sexta-feira, 15 de março de 2013


SERRA DA LUA





 O Sol e a Lua, duas presenças constantes no nosso planeta desde o princípio dos tempos, começaram logo cedo a serem admirados e venerados pela espécie humana. O homem foi evoluindo e desenvolvendo as suas diferentes culturas mas rara deve ter sido aquela que não divinizou estes dois astros. Para Oliveira Martins , o culto da lua é posterior ao culto do sol, pois a lua simbolizando as trevas, teria procedido o culto solar. Não está no âmbito deste trabalho fazer uma exposição dos diversos significados destes dois símbolos através da história, posso contudo concluir numa breve síntese que na maior parte das culturas a Lua estava ligada ao princípio feminino e o Sol, ao masculino, sendo que a Lua como princípio feminino começou a ser vista como dependente do Sol, devido ao facto deste lhe enviar a luz que ela reflecte. O Sol em certas culturas era venerado como uma divindade, era comparado a um deus pai que por um lado ilumina, aquece e alimenta o homem e por outro lado também o castiga provocando períodos de seca que levam à falta de alimento e consequentemente a períodos de fome. A Lua por seu lado sempre foi vista mais como uma deusa mãe que durante um terço do mês acompanha e ilumina o homem através das misteriosas hora nocturnas. A Lua terá sido o primeiro astro que o homem começou a observar, ao fazê-lo este compreendeu as suas fases e começou a relacioná-las com alguns aspectos da sua vida começando a guiar-se por elas. Elit na sua obra Traité dhistoire des religions , dá-nos esta definição do nosso satélite: Astro que cresce, diminui e desaparece, cuja vida está submetida à lei universal do devir, do nascimento e da mortea Lua conhece uma história patética, tal como a do homemmas a sua morte nunca é definitiva. Este eterno retorno às suas formas iniciais, esta periodicidade sem fim fazem com que a Lua seja por excelência o astro dos ritmos da vida ela controla todos os planos cósmicos regidos pelo devir cíclico: águas, chuva, vegetação, fertilidade. A Lua é a virgem, a mãe e a velha, todos os meses o homem acompanhava as suas etapas no céu e comparava-as ao seu próprio ciclo de vida passando pelo nascimento, crescimento, maturidade, decadência e morte. Contudo tal como o homem acreditava na continuação da vida para além da morte, também a Lua conseguia sempre renascer após o seu desaparecimento. A Lua passou assim a ser símbolo de renovação. Quanto ao culto da Lua no ocidente peninsular, será um culto de origem pré-histórica que terá ganho alento durante a época pré-romana e romana. Nos tempos proto-históricos a Serra de Sintra era conhecida pelo nome de Serra da Lua, não se sabe ao certo quando começou o culto a este astro nesta região mas segundo José Leite de Vasconcelos : Não seria de estranhar que os Fenícios ali tivessem um santuário com a invocação da Lua, como decerto os tinham no sacro promontório em honra de outros deuses: em tal caso o respectivo nome da divindade seria Astarte, deusa semítica da Lua e do oceano, a que os gregos fizeram corresponder Afrodite. De modo a confirmar esta afirmação de Leite de Vasconcelos não nos podemos esquecer que a Serra de Sintra estende-se até ao Cabo da Roca que era designado nesta altura por Cabo da Serra da Lua. Sendo os fenícios uns povo ligado ao mar, era pois muito provável que eles realmente tivessem cultuado a Lua nesta região pois esta sempre foi uma companhia para os navegantes iluminando-os no meio da escuridão marítima. O nome actual Sintra etimologicamente provém de Sin, nome que os babilónios davam à Lua, juntamente com o sufixo Tra que significa três e que pode ser uma alusão à tríplice manifestação da Lua, a virgem, a mãe e a velha como já referi neste capítulo ou então às sua tripla fase de deusa do céu, deusa da terra e deusa do submundo, tal como era conhecida na Grécia. Quanto a notícias sobre este culto, Ptolomeu, escritor grego da época romana (século I-II), terá sido o primeiro a usar a expressão Promontório da Serra da Lua. André de Resende, escritor humanista do século XVI, na sua obra De Antiqvitatibvs Lvsitaniae, refere-se igualmente ao Monte da Lua e diz-nos que: Junto ao sopé da serra, mesmo no cima do promontório, que é cortado abruptamente sobre o oceano existiu outrora um templo consagrado ao Sol e à Lua, do qual agora apenas existem ruínas nas areias do litoral e cipos, alguns com inscrições reveladoras da antiga superstição. E publica em seguida as inscrições de dois cipos da época romana dedicados ao Sol e à Lua. Contudo hoje em dia não nos restam quaisquer indícios visíveis da existência de um santuário na Serra de Sintra.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

