invasão celta, no I milénio a. C. 

Carvalhelhos é uma aldeia que pertence à freguesia de Beça, concelho de Boticas. Situa-se a 800 m de altitude, 27 km a Sudoeste de Chaves. Portanto, em Trás-os-Montes, região tipicamente castreja, como vimos anteriormente.

Castro de Carvalhelhos

O castro foi "descoberto" por J. R. dos Santos Júnior em 1950, quando descia o caminho que vem de Lavradas para Carvalhelhos. Visível a olho nu, a muralha castreja estava quase toda derrubada (as pedras foram utilizadas pela população local para a construção de casas). Nos anos seguintes foram realizadas ao todo cinco escavações arqueológicas (1951, 1952, 1953, 1956 e 1957). Para não nos debruçarmos detalhadamente em cada uma delas, faremos um breve comentário acerca dos achados materiais no castro de Carvalhelhos. São os seguintes:
1) Fragmentos de cerâmica, basicamente 03 tipos: a} pouco espesso e de tonalidade escura (o mais abundante); b} pouco espesso e de tom claro, e c} textura granulosa, face interna clara e externa escura;
2) Minério de ferro (3 pedaços) e um cristal de pirite de ferro do tamanho da cabeça de um dedo;
3) Duas moedas: um vintém de D. Luís (encontrada na muralha) e outro vintém de D. Carlos (na casa rectangular, que falaremos mais à frente).

O castro de Carvalhelhos é conhecido na região como castro, ou couto dos mouros. O castro de Carvalhelhos está enquadrado no decreto no. 38.941, de 06 de Novembro de 1951 - o castro sofreu uma série de assaltos realizados pelas populações locais com o intuito de utilizar as pedras para construção de casas. "...um habitante de Carvalhelhos de nome Alexandre Alves começou a fazer uma casa e que quatro carreiros ao serviço do mesmo, cada um com seu carro de bois, tinha ido ao castro buscar pedras e as tinham arrancado da muralha reconstruída e das casas redondas descobertas..." . O indivíduo foi processado, mas não foi condenado a repor as pedras.
Com subsídios arrecadados por órgãos governamentais, as escavações puderam descobrir uma parte da muralha (50 m) na zona sul, além de três casas circulares e uma rectangular.
Numa parte da muralha externa foi encontrada uma "porta", com 88 cm de largura, e uma segunda "porta" interna (chamada de porta principal), de 1,40 m de largura. Foram encontradas ainda vestígios de três muralhas - um habitante da região afirmou que existiam 7 muralhas no castro, antes das depravações. Outra "porta" foi escavada (chamada pelos populares de cavalo dos mouros), do outro lado do riacho que corre no sopé.


Um aspecto interessante deste castro foi a descoberta de pelo menos dez rampas de acesso à muralha. É um dado que afirma o desenvolvimento arquitectónico do castro. Como no trabalho de J. R. dos Santos Júnior não foram feitas datações, podemos supor que a construção castreja seja num período mais recente, ou até mesmo que tenha sido novamente utilizado pelas populações do alto medieval. Isso quase que antecipa as conhecidas pontes elevatórias dos castelos medievais. Demograficamente, também pode sugerir um crescimento populacional. São conjecturas possíveis, até termos uma datação mais precisa (como o trabalho aqui pesquisado é de 1957, existe a possibilidade do castro já ter sido datado pelos arqueólogos, e não ser do nosso conhecimento).

O castro de Carvalhelhos possui uma tríplice linha de fossos, com aberturas que variam de 4 até 12 metros (aqui podemos ter a acção da erosão). Com as pedras fincadas comentadas anteriormente (num total de cinco grupos - o maior grupo tem 18 a 20 m de comprimento por 3 a 4 m de largura, o menor, 3 m de comprimento por 2 de largura.), o castro de Carvalhelhos era muito bem defendido, tendo caído possivelmente por cerco prolongado (que trouxe consequentemente a fome dos sitiados).

