segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Santuário de Panóias




O Santuário de Panóias, também conhecido por Fragas de Panóias, localiza-se em Vale de Nogueiras, no concelho de Vila Real.
A sua configuração e inscrições são da época romana, porém são claros os vestígios de crenças mais ancestrais. Alguns historiadores interpretam o local como sagrado para os galaicos – povo celta que habitava este território antes da chegada dos romanos. 

Existe um altar rupestre com escadas muito semelhante aos que existem em Ulaca e na “Sila de Filipe II”.
O santuário é um recinto onde se encontram três grandes fragas, nestas foram abertas várias cavidades de diferentes tamanhos, nas quais foram também construídas escadas de acesso. Na rocha situada na entrada do recinto foram gravadas várias inscrições - três em latim e uma em grego, descrevendo o ritual celebrado, os deuses a quem era dedicado e quem dedicava, sendo que uma delas foi destruída no século passado, mas foi reconstituída a partir de leituras e registos anteriores.




A inscrição desaparecida, em latim, está 6/7 metros a Este da segunda inscrição, do lado direito do caminho por onde se entrava para a área sagrada. O texto está orientado para a rocha situada na entrada do recinto e diz o seguinte:

DIIS (loci) HVIVS HOSTIAE QVAE CA / DVNT HIC INMOLATVR / EXTRA INTRA QVADRATA / CONTRA CREMANTVR / SANGVIS LACICVLIS IVXTA / SVPERE FVNDITVR
“Aos Deuses e Deusas deste recinto sagrado. As vítimas sacrificam-se, matam-se neste lugar. As vísceras queimam-se nas cavidades quadradas em frente. O sangue verte-se aqui ao lado para as pequenas cavidades. Estabeleceu Gaius C. Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial.”


Para a rocha da entrada, sobe-se por uns degraus, sendo que antes de subir, à esquerda, fica a segunda inscrição:

DIIS CVM AEDE / ET LACV M. QVI / VOTO MISCETVR / G(neus) C(aius) CALP(urnius) RUFI / NVS V(ir) C(larissimus) 
 "Aos deuses, com o aedes e o tanque, a passagem subterrânea, que se junta por voto."
“G. C. Calpurnius Rufinus consagrou dentro do templo (templo entendido como recinto sagrado), uma aedes, um santuário, dedicado aos Deuses Severos.”


Restam vestígios de um dos pequenos templos existentes no recinto. Subindo as escadas e passando para o outro lado da rocha, encontra-se a terceira inscrição:

DIIS DEABVSQVE AE / TERNVM LACVM OMNI / BVSQVE NVMINIBVS / ET LAPITEARVM CVM HOC TEMPLO SACRAVIT / G(neus) C(aius) CALP(urnius) RVFINVS V(ir) C(larissimus) / IN QVO HOSTIAE VOTO CREMANTVR

"A todos os deuses e deusas, a todas as divindades, nomeadamente às dos Lapiteas, dedicou este tanque eterno, com este templo, Gaius c. Calpurnius Rufinus, varão esclarecido, no qual se queimam vítimas por voto."
“Aos Deuses e Deusas e também a todas as divindades dos Lapitaes, Gaius C. Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial, consagrou com este recinto sagrado para sempre uma cavidade, na qual se queimam as vítimas segundo o rito.”

Esta inscrição revela que o recinto é dedicado não só aos Deuses Severos, mas também aos deuses dos Lapitae, deuses da comunidade indígena que existia na região.
Adiante temos a quarta inscrição (em grego):

Y'l'ICTw CEPA PIDI CYN KANqA Pw KAY MYCTOPIOIC C. C. CALP.RVFINVS V|C.

"O esclarecido varão Caio Calpúrnio Rufino, filho de Caio, consagrou, junto com um lago e os mistérios, (um templo) ao mais alto deus Serápis."
“Ao altíssimo Serápis, com o Destino e os Mistérios, G. C. Calpurnius Rufinus, claríssimo.”

O senador consagrou o recinto sagrado à divindade principal dos deuses do Inferno, o Altíssimo Serápis, incluindo uma gastra e mistérios. Gastra, cavidade redonda, encontra-se imediatamente atrás da inscrição. A sua função no ritual era a de assar a carne da vítima, que era consumida no local, em frente ao nome da divindade.
A quinta inscrição indica o acto final:

DIIS SE(veris) MAN(ibus) DIIS IRA(tis) / DIIS DEABVSQVE (loca) / TIS (hic sacravit lacum et)
/ AEDEM (Gneus Caius Ca) LP (urnius Ru) FINVS (Clarissimus Vir)

"Aos deuses infernais irados que aqui moram, (dedicou) Gaius c. Calpurnius Rufinus, varão esclarecido."
“Aos deuses, G. C. Calpurnius Rufinus, claríssimo, com este (templo) oferece também uma cavidade para se proceder à mistura.”

(As primeiras traduções são de António Rodriguez Colmenero e as segundas de Geza Alföldy)






Com base nos estudos de Geza Alföldy, sobre Panóias, podemos hoje dizer que tivemos no local um ritual de iniciação com uma ordem e um itinerário muito precisos – a matança das vítimas, sempre animais e nunca humanas, o sacrifício do sangue, a incineração das vítimas, o consumo da carne, a revelação do nome da autoridade máxima dos infernos e, por fim, a purificação.
Na segunda rocha do recinto, a iniciação repetia-se num grau mais elevado e na terceira rocha, a mais elevada, havia um pequeno templo onde acontecia o acto principal da iniciação – a morte ritual, o enterro e a ressurreição.
Hoje em qualquer uma das três rochas temos vestígios dos pequenos templos que eram parte integrante do recinto. Restam também as diferentes cavidades rectangulares que serviam para queimar as vísceras, uma gastra (cavidade redonda) para assar a carne e ainda uma outra cavidade onde se procedia à limpeza do sangue, gordura e azeite.
 Outras cavidades estavam relacionadas com os pequenos templos existentes e destinar-se-iam a guardar os instrumentos sagrados usados nos rituais.
Existem portanto em Panóias testemunhos de um rito de iniciação dos mistérios das divindades infernais. As prescrições identificam-se como partes de uma lei sagrada, mas aplicadas a um local concreto e preciso. A escolha deste local não foi por isso feita ao acaso, mas sim fruto de critérios específicos e previamente estabelecidos. A topografia do local desempenhou aqui um importante papel.

                                                                  

O ritual

A primeira pedra contém as escadas e ao seu lado o lacus e o laciculus. É visível o rebaixamento feito na rocha granítica, onde se encontravam os lavacra purificatórios, nos quais os mystae se borrifavam antes de oferecerem as vítimas, ou os depósitos, onde os sacerdotes guardavam os instrumentos sacrificiais.

Na segunda pedra existe um orifício que serviria para um poste de ferro ou de bronze, apoiado em duas escoras, onde se prendiam os animais a sacrificar que vinham engrinaldados. Os sacerdotes, com vestes brancas e coroas feitas de vergônteas de louro/carvalho/azevinho/hera/parra, conforme o deus a que se destinava o sacrifício, traziam nas mãos a patera, uma espécie de pratos redondos de metal. Depois, vinham os victimarii, munidos da securis, machadinha utilizada no esquartejamento das vítimas.
Quando tudo estava preparado, um arauto impunha silêncio e os profanos abandonavam o local sagrado. Os sacerdotes borrifavam a vítima com a mola. Os presentes bebiam um pouco de vinho, com que também faziam a libatio derramando um pouco na cabeça do animal. Acendia-se a fogueira no respectivo lacus e queimava-se incenso. Aí, os Popae, nus da cintura para cima, conduziam a vítima ao altar, onde era ferida de morte com um machado pelos Cultrarii, que lhe cortavam a garganta. O sangue era recolhido na patera e derramado nos laciculus. A vítima era colocada na mesa anclabris, esfolada e esquartejada. De acordo com uma epígrafe há décadas destruída, queimavam-se as vísceras da vítima em honra dos deuses e a outra carne era grelhada e comida pelos presentes em confraternização com as divindades.
Nesta pedra é visível também um conjunto de lavacra (os referidos tanques purificatórios), bem como os alicerces de um segundo templo, cujos silhares se encontram nas actuais paredes das casas da aldeia vizinha, principalmente no chão da igreja.
Um pouco mais a norte, existe um lacus, com ranhuras que sustinham as barras de ferro que suportavam a grelha onde assada a carne das vítimas, e o laciculus, onde se derramava o sangue.
Cerca de vinte metros, do lado oriental, conservam-se ainda, numa pequena rocha, os restos de um altar pré-romano constituído por diversas covinhas ligadas entre si por sulcos, onde os Lapiteas teriam prestado culto aos seus deuses, como a Reva Marandiguius, divindade que morava nas alturas do Marão, e, hipoteticamente, às serpentes e aos javalis. Segue-se, em direcção a norte, por uma escada escavada na rocha, e depara-se com outro altar dos Lapiteas, constituído por covinha e sulco.

Mais ao norte ainda, encontra-se a terceira pedra, com as suas escadas e corrimão milenários. No alto, em larga plataforma, abriram-se a pico "sepulturas" rectangulares e os alicerces de um terceiro templo, que também desapareceu. Aqui realizava-se a incubafio, onde os mysfae "morriam" simbolicamente, dormindo toda a noite, sonhavam com as divindades, que lhes transmitiam os seus oráculos, e "ressuscitavam" para uma vida "nova".

Fontes: 
http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70273/
http://www.celtiberia.net/articulo.asp?id=840
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v5n1/folder/147-159.pdf 
http://www.arqueotur.org/yacimientos/santuario-de-panoias.html

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O fim do Paganismo na Hispânia




O ano de 399 D.C. é considerado como o ano do fim do paganismo na Ibéria. Nesse ano foi dirigida a Macróbio a lei "vicario hispaniarum", que começa da seguinte forma: “Sicut sacrificia prohibemus, ita volumus publicorum operum ornamenta servari...”.
Apesar de todos os esforços das autoridades cristãs para reprimir quaisquer manifestações pagãs, os cultos politeístas, na nossa península, mantiveram-se muito tempo depois da queda de Roma e das invasões Germânicas, durante o séc.V.
Nas grandes áreas rurais da Ibéria, principalmente na zona norte da nossa península, continuaram a fazer culto aos deuses ancestrais, por vezes misturados com o politeísmo romano e outras com o paganismo dos suevos, vândalos, etc. Daí o termo "pagão", forma depreciativa para se referirem aos camponeses que permaneciam fieis aos deuses ancestrais, rejeitando a imposição cristã. Este cenário manteve-se durante a monarquia visigótica, apesar das grandes cidades estarem completamente cristianizadas. Mesmo estes, voltavam a praticar os rituais ao menor deslize do controlo da Igreja.
Martin de Braga lamenta no seu "De correctione rusticorum" que apesar de cristianizados, "fazem mais culto de adoração a demónios que a Deus".
"Demónios" era o termo pejorativo usado pelos cristãos quando se referiam aos deuses ancestrais.

Prisciliano, bispo de Ávila, também condenou o politeísmo:
“Sea anatema quienquiera que llame dioses al Sol, a la Luna, Júpiter, Marte, Mercurio, Venus o Saturno...”“...en el mar invocan a Neptuno, en los ríos a las Lamias, en las fuentes a las Ninfas, en los bosques a las Dianas, QUE SON TODOS DEMONIOS Y ESPÍRITUS MALIGNOS...”

No início do século IV D.C. quando o cristianismo contava com o apoio do estado romano, o cânon XLI do concílio de Iliberris (Granada), obrigava os grandes proprietários cristãos a destruir os "ídolos" (representações dos deuses) e a proibirem o culto aos mesmos pelos seus servos.
No cânon LXXII do segundo concílio de Braga, celebrado no ano 572, proibiu-se a manutenção das tradições dos "gentios" ou a sua celebração. Proibiu-se também o culto aos elementos, ao curso da lua ou estrelas, a sementeira ou plantação de árvores. No cânon LXXIII, proibiu-se a celebração das Calendas (primeiro dia do mês, principalmente do mês de Janeiro), assim como os enfeites das casas com louro, coroas de flores, etc...
O cânon LXXIV proibiu a apanha de ervas medicinais.

O templo dedicado ao Sol e à Lua situado no Alto da Vigia, Praia das Maçãs (Sintra)

No ano 675, na celebração do concelho de Reis de Toledo, os bispos reunidos renovaram a repressão aos pagãos ou politeístas nestes termos:

Cânon XI
“No para castigo de los delincuentes, sino para TERROR no imponemos por este nuestro decreto la pena de muerte, sino que avisamos a los adoradores de los ídolos, a los que veneran las piedras, a los que encienden antorchas, y adoran las fuentes y los árboles, que reconozcan como SE CONDENAN ESPONTÁNEAMENTE A MUERTE A AQUELLOS QUE HACEN SACRIFICIOS AL DIABLO(...)y CASTIGUEN CON AZOTES a todos aquellos que concurren a un horror de esta naturaleza, y CARGÁDOLOS CON CADENAS, los entreguen a sus señores, siempre que sus dueños prometan, mediante juramento, que ellos les vigilarán tan cuidadosamente que no les sea posible en adelante cometer tal crimen(...) y si fueran personas libres las que estuvieran complicadas en estos errores, serán castigados a la pena de excomunión perpetua y ENVIADOS A UN SEVERO DESTIERRO”.

“No te harás obra de escultura, ni figura alguna de lo que hay arriba en el cielo, ni de lo de abajo en la tierra; NO LOS ADORARÁS NI LES DARÁS CULTO. Además , EL QUE SACRIFICA A LOS DIOSES EXCEPTO SÓLO AL SEÑOR, SERÁ MUERTO.”


Exemplos como estes foram muito frequentes durante aqueles séculos sombrios onde os nossos antepassados não tinham escolha a não ser converter-se ao cristianismo ou à morte. No entanto, a força ancestral do politeísmo sobreviveu e conseguiu manifestar-se de várias formas ao longo dos séculos, apesar da repressão brutal judaico-cristã e dos ditames do monoteísmo bíblico.

Fontes: http://www.celtiberia.net/

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O Funeral na Ibéria




O que melhor conhecemos dos Lusitanos são os relatos de combates. Os guerreiros que agitavam as longas cabeleiras para atemorizar os inimigos e avançavam para a luta em saltos rítmicos, entoando cânticos bélicos. Eram-lhes reconhecidos tanto o valor como a inocência. Incapazes, em geral, de ultrapassar as divisões tribais para se apresentarem como uma nação em armas, deixavam-se seduzir facilmente pelas boas palavras do inimigo. “A política de luvas brancas de Aníbal, ou a dos romanos Cipião, Tibério Graco ou Sertório, valeu-lhes mais do que as vitórias militares que tinham obtido”.
As representações que chegaram até hoje ilustram a paixão dos povos ibéricos pela caça e pela guerra. Testemunham também a alegria de viver, com cenas em que se aliam frequentemente a música e a dança. São igualmente bem conhecidos os rituais que envolviam a morte.
Entre os Lusitanos, a cremação efectuava-se em piras. As cinzas eram encerradas numa urna que se colocava na sepultura.
No decorrer do século II A.C., tanto as armas que acompanhavam o cadáver como as ofertas eram queimadas. O que restava era depositado dentro das urnas, ou à sua volta. As falcatas (armas encimadas por uma espécie de foice, capazes de mutilar um inimigo, ou de o degolar) mostram-se dobradas nas escavações arqueológicas. As lanças aparecem torcidas e os elmos amolgados. As armas eram inutilizadas, para não voltarem a ser usadas pelos violadores de sepulturas.


O respeito pelos restos mortais inumados devia ser quebrado com frequência, já que se repetem inscrições em caracteres ibéricos que deverão corresponder a fórmulas mágicas destinadas a preservar o defunto de todos os males e a amaldiçoar os violadores de tumbas.
De um modo geral, as cerimónias funerárias eram simples. Revestiam-se de outra grandeza quando estavam em causa homens ilustres. Existe, pelo menos, um relato das honras fúnebres prestadas a Viriato.

“Quando da morte do caudilho Viriato o corpo deste chefe, adornado com as suas melhores vestes e armas, foi queimado numa alta pira; logo que o fogo se ateou, os guerreiros iniciaram uma dança frenética em redor da fogueira, enquanto esquadrões de cavaleiros evolucionavam em marchas fúnebres. Entretanto, os bardos cantavam as glórias do herói; depois, quando o fogo se consumiu, as honras continuaram com lutas sobre a sepultura, que envolveram duzentos pares”. 



Fontes:
António Arribas. Os Iberos. Editorial Verbo, Cacém, 1971.
Gravuras: idem.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Sertório


General romano que nasceu em Núrsi, na Sabina, por volta do ano de 122 A.C. e morreu assassinado no ano de 72 A.C.
Sertório seguiu primeiro a carreira do Foro, na qual se distinguiu, tendo depois servido na guerra contra os Cimbros às ordens de Cipião e em seguida, sob o comando de Mário, foi enviado já como Tribuno Militar para a Península Ibérica. Nomeado Questor, depois de ter regressado a Roma, foi enviado para a Gália, onde combateu e venceu os inimigos de Roma, tendo aí sido gravemente ferido, perdendo um dos olhos.

Durante a guerra social, ao impedir a rebelião da Cisalpina, chamou sobre si os ódios de Sila, pela sua dedicação ao partido de Mário, regressando a Roma com ele.
Quando Sila recuperou o poder, despachou de imediato Sertório para a Península Ibérica, tendo ele aqui continuado a luta contra a aristocracia onde arranjou muitos inimigos, principalmente Aunio, lugar-tenente de Sila.
Quando os Lusitanos se sublevaram de novo, após o assassinato de Viriato, Sertório foi convidado para comandar a insurreição o que aceitou, pois viu aí um meio para combater a aristocracia romana. Assim, sob o comando de Sertório os Lusitanos obtiveram imensas vitórias, sobre os generais romanos, não tardando a dominar não só a Lusitânia como a Bética.
A sua fama atraiu muitos dos seus compatriotas que se tinham revoltado contra o poder de Roma. O primeiro general que ele venceu foi Metelo, que ao tentar tomar Lacóbriga foi completamente derrotado por Sertório, que acudiu em socorro da praça. Seguiram-se muitas vitórias e algumas derrotas, que tinham efeito contrário em Sertório, uma vez que não se deixava abater por elas, dando a entender que na desgraça ía buscar novas forças para o combate.

Curiosamente, Sertório acabou por prestar um grande serviço a Roma, introduzindo a civilização, as artes, a política e os costumes destes, tendo acabado por romanizar quase toda a Ibéria, dividiu os seus domínios em duas províncias: a Bética que tinha por capital Osca e a Lusitânia, cuja capital era Évora, residência favorita do chefe Lusitano.
A Sertório se deve o ter tirado - segundo Pinheiro Chagas - (...) o modo selvagem e brutal que os Lusitanos usavam no combate, fazendo-lhes adoptar as armas, a formatura e a disciplina romana; transformando uma verdadeira multidão de salteadores num verdadeiro exército. Além disso distribuía com mãos largas a prata e ouro para ornar os capacetes ou embelezar os escudos, e incitava os seus subordinados a usarem túnicas e mantos bordados (...).

Por ironia do destino este general romano e grande chefe dos Lusitanos morreu de um modo idêntico ao do seu antecessor Viriato. Depois de uma prolongada guerra com Metelo e Pompeu, que tinham sido enviados pelo Senado no ano de 76 A.C., acabou por ser assassinado no ano de 72 A.C., num banquete em sua honra, por um dos seus homens de confiança, Perpena, que contra ele urdira uma conspiração.

O nome de Sertório está ligado à lenda da fundação da Sertã.
Plutarco dedicou-lhe uma biografia das suas Vidas Paralelas, em que o comparou a Filipe II da Macedónia, Antígono Monoftalmo e Aníbal, que, como ele, também tinham perdido um olho. A sua vida é escrita em paralelo à de Euménio de Cárdia, um general de Alexandre Magno: "Ambos nasceram para liderar e eram dotados de grande talento para a guerra e de habilidade para frustrarem os seus inimigos; ambos estavam exilados dos seus países, comandavam soldados estrangeiros e, nas suas mortes, sofreram uma Fortuna que lhes foi dura e injusta, pois ambos foram vítimas de conspirações e foram mortos pelos mesmos homens com quem tinham vencido os seus inimigos."

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Quinto_Sert%C3%B3rio

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Outeiro do Cribo


Labirinto Outeiro do Cribo

No lugar de O Busto, na paróquia de Santa María da Armenteira, concelho de Meis, existe uma lage granítica virada a Oeste, com uns cinco metros de longitude por dois de largura. Na parte superior está a representação canónica de um labirinto de modelo cretense. Trata-se de um desenho com traçado complexo que remete para os modelos iconográficos existentes no Mediterrâneo, desde os tempos pré-históricos, os quais se relacionam directamente com o ciclo mitológico cretense do Minotauro e mais tarde, já na época romana, com a cidade de Tróia.


Petróglifo cervídeo

A sua presença no contexto rupestre galaico abre interessantes reflexões sobre os contactos mantidos entre este povo e os focos culturais mediterrânicos em tempos tão remotos, III milénio AC, que será a data mais provável deste petróglifo.
Na parte inferior da lage existe um grupo de cinco quadrúpedes, alguns claramente cervídeos assim como mais algumas figuras que aparentam ter sido gravadas mais tarde.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A importância do Cavalo no tempo de Viriato


Para compreendermos devidamente a importância que o cavalo assumiu nas campanhas de Viriato,
temos de recuar no tempo, quando, durante o século VI a.c., as tribos celtas da Europa Central
começaram a emigrar para a orla do Mediterrâneo e para ocidente em direcção a Península Ibérica.
Essas tribos, apesar de minoritárias, eram, contudo, poderosíssimas, mercê do facto de já possuírem armas de ferro tecnicamente muito bem feitas (na altura a maioria das tribos ibéricas utilizavam ainda o bronze) mas, sobretudo, pelos seus magníficos cavalos de guerra. A superioridade no armamento e os seus instintos de combatentes experimentados aliado a tácticas de combate só possíveis mercê das suas montadas treinadas para a guerra, concedeu‐lhes uma superioridade tal que rapidamente subjugaram os povos por onde passavam.

Os Celtas possuíam um tipo de cavalo oriundo da Europa Central com uma envergadura acima da
media dos equinos de então, muito robusto, mas de mobilidade reduzida, pelo que o seu manejo era
de certo modo difícil. Isso implicava, por um lado, a existência de arreios e ferros especiais que
permitissem um total controle da montada e, por outro, uma enorme destreza do cavaleiro para a
dominar. Como os Celtas já conheciam e trabalhavam habilmente o ferro, facilmente souberam criar
engenhos de boca e arreios adaptados às mais difíceis circunstancias. Dominavam em pleno o cavalo com freios, bridges e freios‐bridges, conheciam já as ferraduras, utilizavam uma espora no calcanhar esquerdo, laboravam com grande habilidade o couro e criaram selas, algumas delas já anatómicas, que permitiam uma enorme estabilidade e equilíbrio ao cavaleiro, em uma época em que ainda não existiam estribos (que só fizeram a sua aparição no século VIII d.c.). Por isso, a eficácia do cavaleiro dependia da sua destreza, mas em grande parte do tipo de selas utilizadas.
 Até então, esse cavalo devido e sua sela era tido como uma montada romana, trata-se de um
cavalo celta com a sua sela do século I a.c., e cujo modelo iria servir de referencia, sensivelmente um século mais tarde, para equipar a cavalaria romana. Aliás, os Romanos nunca exibiam os seus compatriotas sendo mortos nos monumentos triunfais e por isso o cavalo caído de S. Remígio nunca poderia ser romano.

Quando os celtas chegaram ao Ocidente peninsular rapidamente se aperceberam da realidade da população equina ali existente. Nos contrafortes montanhosos do Noroeste transmontano dominavam os garranos, cavalos pequenos, rústicos, de grande mobilidade, com uma incrível capacidade de sobrevivência em qualquer terreno, por mais inóspito que fosse.
Nas veias do Mondego, Tejo e Sado dominavam os sorraias, raça maior e mais pesada que o garrano, mas também ela rústica e de grande mobilidade, génese longínqua do actual cavalo lusitano.
Do cruzamento das montadas celtas da Europa Central com o cavalo autóctone do Ocidente peninsular iria nascer uma raça de cavalos celebrizados por Estrabão, por Plínio e por Possidônio, nascidos das "éguas fecundadas pelo vento", como relata Sílio Itálico na Púnica. Tão respeitados e estimados eram esses cavalos que muitos deles foram honrados como divindades, sendo mesmo vários santuários (como o de Mula‐Múrcia) erigidos em sua honra, o que bem traduz o carácter quase divino em que o cavalo era tido.

                                                                                Garranos no Gêres

Para entendermos devidamente o impacto que o cavalo da Lusitânia teve nas campanhas de Viriato, temos de falar também da cavalaria romana. Os Romanos eram, por natureza, maus cavaleiros.
Montavam escarranchados sobre os rins dos cavalos com rédeas muito compridas o que, desde logo, lhes retirava grande mobilidade. Só quem nunca montou a cavalo é que não se apercebe do equilíbrio que é necessário para, sem estribos, montar desta forma. Por isso a equitação era restrita a aristocracia que se treinava em numerosas escolas e se passeava ou saltava no campo de Marte. Por outras palavras: o cavalo não era tido como uma arma de guerra a considerar, e por isso os Romanos, que foram os primeiros a criar coudelarias especializadas nos diferentes fins, ignoraram o cavalo de combate. Desenvolveram coudelarias de cavalos de caça (venaticus), de tiro rápido (itinerarius), de tiro lento (manus), o cavalo de passeio (gradarius ou ambulator), o cavalo para viagens longas (incitatus), os trotadores (concussator ou sucussator, ou mesmo cruciator ‐ o que mostra bem quão incomodo era para o cavaleiro romano aguentar um trote sem sela e sem estribos), os de cortesia (cantherius) e, naturalmente, de cavalos de corridas para os hipódromos (quadrigas).

Todos estes tipos de cavalos, sobretudo os de corridas, eram cuidadosamente criados e seleccionados nas melhores coudelarias de Roma. Mas o cavalo de guerra (bellator equus) era relegado para um plano secundário. Se, por um lado, não havia a tradição da guerra a cavalo, por outro, os interesses de Roma focavam‐se em outros sentidos mais rentáveis que não os da guerra. Talvez por isso as legiões romanas incorporassem tão pouca cavalaria e assentassem inicialmente sobre a infantaria pesada. Por outras palavras: a cavalaria era o elo mais fraco do exercito romano. Na batalha de Pidna os Romanos tinham só seiscentos cavaleiros. Vinte e cinco anos mais tarde, os Romanos desistiram completamente da sua cavalaria, empregando em seu lugar contingentes de cavaleiros fornecidos e conduzidos por chefes locais.

Quando em 218 a.c, no decurso da II Guerra Púnica, as legiões romanas, comandadas por Gnaeus Cornelius Scipio, pisaram solo hispânico com o objectivo de impedir o fornecimento de homens e material a Cartago, entraram em confronto aberto com as tribos locais e, a partir de 155 a.c., com a derrota do pretor Manlius, a Lusitânia via‐se envolvida no conflito. Todos os Lusitanos da zona norte do Tejo, e também os da zona sul, aliados aos Celtas e aos Vetões, iniciam a Guerra Lusitana. O conflito começa em 151 a.c., após as traições de Sulpício Galba, em que são chacinados nove mil Lusitanos e outros vinte mil vendidos como escravos. É, precisamente, depois dessa terrível hecatombe, provocada pelo pretor romano, que as forças lusitanas se unem em torno de Viriato.
Quando se da este formidável embate, as forças em presença apresentam, por um lado, as formidáveis legiões romanas, pesadamente armadas, munidas de uma disciplina férrea, de uma eficácia comprovada em anteriores conflitos, mas completamente destituídas de mobilidade. Ali todo o poder residia na infantaria pesada. Do outro lado, dominava a cavalaria ligeira caracterizada por uma notável mobilidade, evitando o confronto directo, mas actuando ágil e brutalmente sempre que a ocasião se propiciava.
Esta foi a realidade que dominou os campos de batalha da Lusitânia e da Bética entre 155 e 138 a.c.
A superioridade coube, naturalmente, à face mais móvel e com mais capacidade de penetração.

Alias, Roma conheceu bem o poder brutal da cavalaria ibérica durante as campanhas de Hannibal, cujo exercito incluía largos contingentes de cavaleiros peninsulares que desempenharam o seu papel de cavalaria ligeira, como também provaram ser capazes de derrotar em batalha a melhor cavalaria romana, chefiada pelos mais prestigiados cabos de guerra. Tito Lívio narra‐nos, pela boca de Hannibal, quando em um dos seus empolados discursos, nos põe o general cartaginês incitando os seus homens na luta contra os romanos de Cipião:

"Por muito tempo perseguistes os rebanhos nos montes da Lusitânia e da Celtiberia, sem dar alguma vantagem dos vossos perigos e fadigas".

Sendo a mobilidade a essência da cavalaria lusitana desenvolveu‐se uma táctica em que cada cavalo transportava dois homens: o cavaleiro e um auxiliar. No local da batalha o auxiliar apeava‐se e combatia a pé e o cavaleiro a cavalo. Depois montavam de novo e rapidamente se afastavam do local da batalha.
Durante o século IV a.c os Celtiberos deram um importante contributo na arte da guerra com a introdução da ferradura e dos cascos amovíveis de metal atados com couro. Esta invenção aumentou enormemente o potencial militar da cavalaria e influenciou a organização dos exércitos. Calcula‐se que nos exércitos lusitanos a cavalaria tenha assumido 20 a 25% do total das forças, enquanto nos exércitos de Roma essa proporão era inferior a 14%.
O cavalo das tribos lusitanas era tido em grande estima e, por isso, era em circunstâncias normais, altamente decorado. Mas, em guerra, toda essa decoração lhe era retirada, ficando restrita ao essencial. Disso nos dão conta as numerosas esculturas e, sobretudo, as pinturas nos vasos de Líria.

O treino que os Lusitanos davam aos seus cavalos e cavaleiros era intenso e cuidadoso. A montada estava treinada para se ajoelhar e aguardar em silencio até ao sinal do cavaleiro, prática corrente na guerra de guerrilha, então em voga na Península Ibérica. Estrabão relata‐nos que os cavalos neste país sido treinados a subir montanhas e a dobrar rapidamente os joelhos, dado um sinal, quando é preciso.

No combate em campo aberto, quando os cavaleiros saltavam para o chão para combater, as suas montadas esperavam‐nos sem se mexerem. Cada cavalo tinha ao pescoço, fixo a cabeçada, um guizo, que permitia que no meio da confusão da batalha o cavaleiro reconhecesse o seu cavalo pelo som do tilintar. Curiosamente esse guizo deve ter desempenhado um papel tão importante que raras são as representações em pinturas de cavaleiros ibéricos em que o guizo não tome um lugar de destaque.

Fonte: http://www.historia.templodeapolo.net/

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Falcata




Foi, talvez, a mais emblemática e eficaz arma dos Lusitanos e aquela que mais "dotes de cabeça"
causou às hostes romanas.
Não se sabe a origem da falcata na Ibéria. Há duas teorias, ambas possíveis: segundo uns a falcata
não foi mais do que uma adaptação local de uma faca de lamina curta do período Halstatt,
proveniente da Europa Central e que se disseminou pela Grécia, Itália e Península Ibérica. Esta teoria é refutada pela maioria, que considera a falcata uma copia exacta da machaera ou kopis grego, levado para a Ibéria por mercadores gregos ou por mercenários recrutados pelos gregos, por volta do século VI A.C.
 Outros defendem a ideia de que a falcata é uma criação local (ibérica). Embora tal não seja completamente absurdo, a influência da cultura grega ao longo de todo o Mediterrâneo foi de tal ordem que a maioria dos historiadores considera pouco credível a ideia da invenção local daquela arma.

Enquanto os legionários romanos utilizavam o gladio quase sempre de ponta, a falcata nunca era usada para espetar, mas para actuar de gume. O desenho tão característico desta arma colocava o POB junto da ponta da lamina, o que a tornava uma arma basicamente desequilibrada e por isso mortal, já que aumentava enormemente o seu efeito cinético.

De uma maneira geral o gume da falcata localizava‐se (ao contrario dos sabres) no interior da curva. Daí a sua espectacular eficácia. Mas, muitos fabricantes tentavam aumentar ainda mais a sua eficácia afiando  também o lado contrario ao gume. Assim, a falcata ficava a possuir dois gumes e podia ser utilizada em direcções contrárias.

Diodoro relata que as falcatas possuíam uma tal qualidade que nenhum elmo, escudo ou ossos podiam resistir aos seus golpes. Seneca conta um episódio que bem demonstra o terror que os legionários romanos sentiam pela falcata. Um veterano encontra César a quem pergunta se se lembrava de um jovem legionário que lhe levou água no elmo quando ele (César) descansava sob uma árvore:
"Então imperador, reconhecerias esse homem ou esse elmo? César respondeu que não podia reconhecer o elmo, mas o legionário reconhece‐lo‐ia certamente. E acrescentou. Mas tu não és de certeza esse legionário. Não me surpreende ‐ disse o homem ‐ que não me reconheças, César, porque quando isso aconteceu eu estava inteiro. Depois, em Munda, arrancaram‐me um olho e a minha cabeça foi esmagada. Jamais poderia conhecer esse elmo se o visse: ficou dividido ao meio por uma machaera hispana".

Esta impressionante narrativa da‐nos a conhecer, para além da ideia da brutalidade desta arma, o nome porque era conhecida naquela época, entre os Romanos. Falcata é uma denominação recente, data do século XIX. Ficamos a saber que os Romanos a conheciam por machaera hispana, mas nada sabemos sobre essa denominação dada pelos Lusitanos. Tenho tentado por todos os meios descobrir, mas até agora os meus esforços foram infrutiferos.
As muitas falcatas descobertas em território português e espanhol permitiram classifica‐las em três grupos, segundo o tipo de empunhaduras:

I ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de pássaro;
II ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de cavalo;
III ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de lobo.

Podemos, ainda, considerá‐las de acordo com o comprimento das laminas:
A ‐ falcatas de lamina longa;
B ‐ falcatas de lamina curta.

Os exemplares mais antigos foram encontrados em Villaricos, junto de vasos gregos importados e datam dos século V e IV A.C., provavelmente cópia dos modelos gregos, e em todos eles a empunhadura assume a forma de uma cabeça de pássaro ou bico de mocho. É uma utilização que faz todo o sentido já que aquela ave fazia parte integrante da simbologia grega.

À medida que as falcatas se foram vulgarizando em território ibérico, o punho foi assumindo a forma de pescoço de cavalo, provavelmente pela muita estima e veneração que os povos da Ibéria tinham por aquele animal. Só bastante mais tarde alguns raros exemplares passaram a ostentar a cabeça de lobo, símbolo da guerra.

De uma maneira geral, podemos considerar esta tipologia extensível ao território português, onde vamos encontrar todos estes tipos de falcata. O que não há dúvida alguma é que durante as campanhas de Viriato a falcata estava já bastante difundida por todo o território da Lusitânia.
Quando o pretor P. Carisius ordenou a cunhagem de dentários em Emerita Augusta, para celebrar a sua vitória sobre os Cantabri, em 22 A.C., mandou gravar na face da moeda uma falcata e uma caetra, as armas dos vencidos.

O comprimento usual das falcatas da orla mediterrânica e do interior da Península Ibérica andava a volta dos 60/70 cm. Mas o comprimento das falcatas lusitanas era muito menor. Raramente excediam os 38 cm de lamina. A lamina apresentava 5 cm na sua parte mais larga e a sua espessura era de 5mm.
Os Lusitanos combatiam em grandes aglomerados de homens, muito concentrados, e onde a confusão devia ser imensa. Por isso, uma arma curta trazia sempre enormes vantagens em maleabilidade e em eficácia.

Embora não haja provas cabais, tudo leva a crer que a cavalaria lusitana teria usado falcatas mais longas, reservando para a infantaria as espadas mais curtas.
A falcata era transportada numa bainha geralmente de couro (embora pudesse também ser feita de outros materiais) reforçada por tiras metálicas moldadas ao longo dos gumes da bainha, onde eram caldeadas três ou quatro argolas destinadas a suspender a arma do ombro a anca (direita ou esquerda) do combatente, ficando esta numa posição horizontal, com o gume cortante voltado para baixo.

Fonte: http://www.historia.templodeapolo.net/