 Os Lusitanos 

 

Conjunto de povos de origem indo-europeia. A sua influência notava-se já antes de 1.500 a.c. A sua língua foi transcrita das raras inscrições que nos chegaram até hoje.
“Dizem que os Lusitanos são hábeis em armar emboscadas e descobrir pistas. São ágeis, rápidos e de grande destreza. Usam um pequeno escudo de dois pés de diâmetro, côncavo para diante, que é preso ao corpo por correias de couro, porque não têm nem braçadeira nem asa. Usam também um punhal ou um gládio. A maior parte dos guerreiros veste couraças de linho e apenas alguns têm cotas de malha e capacete de tríplice cimeira, usando geralmente elmos de fibras. Os peões calçam polainas de couro e estão armados com lanças de ponta de bronze.”
Estrabão, Geografia 3.3.6. (Historiador e geógrafo grego (64-63 a.C. — 24-25 d. C.), do tempo dos imperadores romanos Augusto e Tibério)
g Os Lusitanos são frequentemente vistos como um dos antepassados dos Portugueses e dos Estremenhos (da Estremadura espanhola), apesar de o povo Português ter também outras ascedências.
A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, um dos líderes no combate aos romanos. Outros líderes conhecidos foram Punicus, Cæsarus, Caucenus, Curius, Apuleius, Connoba, Tantalus e Sertório.
Entre as numerosas tribos que habitavam a Península Ibérica quando chegaram os romanos, encontrava-se, na parte ocidental, a dos lusitani, considerada por alguns autores a maior das tribos célticas, contra a qual durante muitos anos lutaram os romanos.
Não se sabe ao certo qual a sua origem. Os Galaicos aparecem documentados pela vez primeira formando parte do exército do caudilho lusitano Viriato, como mercenários de guerra mas, os galaicos (Celtas) ao norte do Douro posteriormente seriam administrados por Roma como província autónoma na Gallaecia (Galécia) à margem da Lusitânia e da Hispânia Tarraconensis trás ser conquistados por Décimo Júnio Bruto o Galaico, que se entitulou de tal forma perante a forte resistência que encontrou para derrotar os Galaicos.
Os Lusitanos, nesta época, já haviam sido derrotados. Tito Lívio menciona-os incorporados como mercenários no exército de Aníbal, tomando parte na batalha da Trébia e depois atravessando os Pirenéus, após a destruição de Sagunto, a caminho de Itália.
Os Lusitanos seriam de origem pré-celta, como o provam os escritos em língua lusitana encontrados em território português e Estremadura espanhola. Conhecem-se só três inscrições lusitanas, todas elas muito tardias e todas usam já o alfabeto latino. Anteriormente ao período romano não existia uma epigrafia lusitana própia.
Os Lusitanos estavam relativamente bem organizados, assimilando e dando o seu nome às tribos que iam vencendo. Estrabão indica-nos, na sua Geografia da Ibéria, que
"(…) Os montanheses alimentam-se nas duas terças partes do ano com bolota, que depois de secas esmigalham-nas, moem-nas e reduzem-nas a pão, que se conserva por muito tempo; bebem água e uma espécie de cerveja; enquanto ao vinho quase nenhum tem, e o pouco que produzem é consumido nos festins familiares; em lugar de azeite empregam manteiga, comem sentados em bancos construídos junto às paredes, colocando-se conforme a sua idade ou dignidade, as iguarias passam por diante dos convidados, nos seus banquetes dançam ao som de flauta ou da trombeta, fazendo passos figurados, curvando os joelhos e pulando alternadamente (…)"
" (…) Dormem no chão cobertos com o sagum sobre montes de feno; Usam cabelos compridos e flutuantes, como as mulheres, que, durante o combate, prendem com uma faixa sobre a fronte; praticam exercícios como o pugilato e corridas, bem como simulacros de combate a pé e a cavalo (…)"
O geógrafo grego Estrabão na sua "Geografia da Ibéria", relata " (…) os Lusitanos são hábeis e ligeiros nas lutas de guerrilhas, em armar ciladas e em se retirarem de situações desesperadas, fazendo as suas evoluções militares com muita ordem e destreza; tanto combatiam a pé como a cavalo e estes últimos geralmente transportavam um peão na garupa do cavalo, sendo o animal treinado a subir as ásperas encostas das serras(…)"
" (…) Entravam em combate soltando cânticos guerreiros, fazendo uma grande algazarra, gritando e abanando o cabelo para infundir terror, batendo com os pés no chão e as espadas nos escudos, numa bélica gritaria cheia de ardor e entusiasmo(…)"