O castro situa-se numa zona granítica com xisto. A região do castro é rica em minério de estanho e de volfrâmio. Foi encontrado ainda um "esconderijo" (devidamente assaltado), próximo do cavalo dos mouros, que continha 200 quilos de cassiterite (a cassiterite é um minério de estanho que, na antiguidade, teve uma grande importância para a fabricação de objectos de bronze). As populações castrejas, obrigadas a trabalhar sob o jugo de Roma, ocultaram deliberadamente o minério para um aproveitamento posterior. É também provável que tenha despertado o interesse romano, num cabeço próximo há vestígios de explorações mineiras. Isso também viabiliza a hipótese de queda do castro por cerco - a região de Trás-os-Montes foi uma das últimas a cair aquando da conquista romana.

Mas é durante o período muçulmano que encontramos os melhores indícios de ocupação castreja. Aqui foi utilizada a onomástica para relacionar a ocupação com longas tradições locais que perpetuam (muitas vezes sem o saber) essa lembrança.
As coincidências onomásticas permanecem, mesmo tratando-se de áreas distintas, separadas pelos Pirenéus.
Dessa forma, não é de se estranhar que exista a possibilidade do uso do castro até para a construção de uma fortaleza, utilizando a posição privilegiada, além do material granítico, já trabalhado em forma de bloco. Assim, podemos colocar a questão da longa permanência do castro como local de resistência, enraizado na sua geografia. Sem nos levarmos pelas antigas posturas nacionalistas ("Nos castros implantam-se velhas raízes da nacionalidade portuguesa, o estudo do castro é o estudo de uma longa tradição de isolamento, de resistência cultural ibérica, onde os povos lusos sempre se opuseram ao que veio de fora, ao "outro".

Bibliografia:
Arqueologia e História (Associação dos Arqueólogos Portugueses), 10 volumes, Lisboa, 1922-1932.

FABIÃO, Carlos. "O passado proto-histórico e romano - A II Idade do Ferro". In: MATTOSO, José (org.). História de Portugal - Antes de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, s/d.

LOT, Ferdinand. O fim do mundo antigo e o princípio da Idade Média. Lisboa: Edições 70, 1985.

MATTOSO, José. Identificação de um País - ensaio sobre as origens de Portugal (1096-1325). Lisboa: Editorial Estampa, 1985.

SARAIVA, José Hermano. História concisa de Portugal. Lisboa: Edições Europa-América, 1991.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Lenda da origem do vinho na Lusitânia



Um dia há muito anos Baco fez uma visita ao seu amigo Endovélico, o Deus da Lusitânia.
Atravessou as serras e subiu penosamente ladeiras até chegar a terras banhadas pelo rio Dão. Quando chegou a uma tosca cabana de pedra e troncos, onde vivia um casal lusitano com um filho gritou:
Pelos Deuses dai-me de beber!
O lusitano entrou na cabana e regressou com uma caneca de barro cozida ao sol, cheia de água.
Água? Por acaso não tendes vinho?
O lusitano arregalou os olhos, coçou a barba e voltou-se espantado:
Não. Nós não sabemos o que isso é. Quereis vós comer? E sem esperar resposta voltou com uma perna de cabrito montanhês. À despedida, Baco, estava comovido pela franca hospitalidade do luso e disse-lhe:
Ainda um dia hás-de saber o que é vinho.
Alguns anos mais tarde os legionários vieram a casa do luso, e cada um deles abriu uma vala e plantou uma videira. Quando partiram colocaram uma tabuleta nos bacelos onde se poderia ler: "Baco oferece reconhecido”.
Aquelas cepas foram crescendo em mais tarde deram saborosos bagos, cujo suco lusitano espremeu para beber no Inverno numa comunhão de força e rejuvenescimento, e assim daquelas uvas que eram uma delícia do bom Baco, havia nascido o grandioso e salutar vinho do Dão.

