sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Cultura Castreja


Photoshop dos castros de Santa Tecla
 
Os aspectos particulares da Zona Noroeste da Península Ibérica, onde se destacam as acentuadas variações de relevo, impeliram à formação, desde a Idade do Bronze, de povoados que obedeciam a critérios de defesa e visibilidade, reflectindo um período histórico de apenas alguns séculos, durante o qual as mudanças económicas e sociais originaram a edificação de um grande número de povoados fortificados em zonas de relativa altitude. Estes espaços, denominados castros (base para o conceito de cultura castreja), vão caracterizar toda esta zona geográfica, frequentemente referida e descrita pelas fontes clássicas, gregas e latinas e sobretudo por Estrabão.

Estão presentemente inventariadas no Norte de Portugal cerca de um milhar de estações arqueológicas deste tipo, algumas de dimensão menos significativa, classificadas como castros (igualmente com derivações da palavra-base, como crasto, castelo, cristelo), mas também por outras, de maior envergadura e extensão (normalmente circunscritas aos 10 hectares), denominadas por citânia ou cividade (civitas), focos de significativa densidade populacional, em notória relação espacial com áreas de recursos naturais, com um maior aproveitamento das vias fluviais e de proximidade marítima, ocupando manchas de características agropecuárias e de exploração dos solos.

Tipograficamente, ocupavam colinas de altitude média, em redor dos 200 e 500 metros, onde muitas vezes as condições de defesa natural eram insuficientes, obrigando à edificação de complexos sistemas defensivos, evidentes sobretudo nos grandes povoados, como muralhas de pedra, fossos e outros, que circundam, em função da topografia, a mancha de habitação. Este modelo urbano seria proto-urbanizado somente com a chegada dos Romanos, com a construção de eixos ortogonais que englobavam núcleos familiares, recintos e edificações públicas, templos e balneários, formando exemplos visivelmente representados em estações arqueológicas de significativa importância como Briteiros (Guimarães) e Sanfins (Paços de Ferreira).

Do ponto de vista da organização espacial, o estudo de determinados núcleos familiares revelou a existência de unidades domésticas apresentando uma variedade arquitectónica significativa, predominando as formas circulares, em alguns casos ovaladas e angulares, distribuídas em função de um pátio, estando documentada a existência de estruturas de cozinha com lareiras e fornos, áreas de armazenamento de víveres e dormida, de tipo simples ou misto, bem como zonas de reunião, com bancos em redor dos muros e, inclusive, espaços funerários.

Os materiais exumados em contextos arqueológicos no Norte do país, provenientes em alguns casos de escavações realizadas no início do século (mas sobretudo da investigação iniciada cientificamente na década de 80 do século XX), viriam a revelar conjuntos cerâmicos vários, bem como um trabalho metálico assinalável, demonstrando uma forte originalidade nos modelos, aberta contudo às influências do exterior, evidenciando um relacionamento óbvio com outros povos, representados no mundo tartéssico, celta, púnico, grego e itálico. A cerâmica dos castros é um reflexo evidente do modo de vida e tradição dessas populações, reflectindo a sua actividade doméstica e artesanal, apresentando modelos de morfologia e decoração diversa, com traços técnicos característicos, simbolizados nos grandes dolia (talhas de maior dimensão para armazenamento), vasos de cozinha, incluindo panelas, potes e vasos de suspensão de asas interiores, bem como pequenas taças para bebida e outros exemplares, na sua maioria fabricados em cerâmica de pasta pobre, apresentando superfície externa alisada e por vezes, com decorações rectilíneas e curvilíneas. Na fase inicial de fabrico, a cerâmica era de tipo manual e de decoração incisa, apresentando-se posteriormente com estampagem, predominando os motivos bastante característicos de círculos concêntricos, em duplo s (SS) e escudetes. Posteriormente, a introdução da roda de oleiro permite a estandardização e regularidade das formas cerâmicas, com uma evidente redução das preocupações ornamentais.