Fonte: http://arqueo.org/
 

Os Berrões 

 

Estátuas proto-históricas de pedra, esculpidas em pleno relevo com figuras zoomórficas. O vocábulo berrão foi inspirado no termo usado para designar os porcos não castrados.
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Touros de Guisando.
A temática que estas esculturas apresentam é sempre de animais terrestres, como
  • porcos domésticos,
  • javalis,
  • touros,
  • bodes,
  • cães
  • e raramente ursos, todas elas em tamanho natural.
 Das cerca de 400 esculturas conhecidas, as figuras mais frequentes são as de porcos machos.
O material em que são esculpidas é geralmente de granito, embora também se possa encontrar estátuas esculpidas em mármore e talco. Estima-se que a época em que estas estátuas foram esculpidas foi entre a metade do quarto e o primeiro século a.C.
As dimensões dos berrões podem atingir mais de dois metros, no entanto existem vários outros que chegam a ter apenas 30 centímetros.
A zona da cultura dos Berrões é no Nordeste de Portugal, principalmente a província de Trás-os-Montes e Beira interior e estende-se até à Espanha às províncias de Câceres, Zamora, Ávila e Salamanca.
A cultura dos Berrões, em Portugal, está associadas aos castros transmontanos, onde foi feito um grande número de achados, à tribo dos Draganos, um povo pré-celtico que vivia nesta região, e à tribo dos Vetões.
As esculturas representariam animais a quem se prestava culto; um outro possível uso seria o de monumento funerário, como se leva a crer pelas inscrições que algumas destas esculturas exibem.
Temos por exemplo a tradução que foi feita da inscrição, em lingua Ibérica, do berrão de Las Cojotas que suporta esta teoria: "Deus Porco bravo protector da cidade de Adorja"
ReferênciasSantos Júnior, J. (1975). Casa de Sarmento. Conferência: a cultura dos Berrões proto-históricos do Nordeste de Portugal.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Crenças dos Lusitanos


Na época pré-romana ou período proto-histórico, o homem vivia em constante contacto com a natureza, era dela que tirava o seu sustento, era dela que dependia para sobreviver ou não. Sujeito constantemente aos seus caprichos o homem vivia com medo daquilo que não podia controlar, nem explicar. A natureza era para estes homens uma divindade, eles respeitavam-na, temiam-na e adoravam-na. Era ela que lhes dava o alimento e a matéria-prima para fazerem os seus abrigos, as suas armas de defesa, os seus instrumentos para trabalharem a terra. Era ela que os alimentava, abrigava e castigava.

O homem assistia ao nascer e ao pôr-do-sol, às fases da lua, aos inexplicáveis eclipses e trovoadas, agradecia pela chuva, e pelas enchentes dos rios que tornavam as terras mais férteis, pela caça, pelos cereais que cresciam, pelos frutos que colhia, pelos rios cheios de peixe e receava as chuvas abundantes que tudo destruíam, os Invernos rigorosos que lhe dificultavam a sobrevivência, os Verões secos que queimavam as suas colheitas.

Foi fácil portanto que várias crenças começassem a surgir de modo a que o homem conseguisse explicar minimamente aquilo que via, crenças essas que provinham de épocas anteriores, do contacto com outros povos e da própria cultura lusitana. Segundo Possidónio, historiador grego dos séculos II-I a.C., os povos do litoral, acreditavam que todos os dias o sol mergulhava no mar fazendo barulho ao extinguir-se e aumentava assim de volume, o ocaso era pois uma hora sagrada e as populações rezavam para que o sol não se apagasse para sempre. Crença essa semelhante à egípcia, em que os habitantes das margens do Nilo, acreditavam que todas as noites, Rá, o deus-sol, tinha que atravessar o rio numa barca e travar uma luta para que no dia seguinte se pudesse elevar novamente nos céus.

