segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Iberos





Os Iberos eram um povo pré-histórico que vivia no Sul e no Este do território que mais tarde tomou o nome de Península Ibérica.

As ondas de emigração de povos Celtas que desde o século VIII até ao século VI AC entraram em massa no noroeste e zona centro da actual Espanha, penetraram também em Portugal e na Galiza, mas deixaram intactos os povos indígenas da Idade do Bronze Ibérica no Sul e Este da península.

Os geógrafos gregos deram o nome de Ibéria, provavelmente derivado do rio Ebro (Iberus), a todas as tribos instaladas na costa sueste, mas que no tempo do historiador grego Herodotus (500 AC), é aplicado a todos os povos entre os rios Ebro e Huelva, que estavam provavelmente ligados linguisticamente e cuja cultura era distinta dos povos do Norte e do Oeste.

Havia no entanto áreas intermédias entre os povos Celtas e Iberos, como as tribus Celtiberas do noroeste da Meseta Central, na Catalunha e Aragão. Das tribos Iberas mencionadas pelos autores clássicos, os Bastetanos eram territorialmente os mais importantes e ocupavam a região de Almeria e as zonas montanhosas da região de Granada.

As tribos a Oeste dos Bastetanos eram usualmente agrupadas como "Tartessos", derivado de Tartéssia que era o nome que os gregos davam à região. Os Turdetanos do vale do rio Guadalquivir eram os mais poderosos deste grupo. Culturalmente as tribos do noroeste e da costa valenciana eram fortemente influenciadas pelas colónias gregas de Emporium (a moderna Ampúrias) e na região de Alicante a influência era das colónias fenícias de Malaca (Málaga), Sexi (Almuñeca), e Abdera (Adra), que passaram depois para os cartagineses.


 Na costa Este, as tribos Iberas parecem ter estado agrupadas em cidades-estado independentes. No sul houve monarquias, e o tesouro de El Carambolo, perto de Sevilha, parece ter estado na origem da lenda de Tartessos. Em santuários religiosos encontraram-se estatuetas de bronze e terra-cota, especialmente nas regiões montanhosas. Há uma grande variedade de cerâmica de distintos estilos ibéricos Foi encontrada cerâmica ibérica no sul da França, Sardenha, Sicília, África e eram frequentes as importações gregas. A esplêndida Dama de Elche, um busto com características que mostram forte influência clássica grega.

A economia Ibérica tinha uma agricultura rica, forte exploração mineira e uma metalurgia desenvolvida. A língua Ibérica era uma língua não Indo-Europeia, e continuou a ser falada durante a ocupação romana. Ao longo da costa Este utilizou-se uma escrita Ibérica, um sistema de 28 sílabas e caracteres alfabéticos, alguns derivados dos sistemas fenício e grego, mas de origem desconhecida. Ainda sobrevivem muitas inscrições dessa escrita, mas poucas palavras são compreendidas, excepto alguns nomes de locais e cidades do século III A.C., encontradas em moedas.

Os Iberos conservaram a sua escrita durante a conquista romana, quando se começou a utilizar o alfabeto latino. Ainda que inicialmente se pensou que a língua Vasca era descendente do Ibero, hoje considera-se que eram línguas separadas.

Os Cónios


Os cónios (do latim, Conii), também denominados cinetes, foram os habitantes das actuais regiões do Algarve e Baixo Alentejo, no sul de Portugal, em data anterior ao séc. VIII a.C., até serem integrados na Província Romana da Lusitânia. Inicialmente foram aliados dos Romanos quando estes últimos pretendiam dominar a Península Ibérica.

Origem

A origem étnica dos cónios permanece uma incógnita. Para os defensores das teorias linguísticas actualmente aceites, a origem comum na Anatólia ou no Cáucaso das línguas europeias e indianas: ou seja, línguas indo-europeias, os cónios teriam origem celta, proto-celta, ou pré-céltica ibérica.
Essas teorias, relativamente recentes, foram aceites com facilidade, em grande parte por aqueles que rejeitavam qualquer ligação dos europeus a África.
Antes da teoria da origem caucasiana, muitos europeus julgavam-se descendentes de Jafé, conforme escrito na Bíblia, no livro de Génesis 10:5. Cronistas da antiguidade greco-romana enumeram mais de 40 tribos ibéricas, entre elas a tribo cónia, como sendo descendentes de Jafé, pai dos europeus.