O mundo da produção metálica, fortemente associado às fases principais de riqueza mineira da região (essencialmente estanho e ouro), ao nível tecnológico alcançado e aos contactos com o exterior, encontra-se bem documentado no vasto espólio de armas, utensílios diversos, objectos litúrgicos e de adorno, em bronze, ferro e metais preciosos, onde se destacam, para além dos "clássicos" exemplos de machados, foicinhas, lanças e punhais, torques, braceletes e pendentes (todos da Idade do Bronze). Destacam-se também outros elementos, de influência continental, como fíbulas, torques e viriae (joias de base celta), e ainda adornos femininos diversos (de origem mediterrânica), ou peças de armamento defensivo e de ataque, amiúde representadas na iconografia numismática e na estatuária.

De uma forma geral, o espólio conhecido revela uma tradição e um horizonte do Bronze atlântico final, na sua fase original e de formação, em conjunto com as primeiras influências meridionais, sobretudo em conexão com o mundo tartéssico (séculos VIII-VI a. C), prosseguidas com as migrações túrdulas, documentadas sobretudo na margem sul do rio Douro, bem como com o comércio púnico, mais significativo na zona litoral (séculos V-III a. C.). Salientam-se, de igual modo, os movimentos paralelos de origem centro-europeia, de base hallstáttica e post-hallstáttica, de diversos itinerários (este-oeste e sul-norte), em relação directa com a vertente celtica da região, e perfeitamente documentada nas formas linguísticas da onomástica das divindades, povos e lugares. Num último momento, estabelecido pelos primeiros contactos entre povos locais e Roma, assistimos a uma progressiva assimilação do "mundo romano", integrando estas sociedades locais no vasto espaço civilizacional das províncias do império.

A constituição social das comunidades castrejas chegou até nós proveniente, sobretudo, das fontes clássicas, arqueológicas e epigráficas. A sua constituição baseia-se nos laços de sangue e na estrutura celular familiar extensa (a domus), agrupada em unidades supra-familiares, onde o castro (castellum) representa o elemento habitacional e social, integrando um todo mais amplo formado por unidades étnicas maiores (as civitas); ocupa territórios demarcados, gerando espaços muitas vezes susceptíveis de tensão e hostilidade, em que a figura de um chefe guerreiro (representado com frequência na estatuária castreja), surge como elemento de profundo prestígio, ou, provavelmente, como versões locais de estátuas de magistrados, já sob domínio romano. A análise da sociedade deste período revela uma proximidade assinalável entre as unidades sociais e as entidades do foro divino, evidente na sacralização dos espaços, na geografia, na vertente étnica, social e familiar, onde uma estrutura social fortemente hierárquica e guerreira é unificada por uma componente religiosa de cariz abertamente naturalista.

Cultura Castreja Pré-romana. Porto: Porto Editora, 2003-2013. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Numância



Numância é uma cidade espanhola, fundada no início do Séc. III a.C, habitada por Aravecos, um povo Celtibero.
Ficou conhecida pela luta do seu povo contra as tropas de Cipião Emiliano em 134 a.C, depois de um cerco de 11 meses que pôs fim à brava resistência de 20 anos do povo de Numância aos invasores. Cipião Emiliano para quebrar a tenaz persistência construiu um cerco amuralhado em torno da colina de Numância levando os seus habitantes à inanição e ao desespero. Ao fim de 11 meses de cerco, o povo de Numantino, preferiu pôr fim à sua vida suicidando-se em massa, do que ficar escravos das tropas de Cipião, esta luta, é ainda hoje, recordada como, símbolo da resistência contra os romanos.
Não houve glória nem honra na destruição de Numância, apenas uma cruel perseverança.


Numância e Viriato foram, e ainda são hoje, um exemplo das falhas terríveis a que é submetido um povo dividido. Tanto o famoso líder como a cidade mítica procurou meios para unir os povos em luta da Península Ibérica. Se eles tivessem conseguido, Roma teria falhado. Mas cederam às conspirações Senado romano para dividi-los: "aqueles que povoam esta terra não têm a consciência de pertencer a um único país. Na Península Ibérica presta-se mais atenção e interesse à família, clã, tribo que qualquer outra coisa (...) para o povo da Ibéria não os une qualquer sentido comum, por isso, mais cedo ou mais tarde, acabarão dominados por Roma ".
Foi assim e assim será pois parece que não aprendemos com a experiência.
"Numância durante séculos tem sido um mito de referência para as pessoas que lutaram pela sua independência e liberdade."





segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Tardo








O TARDO ou TREVOR é uma espécie de duende, um ser mítico do folclore popular português. O tardo também se chama de pesadelo ou tardo moleiro. O tardo importuna as pessoas que estão a dormir e que depois acordam com um grande pesadelo. Ele pode aparecer na figura de um animal e frequentemente aparece na figura de um cão, gato ou cabra. O tardo quando aparece nos caminhos, nos regatos e nas encruzilhadas e tenta deixar as pessoas desorientadas, sem saber qual caminho seguir, e sai mijando nas pernas das pessoas.
Uma criança pode se transformar num tardo, se o padrinho durante o baptizado não disser as palavras certas. A transformação ocorrerá aos sete anos. A criança antes de se transformar pendura a roupa na árvore mais alta de uma encruzilhada e transforma-se num animal. Se durante sete anos não lhe quebrarem a maldição, transforma-se em lobisomem.

José Leite de Vasconcelos. Tradições populares de Portugal. Biblioteca Ethnografica portuguesa.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Endovélico



É uma das principais divindades que formam a mitologia ibérica, semelhante ao Sucellus (deus gaulês da agricultura, da floresta e das bebidas inebriantes). Segundo Leite de Vasconcellos, que o aparenta a divindades célticas (o seu nome é mesmo céltico), era, para os Iberos, o Deus Muito Bom, como o Dagda dos Celtas.
Faria parte, ainda segundo algumas suposições de estudos recentes, de uma Trindade ibérica, a par de Ataegina e de Runesocesius.
Tem, em Portugal, um santuário perto de Terena, Alandroal, no Alentejo. A sua distribuição geográfica era bastante ampla na Ibéria hispânica, o que reforça as suas conexões com a mitologia céltica.
Endovélico é uma divindade da Idade do Ferro venerada na Lusitânia pré-romana, Deus da medicina e da segurança, de carácter simultaneamente solar e ctónico.

Sendo a sua manifestação Solar,

ANDOVELICO – Manifestação celestial ou evolutiva solar do Deus supremo curandeiro e dos céus Endovélico. Representa o bem e está relacionado com os elementos ar e fogo.

e a sua  manifestação Ctónica:

ENOBOLICO (INDIBILIS)– Manifestação negra original e infernal do Deus lunar Endovélico, senhor do submundo. Está relacionado com os elementos terra e água.



Aproveito para vos deixar esta homenagem a Endovéllico feita pela banda Azagatel:

Cá na terra, lá para o sul,
Corre a água, talha a pedra
Ergue-se o templo de Endovélico
Ser solar e ctónico
Deus da terra da natureza
Médico celestial
Pelos sonhos dá-nos a chave
O oraculo primordial
Os carvalhos contemplam teu lar
Senhor da montanha, espirito infernal
Por nós morreste, escuda-nos na morte
Deus severo da escuridão

Da tormenta foste resgatado num equinócio de outono
Ataegina desceu para te salvar
Deixando o mundo dos vivos à sua sorte…

ENOBOLICO TUSCA OLIA, TAURI F(ÍLIA), PRÓ QUINTO STATORIO TAUROME(ERITO) A(NIMO) L(IBENS) S(OLVIT)

A busca pelos nossos deuses e cultura ancestral é algo essencial para a perservação da nossa cultura e para o desenvolvimento sustentável do país, numa altura em que o multi-culturalismo está a tornar a sociedade em bonecos de plástico sem vontade ou pensamento próprio, urge uma mudança de rumo político-social para evitar uma perda irreversível de um património cultural tão vasto e único como o nosso. Um bem-haja a todos os que para isso lutam!

Endovélico 30-11-2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Portador da Luz

 



O nome “Lúcifer” é muitas vezes empregado como referência a Satanás, mas não existe qualquer fundamento bíblico que sustente esta ideia. A palavra "Lúcifer" é uma má tradução de algumas Bíblias da palavra hebraica hêlîl .

Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?”

Versões bem conhecidas traduzem esta palavra como a "estrela da manhã."
Como tantos outros erros de tradução, este com séculos de consequências apresenta-nos barreiras culturais de intrínsecas histórias tão difíceis de contestar como de provar. No entanto, no verdadeiro significado da palavra e em termos linguísticos e etimológicos, o nome Lúcifer não deveria ser nem associado a Satanás nem a qualquer conotação negativa.