A Toponímia Romana em Portugal

Évora

A influência romana sobre o território que actualmente conhecemos como Portugal foi profunda e deixou marcas de Norte a Sul do país. Na imagem pode ver-se um pavimento de mosaico nas ruínas romanas de Milreu em Estoi no distrito de Faro. As Ruínas romanas de Milreu que também são conhecidas como as Ruínas de Estoi, são um importante vestígio da época romana.

Na história da Toponímia em Portugal, nunca pode ser descurada a influência que a conquista da Península Ibérica pelos Romanos nos inícios do século III a.C. veio a exercer sobre a toponímia Ibérica e Portuguesa. Na realidade os Romanos entraram no território que actualmente designamos como Portugal, logo no século II a.C. e depararam-se durante bastante tempo com uma forte resistência por parte dos povos autóctones da península Ibérica.
A romanização da Península Ibérica veio a afectar muitas áreas da vida dos seus habitantes, incluindo naturalmente a linguagem. O latim, acima de tudo a sua versão popular, o latim vulgar, foi difundido por soldados, colonos e mercadores que vinham de várias províncias e colónias romanas e acabaram por criar novas cidades próximo de cidades nativas já existentes.
A utilização de idiomas pré-romanos começou gradualmente a decrescer devido a vários factores. O primeiro destes terá sido o bilinguismo, inicialmente toda a Península Ibérica era falante de idiomas pré-romanos, no entanto, o tempo acabou por ditar que gradualmente estes idiomas fossem tendo a sua utilização reduzida, até que ficaram confinados a zonas isoladas da Ibéria.
Actualmente supõe-se que o contacto do Latim Vulgar com as línguas pré-romanas nativas à Península Ibérica, acabaram por dar origem à formação de diferentes dialectos. Estes dialectos por sua vez terão divergido ao longo do tempo, acabando por evoluir para as primeiras línguas românicas da Península Ibérica, entre elas o galaico-português. O processo de diferenciação das línguas ibérico-românicas terá ocorrido ainda no tempo Romano e provavelmente é responsável por ter dado origem a diversos traços individuais nas línguas em questão.


Os especialistas acreditam que por volta do ano 600 já não era falado o latim vulgar na Península Ibérica. Mas é amplamente aceitado que o latim vulgar teve um papel muito importante na origem de todas as línguas românicas, tendo contribuído com quase 90% do léxico para a Língua Portuguesa.
O grande contributo em termos de toponímia que os Romanos deixaram a Portugal e à Europa romanizada, em larga medida deveu-se ao hábito que os Romanos tinham de mapear e dar nomes às terras por si conquistadas. Por este motivo, a expansão do Império Romano foi sempre acompanhada de uma igual expansão da sua rede de Topónimos.
Infelizmente, o passar do tempo acabou por inevitavelmente apagar muitos destes Topónimos da época Romana e mesmo até da época pré-romana, no entanto, a falta de conhecimento que existe hoje sobre esta área, em parte deve-se à falta de mais esforços no sentido de aprofundar os conhecimentos sobre a Toponímia pré-Romana e Romana.
A implantação Romana na península Ibérica ficou caracterizada pela entrada em vigor de uma nova organização territorial que basicamente veio dividir a Península Ibérica em três províncias subservientes a Roma: a Baetica, a Lusitânia (que correspondia a uma parte significativa do território que actualmente constitui Portugal) e a Tarraconensis.
Durante a época em que o território actualmente português fez parte do Império Romano, foram criadas muitas cidades que ainda hoje existem e florescem. Porém, os Romanos também levaram a cabo uma expansão de cidades que já existiam na Península Ibérica anteriormente à sua chegada.


A política de ordenamento territorial levada a cabo pelo Império Romano na península Ibérica deu origem a importantes aglomerados urbanos e rurais que foram ligados entre si por uma vasta rede viária. Alias, convém salientar, que a criação desta rede viária (um dos maiores símbolos e orgulhos da civilização Romana) também deu origem simultaneamente a uma necessidade de criar novos topónimos para aplicar tanto aos caminhos abertos pelos Romanos, como aos novos aglomerados habitacionais servidos por estas estradas sem paralelo na sua época.
A rede viária Romana foi, aliás, sem dúvida um dos principais motivos pela relativa estabilidade económico-social vivida na península Ibérica durante a ocupação Romana e a densidade da mesma pode ser atestada pela significativa quantidade de vestígios arqueológicos existentes em muitas cidades portuguesas e em outras que hoje se encontram abandonadas, mas que na época do Império Romano constituíam importantes aglomerados habitacionais como foi o caso de Conimbriga e Mirobriga em Santiago do Cacém.
Algumas das cidades criadas pelos romanos, começaram a sua existência como villas romanas, com um senhor romano e peninsulares que ali se fixavam para trabalhar para os senhores romanos. Inicialmente, o regime que vigorava na Ibéria ocupada era o colonial, no entanto, mais tarde, os Ibero-Romanos das cidades ganharam o direito latino passando assim a serem considerados cidadãos de Roma com plenos direitos jurídicos.
As villae constituíam complexos habitacionais que estavam ligados à exploração de vários recursos existentes um pouco por todo o Império Romano. Em Portugal, exemplos destas villae são Mileu (Guarda), Pisões (Beja), São Cucufate (Vidigueira) e Fonte do Milho (Régua). De acordo com H. Lautensach, o nome do proprietário da villa pode ter estado na origem de alguns topónimos como Villa Corneliana que seria Correlhã, Villa Laurentiana corresponderia à Lourinhã e Villa Aurentina a Ourentã. No caso português pode-se dizer que uma parte muito significativa dos topónimos da época Romana foram já localizados, algo que é fundamental para que se possa compreender as raízes mais profundas de muitos topónimos em Portugal.

O quadro seguinte apresenta alguns exemplos de Topónimos usados durante a época Romana no território que actualmente constitui Portugal continental e os Topónimos actualmente correspondentes:

Topónimo Romano
Topónimo Português
Salacia
Alcácer do Sal
Vipasca
Aljustrel
Abelterium
Alter do Chão
Pax Iulia
Beja
Bracara Augusta
Braga
Aquae Flaviae
Chaves
Aeminium
Coimbra
Ebora
Évora
Ossonoba
Faro
Tongobriga
Freixo (Marco de Canaveses)
Igaeditani
Idanha-a-Velha
Olisipo
Lisboa
Myrtilis
Mértola
Cale
Porto?
Scallabis
Santarém
Caetobriga
Setúbal
Sellium
Tomar


Fontes:
GRANDE ENCICLOPÉDIA UNIVERSAL, Toponímia, Edita Durclube, 2004
PIEL, JOSEPH-MARIA, Origens e Estruturação Histórica do Léxico Português, Estudos de Linguística Histórica Galego-Portuguesa, Lisboa, 1989.
GOD’S GUARANTEES FOR GIVING!, Toponymy, http://godsguarantees.com/toponymy.





Os primeiros alfabetos na Ibéria

Os Ibéricos tinham uma língua pré-romana própria, ainda que apenas se tenham decifrado poucas inscrições encontradas. Isto demonstra que eram um povo culto, com algum ordenamento urbano nos seus povoados e tinham os seus próprios rituais e religião. Os Iberos conheceram a escrita através dos povos gregos e fenícios. Algumas palavras têm uma ligação directa com o alfabeto fenício na sua vertente mais arcaica, mas também foram adicionadas vogais gregas e podem-se encontrar parecenças com alguns testemunhos escritos da Ásia Menor. Um dado curioso é que existia dois tipos de alfabetos próprios: o meridional ou tartésico e o levantino ou oriental; que por sua vez indiciam uma separação de culturas dentro da península.
 

Muito menos conhecida que a levantina por causa das poucas inscrições conhecidas e da grande variedade e formas dos símbolos, a meridional surge na área tartésica, mesmo sendo indecifrável sabemos que se escrevia da direita para a esquerda, foram ainda encontradas escrituras em espiral e no sistema bustrofedónico, "como ara el buey", sistema de escritura caracterizado por combinar o sentido da escrita das linhas alternado (da esquerda para a direita; direita para a esquerda; esquerda para direita...) invertendo sempre o sentido da linha anterior).
A escritura meridional foi utilizada na Alta Andalucía e no sudeste, persistindo até ao inicio da época romana. Outro dos achados surpreendentes na câmara de Arjona foi uma inscrição em Ibero meridional, na tampa de uma urna de chumbo. Nesta aparece o que poderá ter sido o nome incompleto de um príncipe ali enterrado com a sua família, "...ILTIR filho de EKATERUTU, foi a primeira vez que foi documentado um nome Ibero.
 

Ibero levantina: inscrições em escrita semi-silábica ibérica e na língua ibérica, , quase sempre escrito da esquerda para a direita. Documentada entre os séculos IV a.C. e I a.C. Antes da segunda guerra púnica o seu uso limitava-se à zona costeira desde o sul de França (do río Orb: Béziers/ Narbonne) ao norte da província de Valência. Posteriormente o seu uso estendeu-se para sul até Múrcia incluindo Granada (pese que apenas está documentado, a "ceca de Granada" deve de estar escrita em levantino) y até ao interior, especialmente no valle del Ebro com testemunhos decrescentes que chegam a Aragón e Navarra.
Estrabão disse que os Iberos tinham musicas e leis escritas em verso, para assim facilitar a sua aprendizagem pelo povo, conhecem-se alguns documentos, como os chamados "plomos de Gádor e La Bastida de Mogente" e alguns pratos ornamentados com pequenas inscrições, mas que na maioria dos casos tratam-se apenas de palavras soltas, inúteis para qualquer tentativa de tradução, já que a respeito do idioma escrito Ibérico pouco se sabe incluindo o ponto em que se separam as palavras. Apesar dos numerosos restos recuperados, o significado das línguas Ibéricas ainda é uma incógnita.

O Lusitano: foi uma língua indo-europeia ocidental atestada em quatro inscrições encontradas na bacia média do Tejo. Alguns investigadores defendem a sua "celticidade" apesar do facto de se conservar a identidade indo-europeia.
 
  

 O mapa linguístico acima, também é étnico (pelo menos na maioria dos casos), porque àquele tempo as "aculturações" eram muito mais raras e escassas, logo era mais difícil um povo perder a sua língua original pela de outro povo invasor (romano, por exemplo).
de qualquer modo, repare-se, por exemplo, no Sul da Lusitânia, que apesar de ter sido parcialmente "celtizado", não era de etnia indo-europeia (turdetana?)
as zonas marcadas a rosa e "ameixa" não são zonas indo-europeias, tal como o País Basco (amarelo claro) ou enclaves no extremo-sul da Espanha (cor-de-laranja, ocupação fenícia)
as zonas marcadas a verde (escuro e claro) são zonas indo-europeias.
as zonas onde haviam idiomas ou dialectos celtas são indicados no mapa pela letra "C"
a Lusitânia propriamente dita falava um idioma não-céltico, mas indo-europeu, apesar de se discutir muito sobre o alegado "celtismo" dos Lusitanos.
é discutível se a área Lusitana chegava à zona de Lisboa e da Estremadura, mas também não é essencial.
na antiga Galécia histórica falava-se o idioma celta Galaico, provavelmente relacionado com o ramo gaélico.
Mais a Sul da Lusitânia, no Alentejo Central e área do Guadiana (ambos os lados da fronteira entre os estados português e espanhol) falavam-se dialectos celtas, já na zona do Baixo Alentejo e Algarve (ocupação turdetana) apesar de não ser uma área indo-europeia, falava-se um dialecto celta ou celtizado, conforme vem devidamente explicado na própria legenda.