quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Falcata




Foi, talvez, a mais emblemática e eficaz arma dos Lusitanos e aquela que mais "dotes de cabeça"
causou às hostes romanas.
Não se sabe a origem da falcata na Ibéria. Há duas teorias, ambas possíveis: segundo uns a falcata
não foi mais do que uma adaptação local de uma faca de lamina curta do período Halstatt,
proveniente da Europa Central e que se disseminou pela Grécia, Itália e Península Ibérica. Esta teoria é refutada pela maioria, que considera a falcata uma copia exacta da machaera ou kopis grego, levado para a Ibéria por mercadores gregos ou por mercenários recrutados pelos gregos, por volta do século VI A.C.
 Outros defendem a ideia de que a falcata é uma criação local (ibérica). Embora tal não seja completamente absurdo, a influência da cultura grega ao longo de todo o Mediterrâneo foi de tal ordem que a maioria dos historiadores considera pouco credível a ideia da invenção local daquela arma.

Enquanto os legionários romanos utilizavam o gladio quase sempre de ponta, a falcata nunca era usada para espetar, mas para actuar de gume. O desenho tão característico desta arma colocava o POB junto da ponta da lamina, o que a tornava uma arma basicamente desequilibrada e por isso mortal, já que aumentava enormemente o seu efeito cinético.

De uma maneira geral o gume da falcata localizava‐se (ao contrario dos sabres) no interior da curva. Daí a sua espectacular eficácia. Mas, muitos fabricantes tentavam aumentar ainda mais a sua eficácia afiando  também o lado contrario ao gume. Assim, a falcata ficava a possuir dois gumes e podia ser utilizada em direcções contrárias.

Diodoro relata que as falcatas possuíam uma tal qualidade que nenhum elmo, escudo ou ossos podiam resistir aos seus golpes. Seneca conta um episódio que bem demonstra o terror que os legionários romanos sentiam pela falcata. Um veterano encontra César a quem pergunta se se lembrava de um jovem legionário que lhe levou água no elmo quando ele (César) descansava sob uma árvore:
"Então imperador, reconhecerias esse homem ou esse elmo? César respondeu que não podia reconhecer o elmo, mas o legionário reconhece‐lo‐ia certamente. E acrescentou. Mas tu não és de certeza esse legionário. Não me surpreende ‐ disse o homem ‐ que não me reconheças, César, porque quando isso aconteceu eu estava inteiro. Depois, em Munda, arrancaram‐me um olho e a minha cabeça foi esmagada. Jamais poderia conhecer esse elmo se o visse: ficou dividido ao meio por uma machaera hispana".

Esta impressionante narrativa da‐nos a conhecer, para além da ideia da brutalidade desta arma, o nome porque era conhecida naquela época, entre os Romanos. Falcata é uma denominação recente, data do século XIX. Ficamos a saber que os Romanos a conheciam por machaera hispana, mas nada sabemos sobre essa denominação dada pelos Lusitanos. Tenho tentado por todos os meios descobrir, mas até agora os meus esforços foram infrutiferos.
As muitas falcatas descobertas em território português e espanhol permitiram classifica‐las em três grupos, segundo o tipo de empunhaduras:

I ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de pássaro;
II ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de cavalo;
III ‐ falcatas com a empunhadura terminando em cabeça de lobo.

Podemos, ainda, considerá‐las de acordo com o comprimento das laminas:
A ‐ falcatas de lamina longa;
B ‐ falcatas de lamina curta.

Os exemplares mais antigos foram encontrados em Villaricos, junto de vasos gregos importados e datam dos século V e IV A.C., provavelmente cópia dos modelos gregos, e em todos eles a empunhadura assume a forma de uma cabeça de pássaro ou bico de mocho. É uma utilização que faz todo o sentido já que aquela ave fazia parte integrante da simbologia grega.

À medida que as falcatas se foram vulgarizando em território ibérico, o punho foi assumindo a forma de pescoço de cavalo, provavelmente pela muita estima e veneração que os povos da Ibéria tinham por aquele animal. Só bastante mais tarde alguns raros exemplares passaram a ostentar a cabeça de lobo, símbolo da guerra.

De uma maneira geral, podemos considerar esta tipologia extensível ao território português, onde vamos encontrar todos estes tipos de falcata. O que não há dúvida alguma é que durante as campanhas de Viriato a falcata estava já bastante difundida por todo o território da Lusitânia.
Quando o pretor P. Carisius ordenou a cunhagem de dentários em Emerita Augusta, para celebrar a sua vitória sobre os Cantabri, em 22 A.C., mandou gravar na face da moeda uma falcata e uma caetra, as armas dos vencidos.

O comprimento usual das falcatas da orla mediterrânica e do interior da Península Ibérica andava a volta dos 60/70 cm. Mas o comprimento das falcatas lusitanas era muito menor. Raramente excediam os 38 cm de lamina. A lamina apresentava 5 cm na sua parte mais larga e a sua espessura era de 5mm.
Os Lusitanos combatiam em grandes aglomerados de homens, muito concentrados, e onde a confusão devia ser imensa. Por isso, uma arma curta trazia sempre enormes vantagens em maleabilidade e em eficácia.