É interessante referir que o Novo Testamento fala sobre a "estrela da alva" (2 Pedro 1:19) e a "estrela da manhã" (Apocalipse 2:28; 22:16). Em todas estas passagens, evidentemente, a estrela da manhã não é Satanás, ou qualquer outra criatura diabólica.
“Lúcifer” é uma palavra latina que significa “portador da luz" (Vem do latim, lux, lucis = luz; ferre = carregar) cuja correspondente em grego é "phosphoros", significa "o portador do archote" ou "o portador da luz".

Além destas noções, existe ainda outra, sendo esta a que mais me apraz. Lúcifer foi um nome dado pelos latinos ao planeta Vénus. Vénus, devido à sua proximidade do sol, torna-se visível quando este se encontra no horizonte, durante o crepúsculo, sejam, esses matutinos ou vespertinos. Daí ser conhecido como a estrela da manhã, e também como a estrela vespertina. Ao amanhecer, a "estrela" Vénus surge no horizonte antes do "nascimento" do sol. É como se fizesse o papel de arauto do sol, despertando o astro rei do seu sono nas regiões abissais e anunciando, de manhã, a chegada do sol. Ao entardecer, Vénus "empurra" o Sol novamente para as regiões obscuras. Talvez tenha surgido daqui a noção de que Vénus ou Lúcifer, estrela da manhã "carrega" o archote, ou, o sol...

No entanto, Satanás é igualmente conhecido como Lúcifer, nome atribuído ao anjo caído, da ordem dos Querubins, como descrito no texto Bíblico do Livro de Ezequiel.
De acordo com a mitologia estabelecida pela igreja católica, Lúcifer era o mais forte e o mais belo de todos os Arcanjos. Deus, concedeu-lhe, então, uma posição de destaque entre todos os seus auxiliares. Segundo a mesma, este orgulhava-se do seu poder, não aceitava servir uma criação de Deus,"O Homem" e revoltou-se contra o Altíssimo. O Arcanjo Miguel liderou as hostes de Deus na luta contra Lúcifer e as suas legiões de anjos corrompidos, derrotando-os e expulsando-os do céu. Desde então, o mundo vive em guerra eterna entre Deus e o Diabo. De um lado Lúcifer e suas legiões tentam corromper as criaturas mortais, obra de Deus, e do outro lado, Deus, os anjos, arcanjos, querubins e Santos travam batalhas diárias contra as forças do Mal (personificado em Lúcifer).


Analisemos então o significado de Diabo e de Satanás.

Pois bem, Diabo significa Acusador, palavra que descontextualizada poderá soar, de facto, mal. Eras algumas atrás, acusar era sinónimo de poder e poder não era propriamente sinónimo de justiça, uma vez que comparativamente aos nossos dias, esse não se estendia muito para além do círculo religioso estabelecido.

Temos ainda Satanás, que tem origem na palavra Satã, que por sua vez significa Adversário. Mais uma vez, se contextualizarmos a utilização da palavra Satanás na era em que esta se conotou negativamente, percebemos a força que a religião da época terá imposto sobre tais conotações, uma vez que visava destruir qualquer vislumbrado adversário que ameaçasse abalar tal super potência.

Como seria de esperar, a linguística destes dois nomes evoluiu de acordo com a sua utilização e poderá ser fácil encontrar definições diversas em termos da sua significado. Encontramos como definição mais vulgarizada nos nossos dicionários, Diabo como sendo o Caluniador e Satanás como sendo o Demónio. Definições adquiridas e não directamente associadas à origem das palavras em si. Tudo é, evidentemente, discutível e tais novas definições, marcadas pela era cristã, não poderão ser consideradas menos válidas que todas as outras.

No Apocalipse 22:16 está escrito: "Eu, Jesus, … sou a raiz e o descendente de Davi, sou a estrela radiosa da manha." — Isto remete-nos para uma discussão interessante, se o próprio Jesus se auto denominou a estrela da manhã, que também é Lúcifer, este nome não deveria ter sido associado ao mal de forma alguma!
Ao pesquisar sobre esta palavra, descobri ainda facto curioso: um Bispo que se chamava Lúcifer, de Cagliari, na Sicília, de 370 a 371, montou uma doutrina contrária a todo e qualquer contacto com os idólatras.