 

História

Os cónios aparecem pela primeira vez na história pela mão do historiador grego Heródoto no séc. V a.c., e mais tarde referidos por Rufo Avieno, na sua obra Ode Maritima, como vizinhos dos cempsios ao sul do rio Tejo e dos sefes a norte.
Antes do sec. VIII a.C., a zona de influência cónia, segundo estudo de caracterização paleo-etnológico da região, abrangeria muito para além do sul de Portugal. Com efeito, o referido estudo baseando-se em textos da antiguidade grego-romana bem como na toponímia de Coimbra del Barranco, em Múrcia, Espanha, e de Conímbriga, propõe que os cónios ocuparam uma região desde o centro de Portugal até ao Algarve e todo o sul de Espanha até Múrcia. Em abono desta tese podemos acrescentar o Alto de Cónio, e o pico de Cónio no munícipio de Ronda, na região autónoma da Andaluzia.
Segundo Schulten, que considera os cónios uma das tribos Lígures e afirmou que «Os Lígures são o povo original da Península», os cónios também teriam marcado presença, não só em Portugal como em Espanha e na Europa, onde os lígures se fixaram. Confirmando esta teoria temos os seguintes topónimos:


- No norte de Espanha, encontramos no desfiladeiro, a passagem Puerto de Conio ou alto de Conio na região autónoma das Astúrias, onde terão habitado a tribo dos coniscos, descendentes dos construtores do dolmen de Pradías, de época neolítica, para muitos relacionada com os cónios. Nesta região terá existido uma cidade, a actualmente desconhecida Asseconia, incluída num dos Caminhos de Santiago. Também, estudos genéticos indicam que os bascos são o povo mais antigo da península e poderão estar relacionados com os cónios através da tribo dos vascones.


 - Em França, os lígures também terão sido "empurrados" para as regiões montanhosas. Mas, em vez da Ronda espanhola ocuparam a região do Ródano-Alpes. O testemunho da presença lígure poderá ser a tribo iconii, conhecidos pelas tribos vizinhas como os Oingt, originando a localidade de Oingt (Iconium em latim) e a região de Oisans. 

 - No norte de Itália, junto ao Ródano italiano a marca da presença lígure dos cónios, para além da Ligúria também nos aparece, um pouco mais a norte, não só nas comunas Coniolo e Cónio, como na província com o mesmo nome, na província de Cónio, da região de Piemonte.

Para outros investigadores que terão ido mais longe, os povos “Ibéricos” além de possuírem a Península Ibérica, França, Itália e as Ilhas Britânicas, penetram na península dos Balcãs. Ocuparam uma parte de África, Córsega e norte da Sardenha. Actualmente e à luz de recentes estudos genéticos, aceita-se que uma raça com características razoavelmente uniformes ocupou o sul de França (ou pelo menos a Aquitânia), toda a Península Ibérica e uma parte de África do Norte e da Córsega. Os topónimos a seguir enumerados também atestam estes dados:

 - Nas Ilhas Britânicas o assentamento fortificado romano Viroconium, atribuido à tribo cornovii, proveniente da Cornualha. Provavelmente, utilizados pelos romanos como tribo tampão contra os ataques escoceses e incursões irlandesas.

 - Muitos autores concordam que a língua cónia teria um substrato muito antigo relacionado com Osco, Latim e Ilírico.

 - No Chipre encontramos uma localidade com o topónimo Konia.

 - Nos Balcãs encontramos a tribo dos trácios cicones que poderão estar relacionados com os cónios e com os povos que invadiram a Anatólia, no sec. XII a.C. e posteriormente fundaram as cidades de Conni, na Frígia e de Iconium, na Anatólia.

Escrita

No Baixo Alentejo e Algarve foram descobertos vários vestígios arqueológicos que testemunham a existência de uma civilização detentora de escrita, adoptada antes da chegada dos fenícios, e que se teria desenvolvido entre o século VIII e o V a.C.. A escrita que está presente nas lápides sepulcrais desta civilização e nas moedas de Salatia (Alcácer do Sal) e é datável na Primeira idade do Ferro, surgiu no sul de Portugal, estendendo-se até à zona de fronteira.
As estelas mais antigas recuam até ao século VII a.C. e as mais recentes pertencem ao século IV. O período áureo desta civilização coincidiu com o florescimento do reino de Tartessos, algo a que não deverá ser alheio à intensa relação comercial e cultural existente entre os dois povos e que se julgava ser distinta da dos cónios. Daí a razão para que a denominação desta escrita comum não ser nem tartéssica nem cónia mas antes escrita do sudoeste, referindo a região dos achados epigráficos e não à cultura dos povos que as gravaram.
Não é consensual a designação da primeira escrita na península ibérica. Para muitos historiadores é a escrita do sudoeste (SO) ou sud-lusitana. Já os linguistas, utilizam as designações de escrita tartéssica ou turdetana. Outros concordam com a designação de escrita cónia, por não estar limitada geograficamente, mas relacionada com o povo e a cultura que criou essa escrita. E, segundo Leite de Vascocelos com os nomes konii e Konni , que aparecem inscritos em várias estelas.
A posição destes estudiosos deve-se à concordância das teorias-hipóteses históricas e modelos linguísticos actualmente aceites nos meios científicos. Estas posições baseiam-se em evidências linguísticas. Só que até à data não foram encontrados dados arqueológicos evidentes, daí que investigadores duvidem da existência dos cónios, outros negam a existência de celtas na península apesar das fontes antigas e das evidências arqueológicas.

Cidade Principal

A cidade principal do país dos cónios era Conistorgis, que em língua cónia, significaria "Cidade Real", de acordo com Estrabão, que considerava a região celta. Foi destruída pelos lusitanos, por estes terem-se aliado aos romanos durante a conquista romana da Península Ibérica. A localização exacta desta cidade ainda não foi descoberta. No entanto, em Beja, existem vestígios do que poderá ter sido uma grande cidade pré-romana. São muitos os autores que admitem a possibilidade de Beja ter sido fundada sobre as ruínas da famosa Conistorgis.

Religião

Aparentemente, antes da chegada dos romanos, os cónios eram monoteístas. O deus dos Cónios era Elohim, segundo uma estela que se encontra presentemente no Museu de Évora.
O Sudoeste na Idade do Ferro, desde o séc. VI a.C., apresenta um complexo de influências religiosas tartéssicas, gaditanas (bastante helenizadas) e célticas ou pré-célticas, correspondente a uma zona de grandes interacções culturais e movimentos de populações.

Fontes: Wikipédia.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Nábia




Normalmente considerada como uma Deidade fluvial, fruto da etimologia que faz derivar este teónimo da raiz indo-europeia, que traduz a ideia de algo que escorre, desliza, flui. O facto de o seu nome surgir em inscrições localizadas nos cimos dos montes, longe de rios, leva a que seja posta em dúvida o seu carácter aquático. Poderia, mesmo assim, estar relacionada com a ideia de humidade, em geral!


Ara de Marecos
A inscrição da ara de Marecos apresenta-a como uma Divindade que pode ser considerada de primeira função.

                                                   O .V . C. O . ETNIM DANIGOM
                                                   M . NABI AE . CORO NAE . VA
                                                   CCA BO VEM NABI AE .AGNV
                                                       IOVI AGNVM B OVE . LA
                                                   CT... VRGO AGNV LIDAE COR
                                               ANN ET D OM ACTVM V ID APR LA
                                              RGO ET ME SALLINO COS CVRATOR
                                             LVCRETIO VITVLLINO LVC RETIO SAB
                                                     INO POST VMO PEREGR INO

Traduz-se como:
"À Excelente Virgem Protectora e Ninfa dos Danigos NABIA CORONA uma vaca um boi
A NABIA um cordeiro
A IUPITER um cordeiro um vitelo
A ...URGUS um cordeiro
A ...DA uma cornuda
Procederam-se aos sacrifícios para ao ano e no santuário no quinto dia dos idos de Abril sob os cônsules Largus e Messalinus sendo ordenantes Lucretius Vitalinus, Lucretius Sabinus, Postumius Peregrinus"


Esta é uma das inscrições nas quais se pode observar o rito indo-europeu do suovetaurilia - Su, suíno, Ove, ovino, Taur, taurino: sacrifício triplo de um suíno, um ovino e um bovino a três Deidades representativas das três funções indo-europeias, que são, respectivamente e por ordem crescente na hierarquia:
- a Fertilidade;
- a Guerra;
- a Espiritualidade propriamente dita (Sabedoria, Magia e Justiça).

Ao que parece, NABIA CORONA representa neste sacrifício a primeira função indo-europeia, uma vez que os animais que se lhe oferecem são bovinos; os adjectivos que lhe são aplicados – como «Excelente», que é «Optimus», associado no ritual romano a JÚPITER – e o facto de aparecer à cabeça do texto contribuem para que se torne sólida a possibilidade de NABIA CORONA ser uma Deidade da Soberania.
O epíteto CORONA pode significar Coroada, o que se coaduna bem com uma Deidade Soberana, ou pode por outro lado relacionar-se com o teónimo CORONUS.
CORONUS, a quem é consagrado um voto registado numa epígrafe de Serzedelo, Guimarães, onde teria existido uma cidade de nome Pedrauca, pode ser ou um Deus do Trovão, segundo a etimologia que deriva este teónimo do Celta Bretão Curun, ou então um Deus Guerreiro inspirador das hordas de combatentes, isto com base na etimologia.


De qualquer modo, não pode deixar de causar alguma perplexidade o facto de parecerem existir aqui duas NABIAS, uma da primeira função, outra da segunda, já que uma delas, a que tem o epíteto de CORONA, recebe uma vaca e um boi, enquanto à outra, sem epíteto, é-lhe oferecido um ovino, vítima normalmente ofertada às Deidades da segunda função indo-europeia. Podemos, por isso, pôr a hipótese de NABIA ser como BAND, mais um tipo de Entidade do que uma Entidade particular propriamente dita. Assim, se explicaria a designação de Ninfa aplicada a esta potência, talvez como noutros casos se aplica o termo Deus a certos Numes paleo-hispânicos.
Entretanto, a propósito desta última hipótese apresentada, Nava parece ser o termo que os Eslavos pagãos aplicam ao mundo dos Deuses e das almas.

O urso poderia ser um dos símbolos de Nábia, representando a realeza.

Fontes: Wikipédia

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Cultura Hallstatt




Minas de sal
Uma das culturas primitivas mais importantes, geralmente reconhecida como pertencente aos Celtas, é a cultura de Hallstatt, que vai desde o Bronze tardio até ao início da Idade do Ferro. Este nome vem da necrópole de uma antiga comunidade mineira de sal nos Alpes Austríacos, que foi escavada entre 1846 e 1863.
 Hallstatt tornou-se rica através do comércio de sal e as sepulturas dos seus habitantes continham oferendas ricas, incluindo longas espadas de corte, que os arqueólogos imediatamente reconheceram de descrições sobre armas celtas em antigas fontes dos Gregos. Embora Hallstatt tenha uma sonoridade muito germânica é, na realidade, um nome de um local celta, querendo dizer "local de sal". A cultura de Hallstatt divide-se em quarto fases, Hallstatt A (1.200-1.000 a.C.), B (1.000-800 a.C.), ambas do fim da Idade do Bronze e C (800-600 a.C.) e D (600-450 a.C.), do princípio da Idade do Ferro. Esta cultura desenvolveu-se primeiro ao longo do Danúbio, na Áustria, assim como no Sul da Alemanha e na Boêmia, como parte do complexo de campos de urnas, mas só nas fases da Idade do Ferro é que desenvolveu um carácter realmente distinto. A cultura de Hallstatt da Idade do Ferro tornou-se muito influente, difundindo-se pela maior parte da Alemanha e Países Baixos, Suíça, França, Espanha, Portugal e Sudeste da Grã-Bretanha em 500 a.C.
Graças aos testemunhos dos escritos dos Gregos antigos, sabe-se que os povos do centro de Hallstatt eram Celtas, apesar de a cultura Hallstatt não ser idêntica, isto é, o aparecimento da cultura não marca o surgimento dos grupos de língua celta. A difusão da cultura foi, mais provavelmente, o resultado do comércio e contacto social entre grupos que já falavam línguas celtas e partilhavam valores similares, do que de migrações  para fora do centro de Hallstatt. Mesmo quando a cultura de Hallstatt estava no seu auge, havia grupos que falavam celta que não estavam sobre a sua influência; a Ibéria adoptou-a selectivamente, já a Irlanda não.


Pouco existe que possa distinguir a fase inicial da cultura Hallstatt, do resto do complexo de campos de urnas. A influência destes campos entrou em declínio no período B da cultura Hallstatt, quando apareceram estilos distintos de armas, incluindo uma espada mais longa e esguia. A mudança mais dramática seguiu-se à introdução do trabalho em ferro na Europa Central, no século VIII. A paisagem do centro de Hallstatt na Áustria, Sul da Alemanha e Boêmia, começou a ser cada vez mais dominada por fortes em Colinas. À volta destes fortes agrupavam-se sepulturas com mamoas ricamente adornadas, tendo os mais ricos muitas vezes equipamentos de cavalos e carros funerários de quarto rodas. A prática de colocar veículos nas sepulturas da elite, tornou-se uma velha característica celta, apesar das quadrigas de duas rodas substituírem, mais tarde, esses carros. Estes progressos são a evidência do aparecimento de uma sociedade marcadamente hierárquica e centralizada, de poderosos e ricos chefes de clã. A mudança dos enterros de cremação e dos tempos dos  campos de urnas funerárias para a inumação, aponta para maiores mudanças nos sistemas de crenças que acompanham as mudanças sociais.
A causa desta transformação da sociedade de Hallstatt não é clara. Uma possibilidade é a disponibilidade de armas mais eficazes, que permitiam à elite guerreira a obtenção de um poder mais forte. A evidente importância do cavalo na cultura C de Hallstatt é o surgimento da espada longa de corte que servia à cavalaria de combate, levou a sugerir que as mudanças podiam estar relacionadas com a chegada dos cavaleiros nómadas indo-iranianos, chamados cimérios, que dominaram o Oeste das estepes da Eurásia nesta altura. Os imigrantes cimérios podem ter sido assimilados com a elite guerreira e introduzido os novos costumes funerários, sendo a inumação o meio normal entre os nómadas indo-iranianos para acomodar os mortos.

 
Cultura de Hallstatt (Ramsauer)

Por outro lado, a elite indígena pode simplesmente ter adoptado estes costumes estranhos e exóticos dos cimérios como meio de ostentar e reforçar o seu estatuto. Outro factor possível no nascimento da cultura C de Hallstatt foi, provavelmente, o resultado de uma crescente população. Em todas as sociedades pré-industriais a produção agrícola era de longe a mais importante fonte de riqueza. O nível de produção agrícola estava directamente ligado ao esforço humano e animal, que era aplicado na terra, portanto, quanto maior fosse a população, maior a força de trabalho, maior a produção e o excedente para a elite tirar para si, dos camponeses trabalhadores.
(Esta foi a razão por que todas as civilizações nasceram em planícies férteis, como a Mesopotâmia, que podia facilmente suportar populações muito densas, mesmo usando técnicas agrícolas simples.)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Lancóbriga





Escavado no início dos anos setenta, o "Castro de Fiães" ergue-se no topo do Monte de Santa Maria de Fiães, nas proximidades da localidade com o mesmo nome. Presume-se ter existido naquele local uma cidade celta denominada “Langobriga” (ou Lancóbriga) que é apontada como a possível capital dos Turduli Veteres.
As escavações conduzidas no local, em 1971, incidiram essencialmente na área situada a nascente da capela de Nossa Senhora da Conceição, aí erguida posteriormente, num reflexo de práticas seculares de reutilização simbólica dos mesmos espaços por diferentes comunidades ao longo dos tempos, numa espécie de assimilação e sobreposição sucessiva de valores materiais e espirituais. 