Embora não haja provas cabais, tudo leva a crer que a cavalaria lusitana teria usado falcatas mais longas, reservando para a infantaria as espadas mais curtas.
A falcata era transportada numa bainha geralmente de couro (embora pudesse também ser feita de outros materiais) reforçada por tiras metálicas moldadas ao longo dos gumes da bainha, onde eram caldeadas três ou quatro argolas destinadas a suspender a arma do ombro a anca (direita ou esquerda) do combatente, ficando esta numa posição horizontal, com o gume cortante voltado para baixo.

Fonte: http://www.historia.templodeapolo.net/

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Os Clãs Lusitanos 

 


Araocelenses – O seu território situava-se  no actual concelho de Mangualde . 
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Brialeaici – Surgiram somente na Idade do Ferro e habitavam na Covilhã.
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Caielobricoi - Habitavam na zona de Lamas de Moledo. Exploravam e trabalhavam o ferro.
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Calontienses – Clã lusitano, cujo território que ocupava é a região onde actualmente se pode encontrar a cidade espanhola de Valência de Alcântara. 
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Caluri – Clã lusitano, cujo território que ocupava é a região onde actualmente se pode encontrar a cidade espanhola de Plasencia. 
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Coerenses – Clã lusitano, sito entre os territórios dos igaeditani e caluri.
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Elbocori – Clã lusitano, cujo território que ocupava é a região onde actualmente se pode encontrar a cidade portuguesa de Abrantes. Dedicavam-se ao gado cavalar e veneravam Epona. 
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Igaeditani - Clã lusitano que ocupava a região entre os rios Ponsul e Elga. Os seus Deuses tutelares eram Erbina e Igaedo. Cultivam a terra e dedicavam-se a transacções comerciais. Na época romana sobre o seu território nasceu o povoado de Igaeditania (Idanha-a-Velha), o qual veio a ser um importante posto mercantil de todo o império, só não tinha aceso directo ao rio como também todas as estradas a cruzavam. 
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Lancienses – Um numeroso clã lusitano, que por sua vez se dividia em várias fracções, sendo que o território de três destas (lancienses transcudani, lancienses oppidani, ocelences lancienses) se estendia sobre os Herminius e arredores. 
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Magareaicoi - Habitavam na serra de S. Macário. O seu território ocupava parte dos concelhos de S. Pedro do Sul e Castro Daire.
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Mustinaci – O seu território situava-se na região da Covilhã.
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Nacosi – Onde se encontra hoje a capela da Senhora do Bom Sucesso, em Mangualde, seria o seu castro.
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Oilienaici – Eram reconhecidos como bons criadores de ovelhas e habitavam em Esmolfe, num castro localizado na serra da Paramuna.
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Paesuri – Clã lusitano, residente entre os rios portugueses Vouga e Douro.
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Petranioi – Eram vizinhos dos Caielobricoi. Existem indícios de um antigo castro, proveniente da Idade do Bronze que seria o seu.
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Sulenses – Habitavam o castro de Pinho, em S. Pedro do Sul.
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Tapori -  Clã lusitano que habitava a região circundante à actual cidade portuguesa de Castelo Branco, tendo como vizinhos os elbocori a oeste e os igaeditani a este. Pensa-se que a sua capital seria Verurium. A sua Deusa tutelar era Oipaingia.
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Tatibeaicui – O seu castro foi localizado em Queiriz, no concelho de Fornos de Algodres.
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Veaminicori - Habitariam uma zona próxima aos Magareaicoi, supostamente no grande castro que se localiza no local onde hoje é a vila de Castro Daire.
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Ireucoutiori, Seareasi e Arvoni – Habitavam todos na serra do Caramulo, chegando a ter uma divisão de águas entre si. Habitavam respectivamente os castros de Guardão, Outeiro e Alcofra.
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Nilaicui e Vacoaici – Existem poucos dados sobre ambos os clãs, no entanto sabe-se que habitariam na região de Mangualde e Viseu, respectivamente.


Fonte: http://lusitaniaecastrum.blogspot.pt/2012/08/os-clas-lusitanos.html

sexta-feira, 21 de junho de 2013


Solstício de Verão


O Solstício de Verão constitui uma das mais antigas celebrações pagãs que marca o máximo poder do Deus Solar, o dia mais longo do ano antes do seu declínio e "morte" no Solstício do Inverno.
Outros nomes usados para este tempo na Roda do Ano são: Alban Heruin (calendário Druida); Alban Hefin (Tradição Anglo-saxónica); Bênção do sol, Dia de Acópio (Gales); Vestália (Antiga Roma); A Festa de Epona (antiga Gália);
Na tradição Italiana é conhecida como a Festa dell'Estate (festa de verão).
Na Inglaterra este é o dia de Cerridwen e seu caldeirão.
Na Irlanda, este dia está dedicado à Deusa Ninfa Aine. Na Escócia, Litha e, finalmente, no norte da Europa celebra-se o "Dia do Homem Verde". 



 
O Solstício de Verão marca o dia mais longo do ano, e a noite mais curta. A partir do Solstício, os dias encurtam enquanto as noites se tornam cada vez mais longas, e lentamente a escuridão volta a entrar, até chegar ao Solstício do Inverno.
 Nas nossas regiões encontramos os círculos de pedras, ou Cromeleques, que pela sua orientação sugerem que os construtores destes recintos se orientaram pelos corpos celestes para marcar o ritmo do ano. O ciclo do Sol e da Lua à volta da Terra está intimamente ligado ao ciclo de cultivo de alimentos. O Solstício do Verão é neste ciclo um ponto importante. A Deusa Mãe reinou na Terra desde o início da Primavera, e agora está no auge do seu poder e da sua fertilidade. O início do Verão, no momento do Solstício representava neste culto ancestral, o casamento entre o Deus e a Deusa. A Terra recebe os raios do Sol, como numa união entre a Deusa e o Deus, união essa que está na origem da criação dos frutos que hão-de ser colhidas no Outono
Os rituais do Solstício do Verão são celebrações, em que o Fogo - que representa o Sol na Terra - tem um lugar central. Fogueiras são ateadas, há música, canto, danças... O fogo dá aos participantes uma oportunidade de se libertar  nomeadamente dos padrões de comportamento e pensamento ligados ao passado, para que a União simbólica possa acontecer em liberdade.  Jovens casais saltam, de mãos dadas, as fogueiras, celebrando a sua união.
As cerimónias nos locais sagrados celebram o Sol, e são um convite para que tenha lugar a união entre Sol e Terra, Masculino e Feminino.

quarta-feira, 12 de junho de 2013




Talábriga

 

Origens

 

À chegada dos romanos, o litoral a norte do Tejo era ocupado pelos túrdulos, povo cuja cultura era essencialmente mediterrânica. Tal como no sul, mais efectivamente colonizado por gregos e cartagineses, também aqui o espaço se organizava em torno de cidades. Talábriga era a que ficava mais ao norte, já na região do Vouga. A sobrevivência de um substrato mais antigo, de raiz indo-europeia, documenta-se no sufixo briga, que significava 'povoação fortificada'. Para o interior e para o norte o espaço era ocupado por povos com uma cultura mais primitiva, de tipo castrejo e pastoril e predominantemente de matriz indo-europeia. 


Estação Arqueológica (agora parcialmente destruída pela tempestade de 19-01-2013)

 

 

Referências históricas

 

Plínio-o-Velho, autor latino do século I d.C., refere Talábriga ao descrever o litoral da Lusitânia:
"A Durio Lusitania incipit: Turduli veteres, Pæsuri, flumen Vagia, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Aeminium, oppida Conimbrica, Collipo, Eburobritium […]"
. Talábriga deveria, pois, situar-se a sul do rio Vouga e a norte da cidade e rio Aeminium (actuais cidade de Coimbra e rio Mondego). A Geografia de Ptolomeu, autor do século II d.C, define as coordenadas de Talábriga com base em distâncias viárias a outras cidades, nomeadamente Conimbriga, Aeminium e Bracara Augusta. Um roteiro da rede viária de todo o império romano, datado do século III d.C., situa Talábriga junto à estrada que ligava Olisipo a Bracara Augusta, concretamente entre Aeminium e Lancobriga (Fiães, Feira). Uma cosmografia tardiamente compilada em Ravena refere uma Terebrica que poderá corresponder à mesma Talábriga.
Segundo Pompónio Mela, a citada cadeia pliniana de cidades, iniciada no Vouga e que se prolongava até ao Tejo, pertencia aos Túrdulos (Turdolorumque oppida). A criação e delimitação do território (civitas) romano de Talábriga remonta à época de Augusto. Com efeito, em 4-5 d.C., sendo Q. Articuleio Régulo governador da Lusitânia, foram colocados marcos de fronteira em vários territórios. Dois desse marcos foram encontrados na fronteira de Talábriga, um em Ul (Oliveira de Azeméis) e outro em Guardão (Tondela).
O facto de o topónimo Talabriga ser de origem pré-romana leva a crer que este povoado já existiria quando a Lusitânia foi integrada no império romano. Curiosamente, Apiano de Alexandria, autor do século II d.C., descreve um episódio de resistência heróica à invasão romana passado num Talabriga oppidum em 138 a.C.. Existia, no entanto, outra povoação chamada Talabriga na região do Lima. Assim, embora a utilização da palavra oppidum favoreça a hipótese de o referido episódio se ter passado na Talabriga do Vouga (Plínio apenas refere oppida a partir do Vouga para sul, estando a região a norte dominada pela cultura castreja), a verdade é que não se pode saber ao certo a qual das cidades homónimas se referia Apiano.

 

 

Talábriga na Guerra Lusitana

 

Depois de expulsar os cartagineses da Hispania, os romanos esboçaram, no início do século II aC., as primeiras intenções de criação de uma administração provincial. Em 197 aC., foram criadas as duas províncias: Hispania Ulterior (a ocidente) e Hispania Citerior (a oriente). Assim se criavam as condições para um mais efectivo controlo e exploração do território dominado. Os excessos da dominação rapidamente levaram a protestos e revoltas dos povos indígenas.
As fontes registam confrontos entre romanos e lusitanos a partir de 194 aC. Em 155 aC., depois de um período de alguma paz, estalou a chamada "guerra lusitana". A morte de Viriato em 139 aC. foi um rude golpe sofrido pelos lusitanos, prenuncio da vitória romana que pouco mais demoraria a consumar-se. Em 138 aC., Décimo Júnio Bruto, nesse ano encarregado do governo da Hispânia Ulterior, empreendeu uma grande campanha militar que se estendeu a todo o actual território português, e que marcará, verdadeiramente, o fim da guerra lusitana. Sabe-se que, durante esta campanha, Bruto fortificou Olisipo (Lisboa). Talábriga é a única cidade que se sabe por testemunhos escritos ter oferecido grande resistência à campanha de Bruto.
Veja-se o que escreveu Apiano de Alexandria: "Entre outras cidades que se rebelaram foi Talábriga a que mais vezes o fez. Brutus, voltando ali, os habitantes da cidade pediram-lhe clemencia e confiaram-se ao seu arbítrio. Em primeiro lugar mandou que lhe entregassem os transfugas dos romanos, os prisioneiros e todas as armas, além dos reféns; depois ordenou que saíssem da cidade com mulheres e filhos. Logo que acabaram de o fazer, cercou-os de tropas e arengou-os, dizendo-lhes que quantas vezes se rebelassem, tantas vezes mais violentamente a guerra lhes seria feita. Amedrontados e convencidos de que mais asperamenente se vingaria deles, Brutus acalmou-os contentando-se só com estas recriminações. Tomou-lhes os cavalos, mantimentos, dinheiro público e mais apetrechos bélicos, restituindo-lhes depois a cidade, o que eles já não esperavam. Depois de tantos feitos, Brutus voltou a Roma".


A localização de Talábriga no Marnel

 

Sendo de 70.5 milhas a distancia em linha recta entre Coimbra e Gaia, não poderá estar correcta a distancia de 71 milhas atribuída pelo Itinerário de Antonino ao percurso entre Eminio e Cale (aliás, a distância tradicional por estrada entre Coimbra e Gaia ronda as 78 milhas). Nesse caso, deve atribuir-se maior importância ao testemunho de Plínio, que obriga a situar Talábriga a sul do Vouga. O sítio arqueológico romano mais importante entre o rio Vouga e Coimbra é o castelo do Marnel, situado no alto de um monte encravado entre os rios Vouga e Marnel. Aqui deveria ficar Talábriga.

 

Vestígios romanos no Marnel

 

A configuração do castelo do Marnel apresenta dois terraços, correspondentes aos dois pontos culminantes do monte: o Cabeço Redondo, ou Cabeço de Vouga propriamente dito, a ocidente, e o Cabeço da Mina, a oriente. Especialmente na vertente norte, os terraços encontram-se circundados por dois outros terraços, em planos inferiores. Em todos os níveis, os terraços terminam em taludes de cerca de quatro metros de altura que, originalmente, deveriam estar, ao menos em parte, revestidos de muralhas. Destas apareceram vestígios a sul e ocidente. No terraço do Cabeço Redondo foram encontrados vários restos de construções, alinhadas de sudoeste a nordeste, ao longo de uma rua que ligava duas portas da fortificação. É provável que todo este aparato defensivo seja medieval, tendo pertencido à Civitas Marnel. No Cabeço da Mina existe uma cisterna onde apareceram moedas romanas. Na encosta oriental do Cabeço da Mina, prolongando-se até às areias do Marnel, foram encontrados restos de cerâmica, grande quantidade de mós manuárias, bem como pedras aparelhadas e capitéis. As escavações realizadas por Rocha Madaíl em 1941 revelaram, entre outras construções, um sistema de muralhas de formato quadrangular, implantado no Cabeço da Mina, que poderão ser o resto do fórum de Talábriga. 


Desde 1996, a Câmara Municipal de Águeda tem vindo a fazer escavações neste local. Estas escavações revelaram uma grande quantidade de cerâmica comum da época romana, alguma sigillata e ainda metais, nomeadamente fragmentos de peças trabalhadas em bronze, e vidros. Embora os resultados das escavações realizadas nos últimos quatro anos não estejam ainda publicados, parece que até agora não se encontrou nada que revolucionasse os conhecimentos sobre este local.


Estação arqueológica do Cabeço do Vouga  

 

Ao longo do século XX, generalizou-se a todo o monte do Marnel, ou Monte Reguengo, a designação de Cabeço do Vouga que, tradicionalmente se aplicava apenas ao Cabeço Redondo e excluia o Cabeço da Mina. Apesar dos esclarecimentos de Sousa Baptista, é frequentemente no sentido mais lacto que o topónimo Cabeço do Vouga é hoje entendido.
A chamada "Estação Arqueológica de Cabeço do Vouga" foi classificada como Imóvel de Interesse Público por decreto nº 36383, DG 147, de 28/06/1947, c/ rectificação no DG 170, de 25/07/1947. Veja-se a página sobre esta estação no Inventário do Património Arquitectónico da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.



O Território de Talábriga

 

Analisando a distribuição dos marcos de fronteira e dos marcos miliários até agora encontrados, é possível reconstituir o território de Talábriga. Verifica-se que coincidia em boa parte com a medieval terra de Vouga, cuja sede era precisamente a civitas Marnel. Também isto parece ser um forte argumento a favor da localização de Talábriga no Marnel.
O território de Talábriga devia extender-se do rio Antuã até à Mealhada e do mar até às faldas serranas. Neste território se situam as modernas sedes concelhias de Águeda, Albergaria-a-Velha, Anadia, Aveiro, Ílhavo, Mealhada, Oliveira do Bairro, Sever do Vouga e Vagos.


Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Talabriga
Para uma listagem de referências bibliográficas, consulte a página sobre a historiografia de Talábriga.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Aldebaran 

 

As entradas dos dólmens construídos há seis mil anos em volta da maior montanha da Serra da Estrela estão todas viradas para o lugar onde, no horizonte, a estrela Aldebaran nasce em Abril, e explicam a origem do nome da mais alta serra de Portugal Continental.
Quem descobriu o segredo guardado por aquelas construções megalíticas foi o astrónomo português Fábio Silva, investigador na University College London, onde está a fazer um doutoramento em arqueologia, depois de se ter doutorado em astrofísica na Universidade de Portsmouth, também no Reino Unido.
Num artigo publicado na revista científica de referência internacional "Papers from the Institute of Archaeology", Fábio Silva revela a importância da estrela Aldebaran, a mais brilhante da constelação do Touro, para os povos pré-históricos e explica de que forma as lendas locais da Serra da Estrela confirmam a sua tese.


Em 2010 o investigador, que estudou na Universidade de Aveiro, iniciou na região entre os rios Mondego e Douro um projecto de prospecção dos dólmens, monumentos megalíticos pré-históricos construídos há cerca de 6000 anos, que também são conhecidos por antas ou orcas.
"O objectivo era verificar se existiria algum padrão a nível de orientação e implantação na paisagem, e se esse padrão corresponderia a algum evento astronómico como acontece, por exemplo, em Stonehenge", conta Fábio Silva.
Stonhenge, o famoso monumento megalítico localizado no Reino Unido, encontra-se alinhado com o nascer do Sol no solstício de verão e com o pôr do Sol no solstício de inverno.

Três anos depois de ter começado o projecto, o astrónomo já tinha estudado mais de 50 antas e concentrou-se no vale do Mondego, na região de Carregal do Sal, "que tem vários monumentos megalíticos em bom estado de conservação e restauro". Foi então que detectou um padrão comum: todas as antas ou dólmens estão orientados para a Serra da Estrela.
O passo seguinte foi "tentar perceber se a zona da Serra da Estrela que é observável dentro de todos os dólmens - uma encosta - poderia ter algum significado especial relacionado com o nascimento de um astro", prossegue Fábio Silva.
E de facto tinha, porque há cerca de 6000 anos a estrela Aldebaran, a mais brilhante da constelação do Touro, nascia exactamente sobre a Serra da Estrela no final de abril, princípio de maio.


"O nascimento desta estrela muito brilhante e vermelha, no período em que os dólmens foram construídos, ocorria numa altura em que as comunidades do vale do Mondego iam passar os meses mais quentes do ano nos prados da Serra da Estrela", onde alimentavam os seus rebanhos de ovelhas e cabras, revela o astrónomo. "A observação astronómica funcionaria, assim, como um perfeito marcador sazonal para estas comunidades".
As lendas locais contam a história de um pastor que vivia no vale do Mondego e ao ver uma estrela nascer sobre uma serra no horizonte, decide ir atrás dela. Quando chega à serra decide dar-lhe o nome de Serra da Estrela.
Fábio Silva explica que "esta narrativa é bastante semelhante ao que a arqueologia e a arqueoastronomia nos dizem: as comunidades neolíticas do vale do Mondego que praticavam a pastorícia, ao observarem a estrela Aldebaran a nascer, deslocavam-se para as cotas mais elevadas da serra, onde permaneciam durante os meses quentes".
Estamos, assim, perante um caso em que o folclore "pode ter mantido viva a memória de algo de extrema importância há 6000 anos atrás".

terça-feira, 7 de maio de 2013


Ocupação dos Iberos e Turdetanos na Península Ibérica

Os Iberos eram um povo moreno, de estatura mediana, que habitou a península Ibérica na antiguidade. A respeito da sua origem, há duas teorias:
Uma diz-nos que os Iberos eram os habitantes originais da Europa ocidental e os criadores da grande cultura megalítica que teve início em Portugal1, no fim do VI milénio a.C., e se espalhou pela península Ibérica, França, Inglaterra, Irlanda e Dinamarca, até meados do II milénio a. C. Essa teoria está apoiada em evidências arqueológicas, genéticas e linguísticas. A ser verdade esta teoria, os Iberos teriam sido o mesmo povo dominado pelos Celtas no primeiro milénio a.C., na Irlanda, Grã-Bretanha e em França. A própria Enciclopédia Britânica define os ingleses como descendentes dos Iberos e dos Celtas.
Alternativamente outra teoria sugere que eram originários do Norte da África, de onde emigraram provavelmente no século VI a.C. para a península Ibérica (à qual cederam o nome), onde ocuparam uma faixa de terra entre a Andaluzia e o Languedoc (na França). Foram parceiros comerciais dos Fenícios, os quais fundaram dentro do território dos Iberos várias colónias comerciais, como Cádiz, Eivíssia e Empúries. Foram assimilados pelos Celtas no século I a.C. formando o povo conhecido como Celtiberos.
Iberos – Os Iberos eram um povo pré-histórico que vivia no Sul e no Este do território que mais tarde tomou o nome de Península Ibérica. As ondas de emigração de povos Célticos que desde o século VIII até ao século VI a. C. entraram em massa no noroeste e zona centro da actual Espanha, penetraram também em Portugal e Galiza, mas deixaram intactos os povos indígenas da Idade do Bronze Ibérica no Sul e Este da península.
Os geógrafos gregos deram o nome de Ibéria, provavelmente derivado do rio Ebro (Iberus), a todas as tribos instaladas na costa sueste, mas que no tempo do historiador grego Herodotus (500 a.C.), é aplicado a todos os povos entre os rios Ebro e Huelva, que estavam provavelmente ligados linguisticamente e cuja cultura era distinta dos povos do Norte e do Oeste. Havia no entanto áreas intermédias entre os povos Célticos e Iberos, como as tribos Celtiberas do noroeste da Meseta Central e na Catalunha e Aragão.
Das tribos Iberas mencionadas pelos autores clássicos, os Bastetanos eram territorialmente os mais importantes e ocupavam a região de Almeria e as zonas montanhosas da região de Granada. As tribos a Oeste dos Bastetanos eram usualmente agrupadas como "Tartessos", derivado de Tartéssia que era o nome que os gregos davam à região.





Os Turdetanos do vale do rio Guadalquivir eram os mais poderosos deste grupo. Culturalmente as tribos do noroeste e da costa valenciana eram fortemente influenciadas pelas colónias gregas de Emporium ( a moderna Ampúrias ) e na região de Alicante a influência era das colónias fenícias de Malaca ( Malága ), Sexi ( Almuñeca ), e Abdera ( Adra ), que passaram depois para os cartagineses.
Na costa este as tribos Iberas parecem ter estado agrupadas em cidades-estado independentes. No sul houve monarquias, e o tesouro de El Carambolo, perto de Sevilha, parece ter estado na origem da lenda de Tartessos. Em santuários religiosos encontraram-se estatuetas de bronze e terra-cota, especialmente nas regiões montanhosas. Há uma grande variedade de cerâmica de distintos estilos ibéricos.
Foi encontrada cerâmica ibérica no sul da França, Sardenha, Sicília, e África e eram frequentes as importações gregas . A esplêndida Dama de Elche, um busto com características que mostram forte influência clássica grega. A economia Ibérica tinha uma agricultura rica , forte exploração mineira e uma metalurgia desenvolvida.
A língua Ibérica era uma língua não Indo-Europeia, e continuou a ser falada durante a ocupação romana. Ao longo da costa Este utilizou-se uma escrita Ibérica, um sistema de 28 sílabas e caracteres alfabéticos, alguns derivados dos sistemas fenício e grego, mas de origem desconhecida. Ainda sobrevivem muitas inscrições dessa escrita, mas poucas palavras são compreendidas, excepto alguns nomes de locais e cidades do III século, encontradas em moedas. Os Iberos conservaram a sua escrita durante a conquista romana, quando se começou a utilizar o alfabeto latino. Ainda que inicialmente se pensou que a língua basca era descendente do Ibero, hoje considera-se que eram línguas separadas.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os Celtas na Península Ibérica

Pequeno resumo das novas perspectivas da investigação num campo tão apaixonante como os Celtas da Península Ibérica.
Os Celtas da Península Ibérica é um dos temas mais interessantes da proto-história peninsular, já que é uma etapa chave para entender processos posteriores que aconteceram na Hispânia, e a par disso, forma parte de um movimento cultural que afecta grande parte da Europa.
Este tema despertou bastante interesse nos estudiosos internacionais como Joqueville, que se dedicou ao campo da linguística, e Schulten, que estudou o histórico. Em 1920 foi Bosh Gimpera quem relacionou os estudos anteriores com os Campos de Urnas da Catalunha e iniciou as teorias "invasionistas" tradicionais, teorias que integravam a cultura material, a linguística e as fontes históricas. Estas teorias mantiveram-se até à actualidade, apesar das dificuldades existentes, sobretudo devido à recente investigação arqueológica.
Por este motivo alguns arqueólogos, como Almagro e outros, ao não poderem documentar ditas invasões, preferem falar de uma única "invasão", muito mais complexa e indiferenciada, frente à versão tradicional, liderada por Tovar, da ocorrência de várias invasões, em concreto duas, mas às quais não se pode atribuir uma data ou, inclusive, a época da sua chegada. Recentes estudos a partir de novas perspectivas, tentam explicar a origem, a evolução e personalidade dos Celtas, valorizando os seus aspectos comuns e peculiares.



Origem
A Península Ibérica sofreu um duplo processo de influência durante o I milénio a.C., por um lado um influxo mediterrânico, enquanto que pelo outro, um processo de celtização afectou as zonas central e ocidental principalmente. A cultura dos "Campos de Urnas", que se havia identificado com os Celtas até agora, foi delimitada no noroeste, logo, as teses "invasionistas" encontram-se com o problema de que esta zona não coincide com a área geográfica e linguística dos Celtas, já que eram sociedades que falariam o ibérico, como parece indicar a epigrafia e as referências históricas.
Segundo a investigação actual, a partir da Idade do Bronze, o interior da Península conheceu a chamada Cultura de Cogotas I, de economia mista agrícola-ganadeira de ovicápridos e transumância local, que desde o II milénio a.C.  estava absorvendo influências do Bronze Atlântico. Até ao século IX a.C. aparecem materiais do mundo tartéssico, como fíbulas, espadas, cerâmicas de decorações geométricas e outras influências, mais leves, do "Campos de Urnas" em consequência de zonas fronteiriças. Este substrato pode relacionar-se com elementos linguísticos indo-europeus, os chamados pré ou protoceltas, que se conservam em alguns topónimos, etnónimos e antropónimos, como o P inicial que conserva o Lusitano, língua diferente da celtibérica ou língua posterior, ou ainda elementos ideológicos, como o ritual de expor os cadáveres dos guerreiros aos abutres entre celtiberos e vaceus, tradição anterior ao ritual de incineração do "Campos de Urnas", como se pode ver em algumas cerâmicas numantinas, ou mesmo como indicaram Sílico Itálico e Eliano. Este substrato também se pode observar na preservação de cultos fisiolátricos, como os santuários de Ulaca, Cabeço das Fráguas, Lamas de Moledo…, com as águas, como evidenciam as oferendas de armas do Bronze Final, com bosques sagrados possível de se observar nos topónimos que mantém Nemeto-, ou divindades muito arcaicas sem forma humana, as quais se iniciam com Bandu-, Navia- ou Reve- que são uma componente não indo-europeia.
Este substrato protocéltico manteve-se no ocidente e norte, mas também aparece entre os povos do interior, como os Carpetanos, Vaceus e Vetões, Lusitanos e Galaicos. Substrato que seria fragmentado e absorvido pela expansão da cultura celtibérica a partir do século VI a.C., sendo esta hipótese a que permite explicar as semelhanças culturais, linguísticas e ideológicas entre todas as populações célticas peninsulares, e que também serve para diferenciar os celtas dos celtiberos.
As explicações são duas. Uma, a "invasionista" tradicional, que aponta para a chegada de grupos humanos que traziam consigo a cultura já formada, explicação que tem sido impossível documentar por não se saber qual é o seu lugar de origem, e sobretudo, as vias de chegada. A outra, que sem excluir movimentos de gentes, sobretudo de elites guerreiras, aponta para uma formação complexa por aculturação e evolução através de diversas vertentes.



Influência e "Celtização"
Os povoados fortificados, e os posteriores Oppida explicam a hierarquização do território que surge em relação à transumância sazonal do gado, para evitar tanto a seca estival da Meseta (fenómeno conhecido como agostamiento), como a dureza invernal das serras. Este tipo de economia produziria uma sociedade hierarquizada, sendo que no topo estaria a classe guerreira, como parecem indicar as fontes históricas.
O ritual de incineração dos cadáveres, pode explicar-se através de influências de "Campos de Urnas", como ocorre nos Celtiberos ou Vetões. A construção de túmulos como o de Pajaroncillo, ou as estelas alinhadas podem ser resultado das diferenças étnicas, cronológicas e sociais. As fíbulas, os adornos e as espadas documentam o uso do ferro desde as primeiras fases de introdução da influência colonizadora (fenícios e gregos), evidenciando influências multi-direccionais, tanto mediterrânicas como transpirenaicas, o que não permite pensar numa única via de chegada, nem numa origem comum. Esses objectos devem considerar-se como objectos de prestígio das elites guerreiras, cujo grande desenvolvimento seria favorecido pelos intercâmbios com o mundo colonial mediterrânico, como pela organização pastoril e guerreira do interior. Assim se compreende que a quantidade destes objectos no interior seja minoritária e que existam variantes locais, dada a sua difusão por intercâmbio e a imitação artesanal.
Esta organização hierarquizada e guerreira, unida à introdução do ferro, produto abundante e difundido rapidamente, explica a formação das características da Cultura celtibérica e a sua tendência para a expansão, a qual se traduziu num processo de "celtização" de outras populações, e chocou com os romanos. O processo de "celtização" explica a aparição de elementos arqueológicos, linguísticos, socio-económicos comuns e atribuíveis aos Celtiberos: como armas "celtibéricas" nas necrópoles, fíbulas, topónimos em briga, antropónimos e topónimos em Seg-; antropónimos "celtius" ou em ambatus, organizações supra-familiares que se reflectem nos genitivos em plural, pactos de hospitalidade, e inclusive um elemento religioso comum, como Lug.
Isto indica a existência de uma zona nuclear nas terras altas do Sistema Ibérico e da Meseta Oriental, a Celtibérica, desde onde parece ter-se alargado a celtização a terras mais Ocidentais, muito permeáveis, por tratar-se de zonas de meio ambiente pastoril. Este processo é posterior à formação das necrópoles celtibéricas a partir do século VII a.C., por exemplo, a cultura vetona das Cogotas "celtiza-se" a partir do século V a.C., aparecendo mais tarde na Estremadura, sul de Portugal e da Bética, assim como do Alto Vale do Ebro e a Noroeste.
Trata-se de um processo intermitente e só seria interrompido com a chegada de Roma. Esta expansão é documentada por Plínio (3, 13) ao dizer que os celtici da Bética procediam dos Celtiberos de Lusitânia. Do mesmo modo o antropónimo Celtius na Lusitânia explica-se como apelativo étnico em áreas não célticas originariamente do Ocidente. Esta "celtização" tardia confirma-se pelos topónimos formados com briga já na época romana: Iuliobriga, Augustóbriga…
Para poder compreender os Celtas da Península Ibérica temos que ter em conta que estes foram permeáveis às influências dos seus vizinhos, sobretudo na cultura material. O contacto com os iberos conduziu à assimilação de elementos mediterrânicos, que se reflecte no conceito de Celtibero e a sua diferenciação material com outras culturas célticas, ainda que se mantivesse a língua e organização sócio-ideológica das elites guerreiras. Estas elites "celtizadas" foram generalizando-se no Ocidente, notabilizando-se em povos como os Vetões, Lusitanos e Galaicos, e mesmo os Iberos, já que os relevos de Osuna e Liria apresentam armas de tipo céltico. O mercenarismo provocaria movimentos de gentes, o que pode ter determinado o controle de algumas cidades por elites célticas, sendo que esta presença pode explicar a aparição de fíbulas de La Tené na Serra Morena.
Este processo não seria pontual, mas antes largo e intermitente no tempo, com um efeito de celtização paulatina, isto é, diferenciado por áreas e momentos, o que nos dá um quadro complexo que permite compreender a falta de uniformidade da celtização da Península Ibérica.

Os celtiberos são o povo que resultou, segundo alguns autores, da fusão das culturas do povo Céltico e a do povo Ibero, nativo da Península Ibérica. Habitavam a Península Ibérica, nas regiões montanhosas onde nascem os rios Douro, Tejo e Guadiana, desde o século VI a.C.. Não há, contudo, unanimidade quanto à origem destes povos entre os historiadores. Para outros autores, tratar-se-ia de um povo Celta que adoptou costumes e tradições iberas. Estavam organizados em gens, uma espécie de clã familiar que ligava as tribos, embora cada uma destas fosse autónoma, numa espécie de federação. Esta organização social e a sua natural belicosidade, permitiram a estes povos resistir tenazmente aos invasores Romanos até cerca de 133 a.C., com a Queda de Numância.
Deste povo desenvolveram-se, na parte ocidental da Península, os Lusitanos, considerados pelos historiadores como os antecessores dos portugueses, que viriam ser subjugados ao Império Romano no século II a.C.


Celtas e Celtiberos

Estandarte de Numância

A primeira pergunta é a seguinte: desde quando se pode falar de Celtas na Península Ibérica? Segundo as fontes documentais mais antigas, a "Ora Marítima" de Avieno, ou mesmo Heródoto, já habitavam dito território no século VI a.C., como alguns antropónimos nas Estelas do Sudoeste parecem confirmar. Para a Península Ibérica surge outro problema: o significado e diferenciação entre Celtas e Celtiberos. Ora bem, Celtas, Keltoi em grego e Celtici em latim, cujo uso mais antigo seguramente serviu para distinguir os povos célticos daqueles que não o eram, enquanto que Celtibero, Celtiberi para romanos, como helénicos, parece diferenciar os celtas hispânicos, sendo um termo restritivo, e referindo-se aos que povoavam as terras altas entre o Sistema Ibérico e a Meseta, os quais enfrentaram Roma mais arduamente. A chave esconde-se na identificação e diferenciação arqueológica dos povos célticos para assim, se poder encontrar a sua origem, a sua evolução e a sua personalidade própria.
Na mesma altura (entre os sécs. V e IV a.C.), uma nova vaga migratória de origem Céltica, penetra na Península Ibérica, provocando um conjunto de migrações nos povos indígenas.
As profundas alterações que estas migrações provocaram, marcaram a realidade hispânica até à chegada das tropas romanas.
Essencialmente, contribuíram para acentuar e demarcar duas realidades distintas já existentes: uma região sul e litoral mediterranizada (com centros urbanos e uma economia baseada na agricultura e comércio), e uma outra região fortemente continental de organização tribal (com uma economia fundamentalmente pastoril e guerreira).
Por motivos desconhecidos, algumas regiões conseguiram ficar impermeáveis tanto às influências mediterrânicas como às influências célticas.
Os autores clássicos são unânimes em afirmar que a região compreendida entre o Tejo e o Guadiana era habitada pelos Celtas
A área mais fortemente influenciada pelos Celtas no actual território português foi o Alentejo e o Algarve.
Na sua "Historia Natural", Plínio afirma que estes Celtas descendiam dos Celtiberos e tinham vindo da Lusitânia.

Lusitanos
Os Lusitanos e os Celtiberos são as duas grandes nações hispânicas de origem continental.
No entanto, aparentemente nunca se fundiram, e parecem corresponder até a duas diferentes vagas da migração indo-europeia (aos Lusitanos corresponde a mais antiga, aos Celtiberos, a mais recente).
É por isso provável, que estes Celtas se tenham expandido para ocidente ao serem escorraçados pelos Celtiberos (na sua retaguarda), e ao encontrarem a poderosa nação dos Lusitanos, se tenham dirigido para as regiões meridionais.
O povo lusitano vivia da pastorícia, da pesca, da agricultura e da mineração.


Bibliografia consultada:
* Almagro-Gorbea, M. (1991): Los Celtas en la Península Ibérica. En García Castro, J. A. Los Celtas en la Península Ibérica. Revista de Arqueología, número monográfico. Páginas: 12-17.
* Almagro-Gorbea, M. (1993): Los Celtas en la Península Ibérica: origen y personalidad cultural. En Almagro-Gorbea, M. y Ruiz Zapatero, G (Eds.): Los Celtas: Hispania y Europa. Editorial Actas. Madrid. Páginas: 121-173.
- Mattoso, José, "História de Portugal" vol. 1, ed. Estampa
- Marques, A. H. de Oliveira, "História de Portugal" vol. 1, ed. 1972