 As origens do nosso povo lusitano remetem, exactamente para um povo que adorava Lúcifer, os Lusos da península Ibérica.
Ficam então aqui alguns factos históricos relativos a tal povo do qual somos oriundos:
Os lusitanos constituíam um conjunto de povos de origem indo-europeia, e habitavam no oeste da Península Ibérica no que hoje é Portugal e parte da Estremadura espanhola.
A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, um dos seus líderes no combate aos romanos. Este chefiava a tribo dos lusitani, considerada por alguns autores a maior das tribos ibéricas, com a qual durante muitos anos lutaram os romanos. As lutas dos lusitanos contra os romanos começaram em 193 a.C. Esta luta só acabou com o assassínio traiçoeiro de Viriato por três companheiros tentados pelo ouro romano.

Mitologicamente, ou seja, em típica interpretação/ tradução/ classificação pagã a cargo de padres cristãos, Luso é o suposto filho ou companheiro de Baco, o deus romano do vinho e do furor. Mitologia esta romana, repescada da grega (Dioniso, Diónisos ou Dionísio era o deus grego equivalente ao deus romano Baco) que em nada se relaciona com a península Ibérica e os povos que nela habitaram. Mais uma vez, contextualizada, se percebe a forte influência que a limitada educação reservada aos que detinham o poder exerceu sobre a nossa sociedade. O que foi interpretado, escrito e divulgado tem influência actual sobre a nossa cultura e crenças.

É esta mitologia pagã que lemos na estrofe 22 do Canto III d'Os Lusíadas de Camões.

Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiros.
Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas,
estrofe 22 do Canto III

Bom, quer se goste, quer não, a identificação da Lusitânia com Portugal vem praticamente das origens da nacionalidade portuguesa: num texto dos finais do século XII, Vida de S.Teotónio, D.Afonso Henriques é designado “(...) rei de toda a Lusitânia e parte da Galiza”. Esta identificação tornou-se tão universal quão indiscutível, e tem-se mantido até aos nossos dias: a Carta Apostólica de 16 de Janeiro de 1946, em que o papa Pio XII constitui Santo António de Lisboa 'Doutor da Igreja', começa com as seguintes palavras: “Exulta, Lusitania felix! (...) ”.

A tribo Lusitani habitava na Serra da Estrela. É inevitável ligar o topónimo 'Estrela' à origem do etnónimo 'Luso': Lúcifer é a Estrela da Manhã (Phosphoros) e a divindade Lux ou Luci era a invocada pelos Lusitanos. O deus Endovellicus, adorado pelos Lusitanos, também se chamava Lu, e supõem alguns que teria derivado daí o nome 'Luso'. Alguns historiadores afirmam com a maior naturalidade que Viriato era um 'adorador de Lúcifer ou Portador de Luz, chefe da tribo mais aguerrida dos Lusitanos, chamada Poesures, acrescentando que por Lúcifer ser conhecido, igualmente, por Estrela da Manhã é que ainda hoje a serra onde viviam os Poesures conserva o nome de Serra da Estrela. Não há dúvida que qualquer povo é único em termos culturais e sociológicos. A genética encarrega-se da passagem de genes dos quais não existe memória, mas cuja presença é incontestável.



Check:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Viriato
http://www.in-loco.com/Viriato.htm
http://viriatus.no.sapo.pt/
http://portugalhistoria.blogspot.com/2008/02/quem-eram-os-lusitanos.html
http://groups.msn.com/smkq6tklbkrpsggg511l6n9287/Lusitnia.msnw





Viriato






Ninguém sabe ao certo quando nasceu Viriato nem a que família pertencia. Segundo a tradição, durante a juventude terá sido pastor nos Montes Herminios, que hoje se chamam Serra da Estrela (1)