Os trabalhos então desenvolvidos permitiram colocar a descoberto uma zona bastante revolvida, assim como exumar espólio cronologicamente balizado entre os séculos IV e V d. C., correspondendo, por conseguinte, a uma das fases de maior actividade registada até ao momento no sítio, ainda que parte significativa da área de ocupação primitiva continue ocultada pelo adro da referida capela (vide supra).
Com efeito, e apesar de alguns indícios (como fragmentos de cerâmica cinzenta com decoração brunida) apontarem para a construção inicial desta estação arqueológica em plena Idade do Ferro, por volta do séc. II a.C., nesta região do actual território português, a maioria dos artefactos encontrados confirmará a prevalência do período correlativo à ocupação romana, numa confirmação da sua relevância em termos estratégicos. É disso exemplo, para além dos vestígios de algumas estruturas, de aspecto tardio, a existência de fragmentos de cerâmica romana, nomeadamente de luxo, como a terra sigillata, de um dolium (recipiente cerâmico de grandes dimensões destinado a conservar e transportar alimentos) e de vestígios de materiais de construção, como no caso das tegulae, ou seja, de fragmentos de telha rectangular.
As sondagens realizadas já em 1980 permitiram localizar um troço da muralha erguida na primeira fase de ocupação do sítio, correspondente, precisamente, à Idade do Ferro (vide supra). Infelizmente, o castro apresenta-se actualmente destruído na sua quase totalidade em consequência da actividade exercida numa pedreira situada nas imediações, bem como pela edificação de uma moradia justamente no centro do monte em que se ergue o povoado. 

O “itinerário de Antonino” refere que na estrada romana que ligava Olissipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga) encontrava-se Langobriga a 18 milhas de Talábriga e a 13 milhas de Cale, distâncias que correspondem à localização de Fiães, onde ainda hoje se pode vislumbrar restos do pavimento dessa via no lugar de Ferradal.
Este interessante povoado parece corresponder ao Oppidum dos Turduli Veteres, um povo antigo de celtiberos, e um dos grupos que pertencia aos Lusitanos e situavam-se na margem sul do rio Douro.

A sua capital foi Langobriga actual monte Redondo em Fiães, Santa Maria da Feira. Outras cidades atribuídas aos Turduli Veteres foram Talábriga e possivelmente Oppidum Vacca (Cabeço do Vouga).
A ara descoberta no local e dedicada a “Iuppiter” tenha sido, possivelmente, consagrada oficialmente pelo Oppidium (povoação):

IOVI O(ptimo) M (aximo) P (osuit) L (aetus) L (ibens) ou P (osuit) L (angobriga) L (ibens)

No local foram recolhidas mais de 800 moedas, predominantemente do Baixo Império e dois tesouros monetários do séc. IV d.C.
A necrópole do Oppidium foi destruída no séc. XVIII e ficava situada onde hoje se ergue um complexo escolar.

Fontes:

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Santuário de Panóias




O Santuário de Panóias, também conhecido por Fragas de Panóias, localiza-se em Vale de Nogueiras, no concelho de Vila Real.
A sua configuração e inscrições são da época romana, porém são claros os vestígios de crenças mais ancestrais. Alguns historiadores interpretam o local como sagrado para os galaicos – povo celta que habitava este território antes da chegada dos romanos. 

Existe um altar rupestre com escadas muito semelhante aos que existem em Ulaca e na “Sila de Filipe II”.
O santuário é um recinto onde se encontram três grandes fragas, nestas foram abertas várias cavidades de diferentes tamanhos, nas quais foram também construídas escadas de acesso. Na rocha situada na entrada do recinto foram gravadas várias inscrições - três em latim e uma em grego, descrevendo o ritual celebrado, os deuses a quem era dedicado e quem dedicava, sendo que uma delas foi destruída no século passado, mas foi reconstituída a partir de leituras e registos anteriores.




A inscrição desaparecida, em latim, está 6/7 metros a Este da segunda inscrição, do lado direito do caminho por onde se entrava para a área sagrada. O texto está orientado para a rocha situada na entrada do recinto e diz o seguinte:

DIIS (loci) HVIVS HOSTIAE QVAE CA / DVNT HIC INMOLATVR / EXTRA INTRA QVADRATA / CONTRA CREMANTVR / SANGVIS LACICVLIS IVXTA / SVPERE FVNDITVR
“Aos Deuses e Deusas deste recinto sagrado. As vítimas sacrificam-se, matam-se neste lugar. As vísceras queimam-se nas cavidades quadradas em frente. O sangue verte-se aqui ao lado para as pequenas cavidades. Estabeleceu Gaius C. Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial.”


Para a rocha da entrada, sobe-se por uns degraus, sendo que antes de subir, à esquerda, fica a segunda inscrição:

DIIS CVM AEDE / ET LACV M. QVI / VOTO MISCETVR / G(neus) C(aius) CALP(urnius) RUFI / NVS V(ir) C(larissimus) 
 "Aos deuses, com o aedes e o tanque, a passagem subterrânea, que se junta por voto."
“G. C. Calpurnius Rufinus consagrou dentro do templo (templo entendido como recinto sagrado), uma aedes, um santuário, dedicado aos Deuses Severos.”


Restam vestígios de um dos pequenos templos existentes no recinto. Subindo as escadas e passando para o outro lado da rocha, encontra-se a terceira inscrição:

DIIS DEABVSQVE AE / TERNVM LACVM OMNI / BVSQVE NVMINIBVS / ET LAPITEARVM CVM HOC TEMPLO SACRAVIT / G(neus) C(aius) CALP(urnius) RVFINVS V(ir) C(larissimus) / IN QVO HOSTIAE VOTO CREMANTVR

"A todos os deuses e deusas, a todas as divindades, nomeadamente às dos Lapiteas, dedicou este tanque eterno, com este templo, Gaius c. Calpurnius Rufinus, varão esclarecido, no qual se queimam vítimas por voto."
“Aos Deuses e Deusas e também a todas as divindades dos Lapitaes, Gaius C. Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial, consagrou com este recinto sagrado para sempre uma cavidade, na qual se queimam as vítimas segundo o rito.”

Esta inscrição revela que o recinto é dedicado não só aos Deuses Severos, mas também aos deuses dos Lapitae, deuses da comunidade indígena que existia na região.
Adiante temos a quarta inscrição (em grego):

Y'l'ICTw CEPA PIDI CYN KANqA Pw KAY MYCTOPIOIC C. C. CALP.RVFINVS V|C.

"O esclarecido varão Caio Calpúrnio Rufino, filho de Caio, consagrou, junto com um lago e os mistérios, (um templo) ao mais alto deus Serápis."
“Ao altíssimo Serápis, com o Destino e os Mistérios, G. C. Calpurnius Rufinus, claríssimo.”

O senador consagrou o recinto sagrado à divindade principal dos deuses do Inferno, o Altíssimo Serápis, incluindo uma gastra e mistérios. Gastra, cavidade redonda, encontra-se imediatamente atrás da inscrição. A sua função no ritual era a de assar a carne da vítima, que era consumida no local, em frente ao nome da divindade.
A quinta inscrição indica o acto final:

DIIS SE(veris) MAN(ibus) DIIS IRA(tis) / DIIS DEABVSQVE (loca) / TIS (hic sacravit lacum et)
/ AEDEM (Gneus Caius Ca) LP (urnius Ru) FINVS (Clarissimus Vir)

"Aos deuses infernais irados que aqui moram, (dedicou) Gaius c. Calpurnius Rufinus, varão esclarecido."
“Aos deuses, G. C. Calpurnius Rufinus, claríssimo, com este (templo) oferece também uma cavidade para se proceder à mistura.”

(As primeiras traduções são de António Rodriguez Colmenero e as segundas de Geza Alföldy)






Com base nos estudos de Geza Alföldy, sobre Panóias, podemos hoje dizer que tivemos no local um ritual de iniciação com uma ordem e um itinerário muito precisos – a matança das vítimas, sempre animais e nunca humanas, o sacrifício do sangue, a incineração das vítimas, o consumo da carne, a revelação do nome da autoridade máxima dos infernos e, por fim, a purificação.
Na segunda rocha do recinto, a iniciação repetia-se num grau mais elevado e na terceira rocha, a mais elevada, havia um pequeno templo onde acontecia o acto principal da iniciação – a morte ritual, o enterro e a ressurreição.
Hoje em qualquer uma das três rochas temos vestígios dos pequenos templos que eram parte integrante do recinto. Restam também as diferentes cavidades rectangulares que serviam para queimar as vísceras, uma gastra (cavidade redonda) para assar a carne e ainda uma outra cavidade onde se procedia à limpeza do sangue, gordura e azeite.
 Outras cavidades estavam relacionadas com os pequenos templos existentes e destinar-se-iam a guardar os instrumentos sagrados usados nos rituais.
Existem portanto em Panóias testemunhos de um rito de iniciação dos mistérios das divindades infernais. As prescrições identificam-se como partes de uma lei sagrada, mas aplicadas a um local concreto e preciso. A escolha deste local não foi por isso feita ao acaso, mas sim fruto de critérios específicos e previamente estabelecidos. A topografia do local desempenhou aqui um importante papel.

                                                                  

O ritual

A primeira pedra contém as escadas e ao seu lado o lacus e o laciculus. É visível o rebaixamento feito na rocha granítica, onde se encontravam os lavacra purificatórios, nos quais os mystae se borrifavam antes de oferecerem as vítimas, ou os depósitos, onde os sacerdotes guardavam os instrumentos sacrificiais.

Na segunda pedra existe um orifício que serviria para um poste de ferro ou de bronze, apoiado em duas escoras, onde se prendiam os animais a sacrificar que vinham engrinaldados. Os sacerdotes, com vestes brancas e coroas feitas de vergônteas de louro/carvalho/azevinho/hera/parra, conforme o deus a que se destinava o sacrifício, traziam nas mãos a patera, uma espécie de pratos redondos de metal. Depois, vinham os victimarii, munidos da securis, machadinha utilizada no esquartejamento das vítimas.
Quando tudo estava preparado, um arauto impunha silêncio e os profanos abandonavam o local sagrado. Os sacerdotes borrifavam a vítima com a mola. Os presentes bebiam um pouco de vinho, com que também faziam a libatio derramando um pouco na cabeça do animal. Acendia-se a fogueira no respectivo lacus e queimava-se incenso. Aí, os Popae, nus da cintura para cima, conduziam a vítima ao altar, onde era ferida de morte com um machado pelos Cultrarii, que lhe cortavam a garganta. O sangue era recolhido na patera e derramado nos laciculus. A vítima era colocada na mesa anclabris, esfolada e esquartejada. De acordo com uma epígrafe há décadas destruída, queimavam-se as vísceras da vítima em honra dos deuses e a outra carne era grelhada e comida pelos presentes em confraternização com as divindades.
Nesta pedra é visível também um conjunto de lavacra (os referidos tanques purificatórios), bem como os alicerces de um segundo templo, cujos silhares se encontram nas actuais paredes das casas da aldeia vizinha, principalmente no chão da igreja.
Um pouco mais a norte, existe um lacus, com ranhuras que sustinham as barras de ferro que suportavam a grelha onde assada a carne das vítimas, e o laciculus, onde se derramava o sangue.
Cerca de vinte metros, do lado oriental, conservam-se ainda, numa pequena rocha, os restos de um altar pré-romano constituído por diversas covinhas ligadas entre si por sulcos, onde os Lapiteas teriam prestado culto aos seus deuses, como a Reva Marandiguius, divindade que morava nas alturas do Marão, e, hipoteticamente, às serpentes e aos javalis. Segue-se, em direcção a norte, por uma escada escavada na rocha, e depara-se com outro altar dos Lapiteas, constituído por covinha e sulco.

Mais ao norte ainda, encontra-se a terceira pedra, com as suas escadas e corrimão milenários. No alto, em larga plataforma, abriram-se a pico "sepulturas" rectangulares e os alicerces de um terceiro templo, que também desapareceu. Aqui realizava-se a incubafio, onde os mysfae "morriam" simbolicamente, dormindo toda a noite, sonhavam com as divindades, que lhes transmitiam os seus oráculos, e "ressuscitavam" para uma vida "nova".

Fontes: 
http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70273/
http://www.celtiberia.net/articulo.asp?id=840
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v5n1/folder/147-159.pdf 
http://www.arqueotur.org/yacimientos/santuario-de-panoias.html