Outras crenças conhecidas dos lusitanos eram a de acreditarem que as éguas do Monte Santo tinham sido fecundadas pelo vento, explicando-se desta maneira a grande agilidade e velocidade das suas crias. Os lusitanos tinham medo da noite e acreditavam na continuação da vida após a morte. A noite era a hora do desconhecido, a hora em que as almas dos mortos novamente regressavam à terra e vagueavam entre os vivos, as almas dos antepassados vagueavam pelos bosques, na confluência dos rios, nas encruzilhadas e aqueles que não recebiam as devidas cerimónias fúnebres, não perdoavam e faziam cair desgraças sobre a família.

 O ferro era considerado um metal impuro e a seu uso era proibido dentro de certos santuários e locais de culto, onde eram utilizados preferencialmente objectos de bronze, barro e pedra. Todos os guerreiros e viajantes respeitavam os cultos e deuses das terras onde entravam. Não se devia desistir de promessas pois isso podia provocava a ira dos deuses.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


                    

Santuário de Endovélico



Existem dois santuários dedicados ao deus Endovélico, um que terá sido o primitivo, situado na Rocha da Mina e um segundo posterior a este situado no alto do outeiro de S. Miguel da Mota, ambos no concelho do Alandroal.
 O santuário da Rocha da Mina, é muito simples e primitivo, Manuel Calado descreve o Santuário como rupestre implantado num esporão rochoso com vertentes abruptas, cuja área habitável é extremamente reduzida. As escadas e os pavimentos talhados na rocha são elementos recorrentes num número relativamente elevado de santuários pré-romanos, alguns dos quais romanizados, e são interpretados frequentemente como altares de sacrifício. Este tipo de monumentos é conhecido na Meseta espanhola e no Norte de Portugal, em áreas que sofreram uma influencia celta mais forte.

 O santuário de São Miguel da Mota, cujo nome se deve ao facto de com a implantação da religião católica na península o culto pagão ao deus Endovélico ter sido substituído pelo culto a S. Miguel, é já um templo da época romana. Como se sabe, os Romanos durante todo o seu processo de romanização para além de levarem a sua cultura e religião aos povos que iam romanizando foram também aproveitando e absorvendo os cultos locais. Sendo assim,  Endovélico, foi também um deus adorado pelos romanos como se pode comprovar pelos ex-votos encontrados neste santuário.
 O santuário prosperou sobretudo durante a época romana imperial, época de que data a maioria dos monumentos descobertos. A maior parte das informações que temos sobre este segundo santuário, devem-se sobretudo às investigações de José Leite de Vasconcelos, que como ele próprio nos diz na sua obra Religiões da Lusitânia , teve a sorte de aí fazer a sua estreia como arqueólogo, fazendo um estudo aprofundado do deus Endovélico.

 Deste templo foram recolhidas inscrições em pedra e em bronze, cerâmicas, imagens esculpidas do deus, dos seus devotos e de animais sagrados, lápides funerárias, pedras escavadas em forma de pia, aras votivas, cipos e também alguns elementos que compunham a estrutura arquitectónica do templo. Todo este espólio é de uma grande riqueza como fonte de conhecimento pois numa altura em que poucos relatos escritos nos foram deixados, permite-nos obter informação sobre o modo de vida destes povos, da sua cultura, religião e economia. Segundo Leite de Vasconcelos deveria existir um oráculo dentro deste templo, pois assim o dão a entender algumas das inscrições recolhidas. Oráculo esse que se manifestava seguramente através de sonhos.

O consultante chegava trazendo uma oferta ao deus, fazia um sacrifício ou uma libação, dormia dentro do santuário e na manhã seguinte contava os seus sonhos aos sacerdotes que os interpretavam. Não existe contudo qualquer escrito sobre a forma de como era consultado o oráculo, nem da real existência de sacerdotes, sendo este relato uma mera suposição.

Paulo Loução , fala-nos de uma inscrição que teria nela gravada a expressão ex imperato averno, que foi traduzida por Leite de Vasconcelos como segundo a determinação que vem de baixo, o que implicaria que tal como no templo de Apolo, existiriam também aqui vapores vindos do interior da terra que teriam uma função oracular. A meu ver contudo, esta inscrição pode referir-se ao carácter infernal do deus que enviaria do submundo as respostas ao que era perguntado.

 A este santuário, recorriam pessoas de diversos estratos sociais, assim o provam os ex-votos encontrados que vão desde toscas representações do deus até oferendas mais elaboradas e cuidadas, contendo as inscrições referências tanto a escravos como a patrícios romanos.
Este santuário seria então um local de culto, onde os crentes se dirigiam para pedir algo ao deus, para pagar as suas promessas e para serem iluminados sobre o caminho a seguir quando estavam em dúvida sobre o seu futuro. Em troca faziam sacrifícios, libações e deixavam oferendas e ex-votos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Cultura Castreja


Photoshop dos castros de Santa Tecla
 
Os aspectos particulares da Zona Noroeste da Península Ibérica, onde se destacam as acentuadas variações de relevo, impeliram à formação, desde a Idade do Bronze, de povoados que obedeciam a critérios de defesa e visibilidade, reflectindo um período histórico de apenas alguns séculos, durante o qual as mudanças económicas e sociais originaram a edificação de um grande número de povoados fortificados em zonas de relativa altitude. Estes espaços, denominados castros (base para o conceito de cultura castreja), vão caracterizar toda esta zona geográfica, frequentemente referida e descrita pelas fontes clássicas, gregas e latinas e sobretudo por Estrabão.

Estão presentemente inventariadas no Norte de Portugal cerca de um milhar de estações arqueológicas deste tipo, algumas de dimensão menos significativa, classificadas como castros (igualmente com derivações da palavra-base, como crasto, castelo, cristelo), mas também por outras, de maior envergadura e extensão (normalmente circunscritas aos 10 hectares), denominadas por citânia ou cividade (civitas), focos de significativa densidade populacional, em notória relação espacial com áreas de recursos naturais, com um maior aproveitamento das vias fluviais e de proximidade marítima, ocupando manchas de características agropecuárias e de exploração dos solos.

Tipograficamente, ocupavam colinas de altitude média, em redor dos 200 e 500 metros, onde muitas vezes as condições de defesa natural eram insuficientes, obrigando à edificação de complexos sistemas defensivos, evidentes sobretudo nos grandes povoados, como muralhas de pedra, fossos e outros, que circundam, em função da topografia, a mancha de habitação. Este modelo urbano seria proto-urbanizado somente com a chegada dos Romanos, com a construção de eixos ortogonais que englobavam núcleos familiares, recintos e edificações públicas, templos e balneários, formando exemplos visivelmente representados em estações arqueológicas de significativa importância como Briteiros (Guimarães) e Sanfins (Paços de Ferreira).

Do ponto de vista da organização espacial, o estudo de determinados núcleos familiares revelou a existência de unidades domésticas apresentando uma variedade arquitectónica significativa, predominando as formas circulares, em alguns casos ovaladas e angulares, distribuídas em função de um pátio, estando documentada a existência de estruturas de cozinha com lareiras e fornos, áreas de armazenamento de víveres e dormida, de tipo simples ou misto, bem como zonas de reunião, com bancos em redor dos muros e, inclusive, espaços funerários.

Os materiais exumados em contextos arqueológicos no Norte do país, provenientes em alguns casos de escavações realizadas no início do século (mas sobretudo da investigação iniciada cientificamente na década de 80 do século XX), viriam a revelar conjuntos cerâmicos vários, bem como um trabalho metálico assinalável, demonstrando uma forte originalidade nos modelos, aberta contudo às influências do exterior, evidenciando um relacionamento óbvio com outros povos, representados no mundo tartéssico, celta, púnico, grego e itálico. A cerâmica dos castros é um reflexo evidente do modo de vida e tradição dessas populações, reflectindo a sua actividade doméstica e artesanal, apresentando modelos de morfologia e decoração diversa, com traços técnicos característicos, simbolizados nos grandes dolia (talhas de maior dimensão para armazenamento), vasos de cozinha, incluindo panelas, potes e vasos de suspensão de asas interiores, bem como pequenas taças para bebida e outros exemplares, na sua maioria fabricados em cerâmica de pasta pobre, apresentando superfície externa alisada e por vezes, com decorações rectilíneas e curvilíneas. Na fase inicial de fabrico, a cerâmica era de tipo manual e de decoração incisa, apresentando-se posteriormente com estampagem, predominando os motivos bastante característicos de círculos concêntricos, em duplo s (SS) e escudetes. Posteriormente, a introdução da roda de oleiro permite a estandardização e regularidade das formas cerâmicas, com uma evidente redução das preocupações ornamentais.

O mundo da produção metálica, fortemente associado às fases principais de riqueza mineira da região (essencialmente estanho e ouro), ao nível tecnológico alcançado e aos contactos com o exterior, encontra-se bem documentado no vasto espólio de armas, utensílios diversos, objectos litúrgicos e de adorno, em bronze, ferro e metais preciosos, onde se destacam, para além dos "clássicos" exemplos de machados, foicinhas, lanças e punhais, torques, braceletes e pendentes (todos da Idade do Bronze). Destacam-se também outros elementos, de influência continental, como fíbulas, torques e viriae (joias de base celta), e ainda adornos femininos diversos (de origem mediterrânica), ou peças de armamento defensivo e de ataque, amiúde representadas na iconografia numismática e na estatuária.

De uma forma geral, o espólio conhecido revela uma tradição e um horizonte do Bronze atlântico final, na sua fase original e de formação, em conjunto com as primeiras influências meridionais, sobretudo em conexão com o mundo tartéssico (séculos VIII-VI a. C), prosseguidas com as migrações túrdulas, documentadas sobretudo na margem sul do rio Douro, bem como com o comércio púnico, mais significativo na zona litoral (séculos V-III a. C.). Salientam-se, de igual modo, os movimentos paralelos de origem centro-europeia, de base hallstáttica e post-hallstáttica, de diversos itinerários (este-oeste e sul-norte), em relação directa com a vertente celtica da região, e perfeitamente documentada nas formas linguísticas da onomástica das divindades, povos e lugares. Num último momento, estabelecido pelos primeiros contactos entre povos locais e Roma, assistimos a uma progressiva assimilação do "mundo romano", integrando estas sociedades locais no vasto espaço civilizacional das províncias do império.

A constituição social das comunidades castrejas chegou até nós proveniente, sobretudo, das fontes clássicas, arqueológicas e epigráficas. A sua constituição baseia-se nos laços de sangue e na estrutura celular familiar extensa (a domus), agrupada em unidades supra-familiares, onde o castro (castellum) representa o elemento habitacional e social, integrando um todo mais amplo formado por unidades étnicas maiores (as civitas); ocupa territórios demarcados, gerando espaços muitas vezes susceptíveis de tensão e hostilidade, em que a figura de um chefe guerreiro (representado com frequência na estatuária castreja), surge como elemento de profundo prestígio, ou, provavelmente, como versões locais de estátuas de magistrados, já sob domínio romano. A análise da sociedade deste período revela uma proximidade assinalável entre as unidades sociais e as entidades do foro divino, evidente na sacralização dos espaços, na geografia, na vertente étnica, social e familiar, onde uma estrutura social fortemente hierárquica e guerreira é unificada por uma componente religiosa de cariz abertamente naturalista.

Cultura Castreja Pré-romana. Porto: Porto Editora, 2003-2013. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Numância



Numância é uma cidade espanhola, fundada no início do Séc. III a.C, habitada por Aravecos, um povo Celtibero.
Ficou conhecida pela luta do seu povo contra as tropas de Cipião Emiliano em 134 a.C, depois de um cerco de 11 meses que pôs fim à brava resistência de 20 anos do povo de Numância aos invasores. Cipião Emiliano para quebrar a tenaz persistência construiu um cerco amuralhado em torno da colina de Numância levando os seus habitantes à inanição e ao desespero. Ao fim de 11 meses de cerco, o povo de Numantino, preferiu pôr fim à sua vida suicidando-se em massa, do que ficar escravos das tropas de Cipião, esta luta, é ainda hoje, recordada como, símbolo da resistência contra os romanos.
Não houve glória nem honra na destruição de Numância, apenas uma cruel perseverança.


Numância e Viriato foram, e ainda são hoje, um exemplo das falhas terríveis a que é submetido um povo dividido. Tanto o famoso líder como a cidade mítica procurou meios para unir os povos em luta da Península Ibérica. Se eles tivessem conseguido, Roma teria falhado. Mas cederam às conspirações Senado romano para dividi-los: "aqueles que povoam esta terra não têm a consciência de pertencer a um único país. Na Península Ibérica presta-se mais atenção e interesse à família, clã, tribo que qualquer outra coisa (...) para o povo da Ibéria não os une qualquer sentido comum, por isso, mais cedo ou mais tarde, acabarão dominados por Roma ".
Foi assim e assim será pois parece que não aprendemos com a experiência.
"Numância durante séculos tem sido um mito de referência para as pessoas que lutaram pela sua independência e liberdade."