Há quem diga que Viriato participou desde muito novo em assaltos-relâmpago às povoações dominadas por romanos. E que já então se distinguia pela agilidade, pela força e pela inteligência guerreira.
No entanto, foi um dos homens que acreditaram nas promessas de Galba e desceram à planície na intenção de se instalar e viver em paz numa terra fértil. Assistiu ao ataque traiçoeiro; não pôde lutar porque não tinha armas, mas conseguiu fugir.
Depois do massacre, todos os lusitanos sobreviventes regressaram aos seus castros nas montanhas. A pouco e pouco reorganizaram-se, fabricaram armas e prepararam o contra-ataque.
No ano 147 a.C. dez mil lusitanos em fúria avançaram para sul e dirigiram-se a uma zona dominada pelos Romanos.
Queriam saquear as povoações e vingar a morte dos companheiros, mas quando menos esperavam perceberam que estavam cercados à distância por um anel de soldados inimigos. Que fazer?
Os chefes, para evitarem nova carnificina, propuseram-se ir negociar a rendição. Viriato opôs-se com veemência. Erguendo a voz, lembrou:
- Os Romanos não respeitam promessas. Enganaram-me uma vez, não me tornam a enganar. Comigo não contem para negociações. Prefiro lutar ou morrer.
O discurso e a firmeza impressionaram toda a gente, sobretudo os outros chefes. E Viriato continuou:
- Se não podemos vencê-los pela força, vencê-lo-emos pela astúcia. Ora oiçam o meu plano.
Propôs-lhes então o seguinte: os homens que combatiam a pé deviam formar grupos e a um sinal combinado disparar em todas as direcções e romper a barreira que os cercava sem dar tempo aos inimigos de se organizarem.
- Enquanto vocês fogem, eu e os outros cavaleiros caímos sobre eles ora de um lado ora de outro, de forma a derrotá-los e a proteger a vossa fuga.
O plano foi aceite; faltava combinar o sinal.
- Fiquem atentos. Quando eu montar a cavalo, já sabem... é ordem para arrancar.
Pouco depois ecoavam gritos de guerra pelos campos, zuniam setas e lanças, por toda a parte se ouvia o tinir das espadas. Os romanos não estavam à espera daquela táctica-relâmpago e, tal como Viriato previra, desnortearam-se. Muitos grupos de peões romperam o cerco e desapareceram, enquanto os bravos cavaleiros lusitanos, apesar de estarem em minoria e de possuírem armas mais fracas, lutavam sem cessar.
O campo de batalha ficou juncado de mortos, o próprio general romano perdeu a vida, mas não se pode falar de vitória ou derrota. Neste confronto, Viriato, mais do que vencer os Romanos, salvou os Lusitanos. A partir de então foi reconhecido e amado como chefe máximo por todas as tribos.
As mulheres sonhavam com ele, os homens admiravam-no, acatavam as suas ordens e seguiam-no com tanto entusiasmo e convicção que durante anos lançaram o terror entre as hostes inimigas. Viriato parecia invencível. E, de facto, em guerra aberta ninguém o derrubou.
No ano de 139 a.C. Viriato foi assassinado à traição, quando dormia na tenda, por três homens da sua tribo que os Romanos tinham aliciado e subornado. Os Lusitanos choraram longamente a perda daquele chefe querido e ficaram muito enfraquecidos. Quanto aos assassinos, parece que não chegaram a obter nenhuma recompensa pelo crime. Segundo consta, foram recebidos com desprezo pelo chefe romano, que lhes terá dito «Roma não paga a traidores».
É engraçado que tudo o que sabemos a respeito deste homem que os Portugueses consideram como o primeiro dos seus heróis foi escrito por autores romanos. Impressionados pela personalidade forte, austera e recta do chefe lusitano, impressionados também pelo imenso valor que demonstrava na guerra, escreveram vários textos elogiosos sobre ele. Apesar de serem adversários, foram os Romanos que deram a conhecer ao mundo a figura de Viriato.

(1) Os historiadores actuais consideram que a ideia de Viriato ter sido pastor nos Montes Hermínios é lendária.
in Portugal - História e Lendas, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada,  ed. Caminho
O Outeiro dos riscos


O Outeiro dos riscos é um conjunto de cabeços que forma um monólito de tamanho considerável. Fica localizado no lugar de Gatão, freguesia de Cepelos, concelho de Vale de Cambra. As gravuras datam o período Neolítico/Calcolítico, resumem-se apenas a motivos circulares onde predominam círculos concêntricos de dimensões maiores, existindo também alguns motivos cruciformes.


Aqui podem ouvir a lenda relativa ao cabeço:

http://ocaco.podomatic.com/player/web/2006-08-12T09_35_35-07_00

Fotografias do arquivo municipal de Vale de Cambra: